Regina Porter - Os viajantes

Literatura norte-americana contemporânea
Regina Porter - Os viajantes - Editora Companhia das Letras - 384 Páginas - Tradução de Juliana Cunha - Capa de Elisa von Randow - Foto de Capa: Consuelo Kanaga, "Young Girl in Profile", 1948 - Lançamento no Brasil: 26/11/2020.

Regina Porter surpreende em seu romance de estreia que pode ser definido como monumental devido à variedade, complexidade e, principalmente, veracidade das múltiplas vozes narrativas a partir de personagens que compõem um painel da história dos Estados Unidos desde a segunda metade do século XX até o início do século XXI. Um tipo de obra cada vez mais difícil de se encontrar na literatura contemporânea e comparável, na sua criatividade, a romances do nível de Lincoln no Limbo de George Saunders, 4 3 2 1 de Paul Auster e Garota, mulher, outras de Bernardine Evaristo, para citar alguns exemplos mais recentes.

O livro não deve ser considerado apenas como uma reflexão sobre a segregação e a discriminação racial nos EUA, embora também o seja, porque – como declarou Regina Porter em sua participação na Flip deste ano – houve uma grande preocupação na forma de contar essas histórias em fugir dos estereótipos, tanto no que se refere à vitimização dos protagonistas negros quanto a demonização dos brancos. Na rica polifonia do romance, cada personagem carrega os seus próprios erros e acertos, assim como as pequenas e grandes tragédias que nos caracterizam como seres humanos e com as quais aprendemos a conviver.

Em uma narrativa não linear, a autora apresenta três gerações de duas famílias, uma branca e outra negra, que têm o seu destino interligado; uma delas formada por James Samuel Vincent, rico advogado, descendente de imigrantes irlandeses em Nova York. O seu filho, Rufus, se casa com Claudia Christie, neta de Agnes Christie, a matriarca de uma família negra com origem no estado da Geórgia. Dezenas de personagens, todas pessoas comuns, alternam o ponto de vista e o protagonismo ao longo do romance com trajetórias de vida emocionantes que coincidem com eventos históricos como as tensões raciais nos anos sessenta, o assassinato de Martin Luther King, a guerra do Vietnã até a eleição e o início do governo de Barack Obama em 2010.

Quando James tinha sessenta anos e Rufus, que já era casado havia vários anos e tinha filhos gêmeos, ligou para perguntar: “Pai, como faço para manter meu casamento?”, ele simplesmente respondeu: “Basta não se separar”. Rufus havia se casado com uma mulher negra chamada Claudia Christie, o que significava que os netos de James, Elijah e Winona, eram multirraciais, birraciais, metade negros. Em Manhattan, para todo canto que James ia havia metade-metades. Certa vez, ele cometeu o erro de usar o termo mulato. Rufus chamou o pai de canto e explicou que aquela palavra estava proibida. Se repetisse aquilo, jamais veria os netos novamente. Ainda assim, quando James andava na rua com Elijah e Winona, seus sentimentos eram tão mesclados quanto a cor da pele deles. “Eles são tão maravilhosos”, era o que as pessoas diziam. Mas não se parecem comigo, confessou James a Adele.

Agnes Christie convive com um forte trauma originado por um estupro que ela sofreu quando foi abordada, juntamente com o namorado, ambos adolescentes na época, durante uma batida policial em uma estrada deserta no Condado de Buckner na Geórgia. Esta agressão provocou a separação do casal e fez com que ela se casasse com Eddie Christie, mudando para o Bronx, em Nova York. Eddie também esconde os seus próprios fantasmas relacionados com o período no Vietnã e uma obsessão pela peça Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos, de Tom Stoppard, com constantes devaneios e visões sobre o roteiro.

Entre tantas outras, a história e a relação mais comovente é a de Agnes Christie e Eloise Delaney. Eloise foi adotada pela família de Agnes depois que um incêndio destruiu a casa de seus pais (fogo e água são referências constantes no romance) e as duas cresceram juntas descobrindo a sexualidade uma com a outra. Com o passar do tempo elas se afastaram, Agnes se conformou com a postura de dona de casa e Eloise assumiu a sua opção sexual por mulheres, levando uma vida de aventuras, inspirada por uma personagem histórica muito pouco conhecida, a primeira aviadora negra do país, Bessie Coleman.

Bessie Coleman foi a primeira mulher que Eloise Delaney amou — mesmo antes de saber o que era amor. Há uma fotografia retangular recortada do Buckner County Register, um jornal negro local, de Coleman em pé sobre o pneu esquerdo do seu biplano Curtiss jn-4 “Jenny”. Sua mão direita, que veste uma luva, repousa sobre a cabine. Ela usa roupas especiais de aviação e olha diretamente para a câmera. A fotografia tem pelo menos trinta anos e data de 1926, o ano da morte prematura da pilota, mas, para os pais de Eloise, o acidente poderia ter acontecido ontem. Eles eram os bêbados da cidade e lidavam com o tempo de um jeito meio estranho. [...] Os pais de Eloise trabalhavam em uma fábrica de processamento de frutos do mar a uns três quilômetros da cidade. Eles cresceram abrindo ostras e tirando a carne de caranguejos e limpando peixes. Receber um salário para fazer algo que era tão natural para eles era como ser pago para sair de férias. Eles conseguiam fazer tudo de olhos fechados sem perder a velocidade. Às vezes, os seus dedos ansiosos se mexiam durante o sono, descartando as brânquias e a barriga grávida da carangueja e extraindo a carne branca e macia. De vez em quando, o gerente da fábrica se via forçado a punir Herbert e Delores por chegarem bêbados ou atrasados ou por faltarem, para dar exemplo aos outros empregados. Ele os punha para curar a bebedeira no olho da rua, e Eloise passava fome até que os pais conseguissem se imiscuir de volta pelos portões da fábrica.

Fotos antigas são intercaladas ao texto, o que lembra uma técnica de W. G. Sebald, insinuando uma atmosfera de não ficção. Na verdade, um dos maiores méritos de Regina Porter com este romance foi o de criar personagens tão verdadeiros que passamos a considerá-los como amigos queridos e que, assim como o livro, já deixam saudade. Vale ressaltar que a leitura demanda atenção redobrada do leitor mais distraído devido à necessidade de memorizar uma grande variedade de tramas e personagens, mas o esforço vale muito a pena, posso garantir. Uma excelente recomendação para este final de ano, independente da cor da sua pele.

Sobre a autora: Regina Porter nasceu em 1966, em Savannah, Georgia, Estados Unidos. Dramaturga premiada, com passagem pelo New York Stage and Film, Porter se formou no Iowa Writer's Workshop, na Universidade de Iowa, onde foi residente na temporada 2017-2018. Os viajantes é o seu primeiro romance.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Os Viajantes de Regina Porter

Comentários

Adriane Garcia disse…
Muita vontade de ler. Obrigada!
Alexandre Kovacs disse…
Adriane, você vai gostar muito!

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