Paul Auster - 4 3 2 1

Literatura norte-americana contemporânea
Paul Auster - 4 3 2 1 - Editora Companhia das Letras - 816 Páginas - Tradução de Rubens Figueiredo - Lançamento no Brasil: 11/06/2018 (Leia aqui um trecho em pdf disponibilizado pela Editora).

Este romance marca o retorno de Paul Auster ao mercado editorial após um período de sete anos sem lançamentos na área de ficção, tendo sido não só o finalista, mas também o favorito do influente Man Booker Prize do ano passado, quando foi superado por Lincoln no Limbo de George Saunders, em uma decisão nada fácil para os juízes, em uma das versões mais competitivas da premiação em muitos anos,  e que contou ainda com os livros de Arundhati Roy e Zadie Smith na longlist de 2017.

O projeto literário de Paul Auster, com o interessante título em contagem regressiva: 4 3 2 1, é bem diferente de outras obras de sua bibliografia (ler as resenhas de A Trilogia de Nova York e Sunset Park), tanto pela extensão quanto pelo estilo de romance de formação com cunho realista e histórico. Ambientado, em sua maior parte, nos subúrbios e na cidade preferida do autor, Nova York, o romance é constituído, na verdade, por quatro romances em um só. Auster parte da mesma origem familiar de seu protagonista, Archie Ferguson, imaginando quatro possíveis trajetórias para a sua vida, durante o período da infância até a juventude. O primeiro capítulo (1.0) é comum a toda a narrativa e descreve a imigração do avô paterno, judeu soviético, que chega nos Estados Unidos em 1900, o seu estabelecimento no país, o encontro e o casamento dos pais de Ferguson, Rose e Stanley, e o seu nascimento em 1947 mas, a partir do capítulo 1.1 em diante, revelam-se diferentes alternativas para o protagonista (1.2, 1.3 e 1.4) que serão desenvolvidas em paralelo por todo o livro (2.1, 2.2, 2.3, 2.4...).

O romance demanda não apenas tempo, mas também concentração redobrada do leitor ao longo de suas mais de 800 páginas. O surgimento de dezenas de personagens que se multiplicam e mudam nas diferentes versões, fazem com que ocorra, com frequência, uma certa confusão que, pelo menos no meu caso, começa a embaralhar os detalhes da história dos quatro protagonistas, um fenômeno de imersão parecido com a repetição de nomes das gerações da família Buendía no clássico Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez. No entanto, em ambos os casos, esta dificuldade não é importante para o sentido global da história, na verdade esta sensação de imersão, constitui um efeito proposital do conceito literário de cada autor. Logo, não é fundamental guardar o nome de todos os personagens ou até mesmo o fato de confundir algumas características do protagonista em suas diferentes versões, apesar de que não existem falhas de continuidade, posso garantir.
"Estava claro que o ator central de seu drama se encontrava em sua virilha. Ou, para retomar a terminologia dos antigos hebreus, em seu baixo-ventre. Quer dizer, suas partes íntimas, que na literatura médica são referidas comumente como genitália. Desde quando ele se entendia por gente, sempre teve uma sensação boa ao se tocar ali, mexer no pênis quando ninguém estava olhando, na cama de noite ou de manhã cedo, por exemplo, manipular aquela protuberância de carne até que ela se levantasse dura no ar, duplicando ou até triplicando de tamanho e, com essa mutação espantosa, um tipo incipiente de prazer começava a se espalhar pelo corpo, em especial na metade inferior do corpo, a sensação de um impulso sem forma que ainda não era o êxtase, mas sugeria que o êxtase, um dia, seria alcançado por um tipo semelhante de fricção. Agora Ferguson estava crescendo sem parar, toda manhã seu corpo parecia ficar um pouco maior do que na véspera e o crescimento do seu pênis seguia o mesmo ritmo, já não era mais o pintinho enrugado da infância pré-pelos, e sim um apêndice cada vez mais substancial, que agora parecia possuir uma mente própria, que se alongava e endurecia à menor provocação, sobretudo naquelas tardes em que ele e Howard examinavam as revistas de mulheres nuas de Tom." 1960, Ferguson-2 aos treze anos (Pág. 170)
O efeito da simultaneidade dos protagonistas oferece uma oportunidade ficcional única para que Paul Auster possa abordar o conturbado momento histórico norte-americano, durante os anos cinquenta e sessenta, a partir de diferentes pontos de vista. Sendo assim, os eventos mais importantes dessas décadas servem como pano de fundo para o romance, entre eles: a Guerra Fria, a crise dos mísseis russos em Cuba, o assassinato de Kennedy, o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, as contestações sociais e conflitos raciais, o movimento da luta pelos direitos civis, o assassinato de Martin Luther King, o surgimento da contracultura e, finalmente, o movimento libertário de 1968 no mundo e os seus efeitos na sociedade norte-americana. Cada um desses eventos tem um efeito e uma participação diferenciada de cada Ferguson, seja como repórter, escritor, estudante ou simplesmente cidadão.
"No dia 7 de fevereiro, oito soldados americanos foram mortos e 126 foram feridos num ataque do vietcongue contra uma base militar em Pleiku — e começou o bombardeio do Vietnã do Norte. Duas semanas depois, no dia 21 de fevereiro, poucos dias depois do fim da temporada de basquete do ensino médio, Malcom X foi fuzilado por assassinos da Nação do Islã, na hora em que estava fazendo um discurso no Audubon Ballroom em Washington Heights. Eram esses os dois únicos assuntos que pareciam existir, escreveu Ferguson numa carta para a tia e o tio na Califórnia, o crescente banho de sangue no Vietnã e o movimento dos direitos civis, na esfera local, os Estados Unidos brancos em guerra contra os amarelos no Sudeste Asiático e os Estados Unidos brancos em conflito com seus próprios cidadãos negros, que estavam cada vez mais em conflito consigo mesmos, pois o movimento que já havia se dividido em facções estava se fracionando ainda mais, em facções de facções, e talvez até em facções de facções de facões, todo mundo em conflito com todo mundo (...) " 1965, Ferguson-1 aos dezoito anos em Nova York (Pág. 373)
O núcleo de personagens, formado pelos pais, parentes, amigos e namoradas de Ferguson é basicamente o mesmo (embora cada capítulo sempre apresente alguns específicos), contudo em cada versão eles assumem trajetórias e até mesmo personalidades diferentes ao longo da trama. É bastante peculiar que, não só o destino do protagonista seja aleatório em cada versão, mas também o dos outros personagens. Sendo assim, em uma das versões o pai se torna um milionário, proprietário de uma cadeia de lojas de móveis e eletrodomésticos para, em outra versão, morrer em um incêndio criminoso planejado pelo próprio irmão. É claro que os efeitos na formação do protagonista são completamente opostos, mas não garantem uma vida feliz ou infeliz, evito apresentar maiores detalhes para não correr o risco do imperdoável spoiler na resenha.
"'Odisseia' era o segundo livro na lista de Gil. 'Ilíada' veio antes, e, depois de vencer a travessia dos dois poemas épicos do anônimo bardo dos bardos a quem deram o nome de Homero, Ferguson jurou que ia ler mais noventa e oito livros nos dois anos seguintes, inclusive tragédias e comédias gregas, Virgílio e Ovídio, parte do Velho Testamento (versão de Rei Jaime), 'Confissões' de Santo Agostinho, 'Inferno' de Dante, mais ou menos metade dos 'Ensaios' de Montaigne, não menos de quatro tragédias e três comédias de Shakespeare, 'Paraíso perdido' de Milton, trechos escolhidos de Platão, Aristóteles, Descartes, Hume e Kant, 'The Oxford Book of English Verse', 'The Norton Anthology of American Poetry', bem como romances ingleses, americanos, franceses e russos de escritores como Fielding-Sterne-Austen-Hawthorne-Melville-Twain, Balzac-Stendhal-Flaubert, e Gógol-Tolstói-Dostoiévski. Gil e a mãe de Ferguson esperavam que seu filho, incapaz de servir o Exército, ex-ladrão de livros, mudasse de atitude a respeito de entrar para a faculdade em um ou dois anos, mas caso Ferguson persistisse em recusar os benefícios da educação formal, pelo menos aqueles cem títulos lhe dariam algum conhecimento sobre alguns dos livros que toda pessoa culta deveria ler." 1965, Ferguson-3 aos dezoito anos em Paris (Pág. 506)
Paul Auster lida com o fascinante efeito do acaso que vai moldando um destino imprevisível em nossas vidas e me faz lembrar de uma frase famosa de outro grande amante da cidade de Nova York, Woody Allen, quando afirma: "Quer fazer Deus rir? Conte-lhe os seus planos para o futuro". Somente a literatura e o amor por Amy Schneiderman permanecem os mesmos em todas as versões de Ferguson. Por sinal, este livro faz parte daquele seleto grupo de obras que são inspiradoras para escritores em geral, uma vez que existem muitas passagens descrevendo detalhes do processo criativo e diferentes projetos literários, um exemplo claro de metaficção. Interessante notar também o fato de Paul Auster ter escolhido o mesmo local (Newark, NY) e praticamente a mesma data de nascimento para o seu protagonista (03/03/1947) diferente apenas em um mês da sua própria (03/02/1947), não há dúvida, portanto, sobre a carga de material autobiográfico presente no romance.
"Ele tinha dinheiro o bastante para se sustentar por um ano e, nos primeiros cinco meses daquele ano, Ferguson conseguiu se virar numa boa, seguindo seu plano à risca. Agora, só quatro coisas tinham importância para ele: escrever seu livro, amar Celia, amar os amigos e ir ao Brooklyn College e voltar para casa. Não que Ferguson tivesse parado de prestar atenção no mundo, mas o mundo não estava mais simplesmente se desfazendo em pedaços, o mundo tinha pegado fogo e a pergunta era: O que fazer, ou não fazer, quando o mundo pega fogo e você não tem o equipamento para apagar as chamas, quando o incêndio está tanto dentro de você quanto à sua volta e quando, a despeito do que você faça ou deixe de fazer, suas ações não servem para modificar nada? É melhor se aferrar a seu plano e escrever o livro. Foi a única resposta que Ferguson conseguiu imaginar. Escrever o livro, substituindo o incêndio real por um incêndio imaginário, e torcer para que o esforço acabasse dando em alguma coisa que fosse mais do que nada. Quanto à ofensiva do Tet no Vietnã do Sul, quanto à desistência de Lyndon Johnson de concorrer à presidência, quanto ao assassinato de Martin Luther King: Observar tudo isso com o maior cuidado possível, assimilar tudo o mais fundo possível, porém nada mais além disso. Ele não ia combater nas barricadas, mas ia aplaudir os que combatessem, e depois voltaria para seu quarto para escrever seu livro." 1968, Ferguson-4 aos vinte e um anos em Nova York (Pág. 774)
Desculpem o clichê, preciso admitir que ambicioso é um adjetivo pouco original, porém se adapta perfeitamente a esta obra de Paul Auster, um autor já consagrado, mas que não tem medo de arriscar ao escrever sobre um tema tão escorregadio quanto os efeitos do acaso em nossa existência. Um livro que nos oferece um tetra-protagonista carismático que compensa o tempo e o esforço investidos na leitura, provocando a estranha reflexão de que somente a literatura pode conceber algum sentido para a imprevisibilidade da vida e proporcionar uma espécie de vingança contra os deuses que se divertem manipulando o nosso destino.
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