Sara anda mais bonita, um conto de Valéria Martins

Conto de Valéria Martins
Mulher com Gato (1953) - Di Cavalcanti

Sara anda mais bonita
(Valéria Martins)

Ela sempre foi bonita, mas agora está mais. Não sei o que anda fazendo. Escova progressiva, regime. Só sei que de repente passou a brilhar. Todo mundo olha, até eu. Ela trabalha do meu lado. Às vezes, me desvio do que estou fazendo para olhar.

Sara sempre foi tranquila, boazinha... Mas começou a mudar devagarinho o jeito de ser. Um sorriso de canto de boca, um olhar malicioso. Até o jeito de andar mudou, agora rebola demais.

Também faço escova progressiva e regime, mas não tem o mesmo efeito. Meu cabelo parece caroço de manga chupada. Meus ossos são pontudos e o regime os faz mais salientes. Tento rebolar e imitar o novo jeito de olhar da Sara, mas duvido que pareça com ela.

Sexta passada, saímos juntas do escritório. A turma foi beber e o bar era perto da casa dela. Me convidou a subir e tomar uma ducha. Ainda podíamos retocar a maquiagem. O apartamento é uma quitinete em Copacabana com vista para a área interna do prédio. Casa normal de mulher solteira, enfeites bacaninhas, almofadas e cortinas combinando.

Sara tem um gato, deu comida a ele e molhou as plantas enquanto eu usava o chuveiro. Quando saí, ela trocava de roupa. Virei o rosto, mas parece que meus olhos tinham ímãs que teimavam em focar na Sara. A pele bronzeada sem marca de biquíni brilhava como a pedra do sol de um anel que eu tenho. Nos bicos dos seios, duas estrelinhas, o sexo, uma luz pulsando.

Senti um calor entre as pernas. Virei de costas e saí do caminho para ela entrar no banheiro. Mas minha vontade era entrar junto e me banhar com ela. Cruzes! Nunca gostei de mulher, mas desde aquele dia a Sara não me sai da cabeça. Eu durmo e acordo com ela, me masturbo pensando nela.

Sara tem uma rotina misteriosa. Às vezes desaparece na hora do almoço, depois pergunto aonde foi e me diz que o gato está doente, e que foi em casa dar remédio. Nesses dias se atrasa e quando volta ao escritório parece ainda mais bonita.

Resolvi seguir a Sara. Ela saiu meio-dia em ponto e fui atrás, a uma distância segura. Tomou um ônibus na Avenida Rio Branco, desses rápidos que vão pelo Aterro. Entrei também e sentei no último banco. Chegando à Barata Ribeiro, na altura da Praça do Lido, ela saltou. Esperei um pouco e saltei também. O apartamento da Sara fica mais pros lados da Santa Clara, então não era para casa que ela estava indo.

Vi quando entrou numa loja onde, até pouco tempo, funcionava uma boate. Esse lugar é caveira de burro, nada ali dá certo. Já foi bar não sei quantas vezes, já foi restaurante. Tudo abre, dura alguns meses, e fecha. Agora não tem nada funcionando, as vidraças sujas de fuligem não deixam ver o que tem dentro.

Me aproximo da porta e vejo que está encostada. Hesito. E se eu for descoberta? Antes de pensar, ajo. A mão encosta na maçaneta e entro. Tudo escuro, empoeirado. Móveis cobertos com panos, cadeiras de pernas para o ar em cima das mesas. Ouço uns barulhinhos, acho que são ratos. Lá adiante, uma lâmpada pende do teto. Uma passagem.

Entro por um corredor com luz vermelha e várias portas em ambos os lados. Será um motel? Essa região de Copacabana é cheia de inferninhos, boates de putas, shows de sacanagem. Sigo andando, mais à frente tem luz vindo de uma porta entreaberta. Vou até lá, entro.

Sara está parada, nua, de pé em frente a um homem sentado em uma cadeira, fumando charuto. Ele é bem velho, pele morena, cabelo totalmente branco, liso, preso num rabo de cavalo. Veste terno igualmente branco com sapato e gravata pretos. Olha-me com indiferença, fumando seu charuto. Sara sorri. Sinto que vão começar algo que eu não sei o que é, e que morro de vontade de saber, mas me vem um medo, uma vontade de correr, ao mesmo tempo uma vontade de ficar.

O medo e a vergonha são mais fortes e vou embora, passos rápidos através do corredor vermelho, até a luz da rua me cegar. Ando sem rumo por Copacabana, vou até um bar de gringos, peço uma bebida pra acalmar. Deixo a mente vaguear repetindo a cena, cada detalhe: a pele morena de pedra do sol, os bicos de seio de estrelinha, o sexo pulsante. O velho indiferente, mas com cara de quem sabe tudo, sabe coisas que eu não sei, que a Sara não sabe, que ninguém sabe.

No meio de tudo, uma certeza: eu queria ver. Queria assistir o que eles fazem ali.

Parada em frente ao computador, no escritório, sinto a Sara se aproximar por trás. Toca o meu ombro, me cumprimenta como se nada tivesse acontecido. Está atrasada porque foi em casa cuidar do gato. A vizinha disse que viu o bicho no parapeito da janela, esse gato maroto que dá um trabalho danado.

Ela se senta e continuamos a trabalhar.

Hoje é o dia.

Vou com Sara no ônibus para Copacabana. Vamos sentadas olhando a paisagem, o Aterro do Flamengo, a Baía de Guanabara, o shopping Rio Sul. Saltamos na altura da Ronald de Carvalho, atravessamos a Barata Ribeiro e seguimos sem dar palavra, eu atrás dela como um cão seguindo o dono, sem dúvidas nem preocupações, confiante que me levará aonde devo ir.

Em frente à antiga boate fechada, ela pousa a mão na fechadura e abre. Será que qualquer um pode entrar fácil assim? Desconfio que essa porta se abre somente para a Sara e para mim, que a acompanho. Entramos na sala empoeirada e cheia de ratos, cheirando a mofo.

Na outra extremidade, a passagem iluminada, o corredor com a luz vermelha. Vamos até o final. Sara entra na minha frente e lá está o velho de pele escura e fino cabelo branco, sentado na cadeira, pernas cruzadas, charuto na mão. Olha-nos com indiferença. Sara pousa a bolsa no chão, vai até ele e faz uma reverência. Eu a imito, desajeitada.

Ela, então, se afasta. E começo a tirar a roupa.


Literatura brasileira
Valéria Martins - Sara anda mais bonita - Editora 7Letras Selo Megamini - 24 Páginas - Lançamento: 2016.

No final de 2014 e início de 2015, a 7Letras criou o selo Megamíni, voltado para a edição de minilivros artesanais em tiragens numeradas limitadas.

Valéria Martins é jornalista formada pela PUC-Rio e 15 anos no mercado editorial. Trabalhou nas editoras Campus/Elsevier e Grupo Editorial Record. Em 2008 fundou a agência literária Oasys Cultural. É autora de cinco livros, entre eles, o volume de crônicas A Pausa do Tempo (Ed. Jaguatirica, 2013) e o conto Sara anda mais bonita (Coleção Megamíni, 7Letras, 2016).
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