Andrea Dip - Em nome de quem?

Política
Andrea Dip - Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder - Editora Civilização Brasileira - 160 Páginas - Lançamento: 21/05/2018.

Este livro-reportagem aborda um tema importante, delicado e extremamente atual ao avaliar a atuação do Congresso brasileiro na legislatura 2015-2019 e o crescimento da bancada evangélica durante o período. A jornalista Andrea Dip descreve alguns eventos marcantes e recentes da política nacional e os possíveis desdobramentos na eleição presidencial que ocorrerá este ano. Não é uma tarefa simples entender a história no momento em que ela está acontecendo, principalmente quando o entendimento envolve dois assuntos que não deveriam se misturar: política e religião. Independente da orientação política e religiosa do leitor, o livro é uma fonte valiosa de informação para sabermos onde estamos e para onde vamos.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff e a formação e sustentação do governo de Michel Temer, foram viabilizados pela aproximação dos partidos da direita conservadora com políticos integrantes da bancada evangélica, mostrando a força desta nova distribuição política no Congresso. Como outros exemplos recentes desta nova ordem política nacional temos: a eleição em 2016 do bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio de Janeiro, o crescimento do movimento de apoio ao deputado federal Jair Bolsonaro, membro da Assembleia de Deus, para a campanha presidencial de 2018 e a criação de uma agenda política conservadora unida em torno da ideia de preservação dos "valores cristãos" e defesa da "família tradicional" por meio de Projetos de Lei como o Estatuto da Família.
"O número de evangélicos no Parlamento brasileiro cresceu acompanhando o aumento da quantidade de fiéis. Segundo dados do último Censo Demográfico do país, realizado pelo IBGE em 2010, houve um aumento de 61,45% em 10 anos no Brasil. Em 2000, cerca de 26,2 milhões de pessoas se declaravam evangélicas, 15,4% da população. Em 2010, o número passou a 42,3 milhões, 22,2% dos brasileiros. Já no fim de 2016, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha, 29% dos brasileiros se afirmavam evangélicos — 3 em cada 10 pessoas com mais de 16 anos." (Págs. 26 e 27)
A autora em nenhum momento procura demonizar a religião ou criticar o crescimento das Igrejas Evangélicas, mas é importante notar que o Brasil é um Estado secular, ou laico, tendo como princípio a imparcialidade em assuntos religiosos, não apoiando ou discriminando, portanto, nenhuma religião já que a nossa Constituição garante a liberdade de crença religiosa aos cidadãos, assim como a proteção e respeito às manifestações religiosas. Desnecessário dizer que a mistura de política e religião é o primeiro passo que pode levar a uma Teocracia, sistema de governo que nunca gerou bons resultados na história da humanidade.

As alianças políticas da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) buscam além da defesa dos temas morais (por exemplo, oposição às políticas de incentivo aos Estudos de Gênero), os próprios interesses institucionais das Igrejas Evangélicas como a manutenção de isenção fiscal, a manutenção das leis de radiodifusão, a obtenção de espaços para a construção de templos e a transformação de eventos evangélicos em culturais para obtenção de verbas públicas, isso sem falar nos recentes escândalos no Rio de Janeiro envolvendo o prefeito Marcelo Crivella e o fornecimento de vantagens para evangélicos.

O livro apresenta entrevistas com integrantes da bancada evangélica, citações de trabalhos de pesquisadores, sociólogos e filósofos, sempre utilizando uma abordagem jornalística e um texto claro e objetivo. A conclusão é que a Igreja Evangélica ocupa em nossa sociedade um espaço abandonado pelo Estado e de que existe sim um projeto de poder em andamento, que já mostra seus primeiros resultados, resta saber em nome de quem, como questiona o título do livro. Certamente não deve ser em nome de Deus ou do povo brasileiro.
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