Alex Andrade - Antes que Deus me esqueça

Literatura contemporânea

"O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído. Não derrotado.", esta citação de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway, escolhida por Alex Andrade para a epígrafe do seu romance Antes que Deus me esqueça, resume bem o destino de Joca, o sofrido protagonista que passou a se chamar assim depois de um erro do escrivão do cartório, pois seu nome deveria ter sido Joaquim de Jesus Silva, igual ao avô que tinha ascendência portuguesa, como era a vontade da mãe Joana, nascida parda e pobre no subúrbio do Rio de Janeiro, em uma família de oito irmãos e uma tia encalhada que tomava conta das crianças enquanto a mãe lavava roupas para fora.

A simplificação do nome na certidão de nascimento foi um dos muitos erros que levaram Joca até a situação na qual o encontramos no início do romance, em uma cela miserável de presídio: "Faz mais ou menos um ano e meio que divido a cela com mais seis pessoas, antes éramos três. Não dá para confiar nem para reclamar, qualquer atrito eles te mandam para a solitária." A narrativa passa a ser conduzida então, de forma retrospectiva em primeira pessoa e o leitor vai descobrindo, aos poucos, que a sequência de erros na vida de Joca começa, na verdade, na sua concepção, resultado de um estupro que eliminou de vez as possibilidades de que Joana, dona de "um corpanzil roliço e pernas arqueadas" e agora mãe solteira, conseguisse um bom casamento, sonho das moças cariocas nos anos cinquenta. Pobre Joca, as suas chances, que já eram mínimas, se reduziram ainda mais.

Joana escondeu a gravidez da família por muito tempo, mas finalmente "deu à luz como quem arranca dentro de si um caroço de manga" e Joca foi "cuspido e jogado" no chão da viatura policial, após um acidente de trânsito com o taxi que os levava até o hospital. Ela foi expulsa de casa pela mãe aos gritos de vagabunda e foi morar com a irmã mais velha, Marieta, "mulata corpulenta de seios fartos" que tinha se estabelecido em um sobrado azul de dois andares, uma casa que passava o dia fechada e ressurgia à noite, na verdade um movimentado bordel localizado na área da Lapa. Apesar de todos os problemas, talvez tenha sido a época mais feliz da vida de Joca, criado pelas mulheres daquele lugar, ignorado, mas consentido pela sociedade da época. Uma infância sem a figura paterna, a grande interrogação do menino que, na bela passagem abaixo, brinca escondido atrás da cortina no salão do bordel tentando achar um homem que poderia ser o seu pai, entre os clientes da casa.
"Depois, continuei a minha investigação, como um detetive astuto. Percebi logo à frente tia Solange bebendo, acompanhada de um outro homem. Esse era mais claro. Se meu pai fosse claro, a cor dele misturada com a de minha mãe daria um pretinho encardido como eu. Os meninos da escola diziam que eu era café com leite. Os mais velhos diziam que eu não era nem uma coisa nem outra. Não tinha raça para eles. Minha mãe dizia que eu era negro. Eu olhava aquele homem branco e imaginava a possibilidade de ser filho dele. Bastava isso para mim, ser filho de um pai. Mas os olhos dele eram diferentes. E ele também não era tão alto. Eu iria ser alto quando crescesse. E me imagino forte também. Ele era magrinho. Tio Antonio disse que eu tinha que aprender a lutar boxe para socar os meninos, que esse negócio de morder era coisa de maricas. Quando crescer, vou lutar boxe. Fechei a brecha da cortina. Fechei os olhos. Era como uma brincadeira de achar o meu pai no meio daqueles homens. Sem saber rezar direito, fui rezando assim mesmo, todo ao contrário. Tornei a abrir os olhos, me benzi e fui devagarzinho abrindo a brecha da cortina. Dessa vez, meu pai vai estar ali, bem na minha frente."  (Pág. 66)
Quando o bordel é fechado pela polícia, Joana e o filho são novamente expulsos e ela retorna para o bairro onde cresceu, no subúrbio de Encantado, para descobrir que, depois da morte da mãe, a casa da família é agora um templo religioso, organizado pela tia solteirona. Ela acaba conseguindo morar de favor na casa de uma prima. É neste bairro que Joca vai passar toda a juventude e, apesar dos esforços da mãe, acaba seguindo um caminho tortuoso e violento, primeiro trabalhando como apontador do jogo do bicho e depois negociando com o tráfico de drogas na favela de Acari, um caminho sem volta. Na favela ele encontra um homem que pode ser o seu pai, mas este encontro lhe trará ainda mais dor e sofrimento. 
"Estava trancado na solitária, espremido, sem conseguir esticar as pernas. Uma sensação estranha de que o mundo estava me engolindo foi pouco a pouco tomando conta dos meus pensamentos. Eu tentava em vão mexer o corpo: se virasse para um lado, não conseguia espaço e voltava então para a mesma posição fetal. Era uma cela pequena, escura, apenas um buraco de onde vinha um fedor horroroso. Tive o ímpeto de vomitar. Mas o estômago estava oco, e as dores no abdômen não cessavam. Quis gritar, mas a voz não saía de jeito algum. 'Alguém me tire daqui, por favor', eu tentava em vão, com um fiapo de voz. Perdia gradativamente o controle do movimento do corpo, estava ferido, a boca com gosto de sangue, que era metal, que era sal, que era veneno, que não era nada, como se eu fosse fruto do nada. 'Me tirem daqui', insistia, exausto. Nenhum barulho se ouvia do lado de fora. Fiquei esperando que algum passo se aproximasse. A boca seca paralisava os sentidos, só me restava o sangue amargo. Não tinha noção de quanto tempo estive preso naquele lugar nem como tinha chegado até lá. As lembranças foram se apagando da memória, e eu estava me esquecendo de mim." (Págs. 223 e 224)
Um romance de formação às avessas, onde o protagonista vai sendo massacrado, reduzido na sua dignidade, por um destino implacável e violento do qual não consegue escapar, sente-se esquecido por Deus, envolvido em uma luta de boxe na qual não tem a menor chance de vencer e, no entanto, não desiste, lutará até o final porque, assim como o personagem de Hemingway em O Velho e o Mar, ele pode ser destruído, mas nunca derrotado.

Literatura brasileira contemporânea
Alex Andrade - Antes que Deus me esqueça - Editora Confraria do Vento - 236 Páginas - Lançamento: Julho/2018.

Sinopse da Editora: O romance nos revela uma trama instigante na luta de um homem que, ao buscar a superação de suas sombras, mergulha em um profundo tormento, na medida em que se debate para desvencilhar-se das mesmas.

Biografia do autor: É escritor e arte-educador, nascido no Rio de Janeiro. Publicou os livros de contos A suspeita da imperfeição, Poema, Amores, truques e outras versões e As horas, os infantis O pequeno Hamlet, A galinha malcriada e A história do menino e o romance Longe dos olhos.
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