Geraldo Lima - Quem foi que soltou os cavalos no campo de trevas?

Geraldo Lima - Quem foi que soltou os cavalos no campo de trevas? - Editora Patuá - 228 Páginas - Capa e Projeto Gráfico: Roseli Vaz - Lançamento: 2026.

O mais recente lançamento de Geraldo Lima, o romance Quem foi que soltou os cavalos no campo de trevas? é ambientado em Brasília durante o conturbado período do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. A narrativa acompanha João Carlos, um brasiliense de meia-idade, funcionário público que trabalha na Divisão de Licitações de um Ministério. Separado de Carmem, com quem teve duas filhas, Mariana e Marina. João Carlos parece não perceber que sua vida se tornou uma sucessão de dias sem objetivo. Entre o trabalho burocrático e as noites de bebedeira com “seus companheiros de jornada e desilusão”, Martins e Bernardo, ele atravessa uma rotina estagnada até ser surpreendido pela inusitada aparição de uma cigana, que lê sua mão e profetiza, como é comum nesses casos, boas novas no amor e no trabalho.

Esse episódio poderia ter passado despercebido, como tantos outros ocorridos no Bar do Lopes, onde o trio de amigos ainda se vangloriava de permanecer à margem da corrupção generalizada dos partidos políticos. No entanto, a forma como João Carlos passou a agir depois daquela noite contraria seu estilo de vida e suas convicções ideológicas. Sinais de mudança começam a surgir em sua rotina de servidor público de carreira: ele passa a ser assediado por pessoas fora de sua esfera habitual, em uma “intimidade desconcertante”, inclusive com a sensual Lurdes e é até chamado para uma conversa informal com o próprio ministro. Essa nova configuração profissional o conduz a um estado de euforia anormal, acompanhado por sonhos recorrentes com cavalos, que parecem anunciar transformações mais profundas.

"Há três meses uma cigana leu a mão direita de João Carlos num bar da Asa Norte. Apesar do estado de embriaguez em que ele e seus companheiros de mesa se encontravam, as imagens desse acontecimento imprevisto mantêm-se intactas e sem borrões em sua memória. Até a sensação de cócegas dos dedos da cigana, percorrendo minuciosa as linhas da sua mão, não desapareceu. As palavras que ela disse, num tom de voz suave, persuasivo, e olhando às vezes direto nos olhos dele, também não se dissiparam. A imagem de uma cicatriz no pulso esquerdo, vista num relance, ainda o faz cogitar um momento tenso e trágico na vida dela./ Assim como o encontro de Macbeth com as três bruxas na charneca, que lhe vaticinaram um futuro de glória, esse encontro com a cigana tem mexido com a cabeça de João Carlos. Da vida desinteressada e sem muitos propósitos, que o fez estacionar num remanso, viu-se arrastado para um redemoinho de expectativas e ambições." (p. 11)

Na esfera sentimental, mudanças também ocorrem de forma acelerada na até então extinta relação com Carmem. Apesar da relutância inicial da ex-mulher e dos conflitos internos diante da possibilidade de retomar o casamento,  explorados pelo autor com humor sutil, ela acaba se reaproximando de João Carlos, assim como as filhas, após um período de afastamento motivado pela vida boêmia do protagonista. Tudo parece confirmar as previsões da cigana, e João Carlos, ingenuamente, deixa-se levar pela aparente maré de sorte. No entanto, as transformações no trabalho estão inevitavelmente ligadas a interesses escusos e à corrupção generalizada que assola o país. Isso se torna evidente quando a organização que manipula as licitações revela o preço que ele terá de pagar para ascender a um cargo superior na hierarquia do Ministério.

"O que continua intrigando-o é o porquê de ter começado a sonhar com cavalos com tanta frequência. Há algumas semanas, sonhou com um, todo branco, que aparecia e desaparecia diante dos seus olhos enquanto ele o seguia, embrenhando-se cada vez mais no mistério. O que significavam os dois cavalos soltos ali na superquadra e essa manada selvagem em pleno Eixão? Talvez esta última seja só a projeção de algo que ele viu há muitos anos [uma cena de filme de faroeste, com certeza] e que agora, deslocada no tempo e no espaço, havia ganhado corpo e movimento no seu sonho. Mas, e os cavalos selados pastando a grama bem ali em frente? Por mais espantoso que seja, ele não consegue afirmar se essa imagem era fruto de um sonho ou de uma visão real. Na tentativa de reencontrar o pleno domínio dos sentidos, repete para si mesmo: eles estiveram lá, imponentes, e teria bastado descer sem fazer barulho, me aproximar deles, montá-los e sair cavalgando. No entanto, entremeando essa aparente realidade, paira uma névoa de delírio e sonho. E é nessa zona obscura, imprecisa, que sua mente patina sem chegar a uma imagem acabada e irretocável." (p. 63)

As mudanças na vida de João Carlos, que à primeira vista pareciam positivas, logo se revelam uma ameaça à sua segurança e à de sua família, sobretudo quando decide permanecer fiel aos seus princípios e recusar as vantagens oferecidas, inclusive pelo ex-amigo de botequim, Martins. Um elemento adicional da trama é a presença do racismo, que permeia o cotidiano de uma família negra obrigada a enfrentar situações de preconceito racial e social. A progressão descontrolada dos eventos reforça a observação do autor, também roteirista e dramaturgo, em determinado trecho do romance"A vida é realmente um filme em que o roteiro vai sendo escrito segundo a segundo, no mesmo instante também em que vai sendo filmado, editado, distribuído e exibido para meio mundo."

"Aquele Ministro [que João Carlos havia visto de perto apenas uma vez] tinha realmente algo de tão importante assim para lhe dizer? Que motivos fora do comum [fora também da sua agenda oficial] o levaram a chamar a seu gabinete um simples funcionário de carreira? Que tipo de revelação ou ordem de serviço ele deveria esperar daquele homem alto, branco e simpático, aparentemente se esmerando além da conta para se mostrar mais simpático ainda? / O fato é que João Carlos saiu de lá sem o saber. O Ministro falou de tudo, menos do porquê de ter mandado chamá-lo. Por várias vezes, deu a impressão de estar prestes a revelá-lo. Quando parecia ter chegado lá, mudava o curso da conversa, saltava abruptamente para outro assunto, um tema, às vezes, tão trivial que era difícil para João Carlos crer que fora chamado ali, às quatro da tarde, só para conversar banalidades com o chefe-mor. Deixou escapar, no entanto, alguns retalhos de promessas em meio a lampejos de sabedoria popular: 'Temos grandes expectativas a seu respeito'; 'falaram muito bem de você'; 'há que se ter paciência, no momento certo tudo acontece'; 'devagar se vai longe'; 'esteja pronto para assumir novas responsabilidades'. [...]" (p. 147)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Nasceu em Planaltina, GO, em 1959, e mora no DF. Tem alguns livros publicados, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora), Baque (contos, LGE/FAC), Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE), Tesselário (minicontos, Selo 3x4), Uma mulher à beira do caminho (contos, Editora Patuá) etc. Tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas, como Correio Braziliense, Correio das Artes, Jornal de Minas, Jornal Rascunho, revista Traços, revista Diversos Afins etc. É autor do roteiro do longa de ficção O colar de Coralina, dirigido por Reginaldo Gontijo. Coautor da peça Pharmácia Periphérica [encenada pela Oficina do Teatro de Periferia]. Autor das peças Dora; Tom White [inéditas]; Error [encenada em 1987]; Trinta gatos e um cão envenenado [encenada em 2016]; Antes que ela chegue [previsão de estreia em 2026].

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Comentários

Anônimo disse…
Obrigado, Alexandre!! Vou divulgar. Abraço!!

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