Alison Pick - O Trem que Leva a Esperança

Literatura canadense
Alison Pick - O Trem que Leva a Esperança - Editora Paz e Terra - 322 Páginas - Tradução de Adriana Lisboa do original "Far to Go" de 2010 (Lançamento no Brasil: 12/03/2018)

Este é o primeiro livro da premiada escritora e poeta canadense Alison Pick publicado no Brasil. O romance, que foi finalista do Man Booker Prize de 2011, é inspirado na trajetória dos avós judeus da autora que emigraram da Tchecoslováquia para o Canadá durante a Segunda Grande Guerra e escrito com base em uma detalhada pesquisa histórica sobre a ocupação nazista naquele país desde os primeiros sinais do expansionismo hitlerista com a anexação da Áustria em março de 1938 (Anschluss) e, logo após, o evento conhecido como a Crise dos Sudetos, em setembro do mesmo ano, quando parte da região sul da Tchecoslováquia, habitada por uma população de etnia germânica, foi transferida sem resistência para a Alemanha após o consentimento do governo britânico, formalizado no Pacto de Munique e a falta de apoio da França e União Soviética. Esta solução diplomática de nada adiantou porque, em março de 1939, Hitler invadiu o país definitivamente marchando sobre Praga.

Outro evento histórico da mesma época (1938-1939) que também inspirou Alison Pick foi uma operação humanitária conhecida como "Kindertransport", responsável pelo transporte de 10.000 crianças judaicas das áreas ocupadas pelo imperialismo nazista, inclusive a Tchecoslováquia, para o Reino Unido. As crianças, separadas dos pais em nome da própria segurança, eram entregues pelos parentes desesperados (muitas vezes pagando suborno de forma a conseguir uma vaga) para serem embarcadas em trens selados e adotadas no exterior; essas crianças acabaram sendo, em muitos casos, as únicas sobreviventes de suas respectivas famílias após o Holocausto. No entanto, nem sempre conseguiram se adaptar com sucesso aos seus novos lares, devido aos traumas da separação forçada e aos imensos problemas de adaptação, a começar pelo idioma que não conheciam. Uma história de perdas e sofrimento que envergonha a humanidade.

O romance tem como ponto de partida a transferência da região dos Sudetos na Tchecoslováquia em setembro de 1938, quando encontramos a rica família Bauer, de origem judaica, enfrentando os primeiros problemas de preconceito e perseguição. O casal Pavel e Anneliese Bauer, assim como seu filho de seis anos Pepík e a governanta Marta, tinha uma vida bastante confortável, mas tudo está para mudar quando a praça em frente a sua casa é tomada por garotos da Hitlerjugend e das tropas da Wehrmacht "com rifles e botas polidas e tanques". A fábrica de tecidos de Pavel Bauer é ocupada pelo novo regime nazista que planeja transformá-la em uma fábrica de armamentos. Pavel é nacionalista e tem respeito às tradições judaicas, apesar de não praticante, mas é forçado a se mudar para Praga quando a situação fica insuportável na sua cidade natal. Ele tenta abandonar o país com a família sem sucesso, só resta a eles a alternativa do "Kindertransport" para salvar ao menos o pequeno Pepík de seis anos, uma decisão difícil que eles são forçados a tomar já antevendo o futuro sombrio.
"Os Bauer voltaram à fila e foram empurrados para a frente. Todo mundo estava chorando; os organizadores tinham designado uma mulher cujo trabalho era remover fisicamente cada criança dos braços dos pais. Era como pedir-lhes para cortar um membro do próprio corpo: não se podia esperar que fizessem isso sozinhos. Antes que percebessem o que acontecera, Pepík já não estava mais com eles. Seu corpinho fora engolido pelo trem. Marta e os Bauer abriram caminho aos empurrões pela plataforma, através da densa multidão de corpos, tentando acompanhar de fora Pepík caminhando pelos vagões. Marta podia sentir o odor rançoso de um homem idoso atrás dela; ele se virou e ela levou uma cotovelada nas costelas. Inclinou o corpo de lado tentando ver Pepík, mas havia tantos pais com o rosto grudado na janela que ela não conseguia chegar perto dele." (Pág. 249)
O livro tem duas narrativas alternadas, uma delas a partir de uma personagem no presente, uma solitária pesquisadora no Canadá, trabalhando para o Departamento de Estudos do Holocausto e recolhendo documentos, cartas e histórias orais das crianças sobreviventes do "Kindertransport". Ela já é uma mulher idosa e fica evidente no decorrer do romance que tem algum tipo de relação com a família Bauer. A outra voz narrativa é da governanta Marta no período de 1938-1939, apesar de não ser judia ela permanece solidária à família Bauer. Os momentos difíceis fazem com que ela acabe se apaixonando por Pavel, será que existe algum tipo de futuro para essas pessoas e para o menino rico e mimado que brincava com soldadinhos de chumbo e um trenzinho elétrico, mas que  agora precisa embarcar em um trem de verdade para salvar a própria vida?
"Gostaria que esta fosse uma história feliz. Uma história que o fizesse duvidar, e se desesperar, e depois ter as suas esperanças redimidas para que pudesse voltar a acreditar, no último minuto, na bondade essencial do mundo ao nosso redor e das pessoas nele. Há poucas coisas na vida, porém, com desfechos positivos, com verdadeiros finais felizes." (Pág.17)
Apesar do tema do Holocausto já ter sido abordado algumas vezes na literatura, inclusive a operação "Kindertransport" (romance Austerlitz de W. G. Sebald), Alison Pick prova que ainda existem muitos fatos relevantes a serem contados sobre esta triste história sem um final feliz que não podemos esquecer jamais, nem que seja como uma chance de redenção do passado, na esperança de que nunca se repita.
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