Epitácio Carvalho - Lá fora é tudo abismo
O jovem protagonista de Lá fora é tudo abismo, segundo romance de Epitácio Carvalho, chama-se Bernardo. Filho único, aos vinte e um anos carrega uma personalidade introspectiva que o leva a achar “todo tipo de socialização um esforço descomunal”. Desde a adolescência, sonha em se tornar escritor e poeta, em clara oposição às expectativas do pai, que sonha vê-lo seguir sua própria carreira como advogado. Movido por essa ambição ainda imatura, Bernardo abandona a faculdade de Direito para dedicar-se à literatura, decisão pouco consistente, como ele deixa transparecer ao admitir: “Era para as mulheres que desejava projetar minha figura de escritor. Meu livro seria uma espécie de cauda de pavão, exibido para seduzir a fêmea”.
Com relutância, os pais acabam aceitando a escolha do filho, impondo apenas que ele trabalhe meio período como assistente em uma firma de advocacia de um colega do pai. Convencido de que já alcançou a vida adulta, Bernardo muda-se para um sobrado e se envolve com Lilian, esposa do senhorio, uma mulher de trinta e três anos e mãe de uma menina pequena. Não demora muito para que a relação dos dois aconteça com a força de uma chuva de verão, comparação que é explorada pelo autor com sensibilidade. Nem mesmo a aproximação com Cibele, colega de trabalho, parece desviar o curso dessa paixão, que se encaminha para um desfecho inevitavelmente amargo.
"Depois do sexo, extenuados e sem nenhuma roupa, compartilhamos um cigarro e depois adormecemos, os corpos estreitados um contra o outro, ocupando o reduzido espaço da cama. Despertei. Ela ainda dormia, a cabeça repousada sobre meu peito. Olhei o relógio de pulso e ainda não passava das dezesseis. A chuva ainda não cessara completamente e uns trovões roncavam muito longe. Ela também despertou e me beijou a boca, suspirando em seguida e aninhando-se mais em mim. Disse que gostava da chuva, não de qualquer chuva, mas da chuva de verão, que de repente chega alertada por trovões e relâmpagos. Disse gostar da ideia de que a vida fosse exatamente como a chuva de verão: alegre, eletrizante, surpreendente e furiosa. Tudo ao contrário do que a vida realmente é, como chuva de inverno: fininha, constante, irritante e triste. Revelou que também o seu marido gostava da chuva de verão e que, graças a uma curiosa superstição, só bebia água da chuva." (p. 126)
O romance de formação que se apoia na ingenuidade do protagonista e dialoga com o estilo de autores clássicos do século XIX resulta em uma obra que raramente encontramos no cenário contemporâneo. Em meio a uma literatura marcada pela velocidade dos meios de comunicação e das redes sociais, pela falta de esperança no elemento humano e pela fragmentação, Epitácio Carvalho aposta na construção de um personagem em transição, permitindo que suas hesitações, ilusões e perda da inocência revelem uma visão íntima do processo de amadurecimento. O resultado é uma narrativa que combina sensibilidade, ironia e um olhar atento para as contradições da juventude.
"Uma chuva de verão que durou algumas tardes de verão, eis o que Lilian significou para mim. Como nos prenúncios das tempestades, ela surgira trazendo consigo uma espécie de misterioso mormaço — uma estufa de plantas para cujo interior eu fora tragado. Seu calor aquecera a minha alma fria e ensinara-me coisas além das variações de temperatura. Agora sabia que as pessoas, como as janelas, se abrem e se fecham, bloqueando ou expondo o seu interior ao sabor do vento ou, no caso das pessoas, de algum interesse escuso e momentâneo. Lilian fechou-se para mim como as janelas de seu sobrado. Por muitos dias não pude mais ver as duas naturezas-mortas e o abstrato de sua parede interior. Olhava para o sobrado do senhorio e entristecia-me com a visão desoladora: as janelas cerradas através do gradil tomado de trepadeiras murchas, os sinos de vento balançando e produzindo sons agudos e melancólicos. Na nossa última tarde de amor, não houve despedida e eu não sabia que seria a última." (pp. 151-2)
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