Leonilia Ribeiro - Homo restus

Literatura brasileira contemporânea
Leonilia Ribeiro - Homo restus - Editora Patuá - 120 Páginas - Capa e projeto gráfico: Luyse Costa
Lançamento: 2025.

O romance de Leonila Ribeiro é narrado em primeira pessoa por um protagonista nada confiável, o que é sempre uma técnica valiosa para a literatura quando bem executada. Marcílio, homem branco de 49 anos, solitário e eterno candidato a concursos públicos, expõe ao leitor seu cotidiano obsessivo de estudos, manias e hábitos excêntricos, compartilhados apenas com Dona Nélia, a mãe idosa, e Mimo, o gato que governa o apartamento em São Cristóvão segundo seus próprios caprichos. Essa rotina claustrofóbica está prestes a ser abalada pela chegada de duas crianças negras, de seis e oito anos, recém-adotadas por sua irmã Lena — desembargadora do Tribunal de Justiça — e pela companheira dela, que, devido a uma viagem, pedem para deixá-las nesse bizarro lar por uma semana.

A convivência forçada afeta a rotina de estudos de Marcílio, assim como o cotidiano de Dona Nélia, trazendo à tona tensões e preconceitos no interior da família, sempre filtrados pela visão muito particular e distorcida dos personagens. O próprio narrador-protagonista, que sempre se considerou um pária na sociedade, passa a perceber os privilégios de ser um homem branco em uma estrutura social desigual ao testemunhar o tratamento dispensado aos “adotados”, como ele insiste em chamá-los. Assim, em meio ao sarcasmo e ao humor ácido de seus comentários, começam a surgir sentimentos e ações transformadoras que talvez não possam ser chamados de carinho, mas configuram algum tipo de empatia pelos meninos expostos ao preconceito dos vizinhos e comerciantes locais.

"Quando Lena e a mulher que vive com ela anunciaram: 'a nossa família vai aumentar', pensei que fosse mais um bicho de rua sarnento — que eu nunca ia conhecer. Então soube que pegariam duas crianças. Naturalmente, imaginei uns bebês ou, no máximo, crianças de colo. Mas não foi assim. A primeira vez que os recém-adotados vieram nos visitar, eu ouvi Tio Marcílio, Tio Marcílio, Tio Marcílio, Tio Marcílio; me deram o desprazer de ouvir o meu nome várias vezes. Da porta do meu quarto, Lena disse para os dois: 'Meninos, foi sobre ele que falei com vocês'. O 'ele' saiu arrastado, com voz infantilizada, enquanto os dois assentiam com a cabeça, como se compartilhassem um código. O menor, de seis anos, incentivado por ela, abraçou minhas pernas enquanto mantinha um olhar abobalhado em mim. O outro, de oito anos, pedante e meio desconfiado, me cumprimentou com um forte aperto de mão, 'prazer, tio Marcílio''. Rapidamente, os recém-adotados, sem que eu pudesse impedir, invadiram o quarto e se sentaram na minha cama; o mais novo, em cima do travesseiro. Lena, que certamente instruiu os moleques à ocupação do meu espaço, deu as costas e partiu pra sala. A chamei da porta, ela fingiu não me ouvir. Mimo, o Don Corleone dos gatos, uma besta com a qual eu era forçado a conviver havia dois anos, passou entre as minhas pernas, pulou na mesa e, como um mau agouro, sentou-se sobre as apostilas do próximo concurso — ele nunca tinha conseguido ir tão longe. O bicho me encarou e, percebendo a minha impotência, abriu as pernas e começou a lamber o cu. Vi sua língua espinhenta deslizar repetidas vezes do cu aos pelos do rabo, enquanto o adotado menor gritava eca! eca! eca!" (pp. 5-6)

O curioso termo Homo restus, que empresta o título ao livro e contrasta ironicamente com o tradicional Homo sapiens, é a definição criada por Marcílio para os moradores locais, acusados por ele de insensibilidade para perceber e assimilar os avanços sociais, culturais e afetivos da modernidade. A percepção da autora foi precisa ao destacar o julgamento moral do protagonista para os seus contemporâneos com base em características que também estão presentes nele próprio, como no seguinte trecho inspirado nos restos descartados em uma caçamba de lixo: "Os Homo restus eram uma espécie nativa daquele bairro. Viviam e morriam em seu habitat, sem jamais migrar ou evoluir, deixando a sua marca apenas nos aterros sanitários." 

"Na manhã seguinte, acordei com o caminhão de lixo que, dia sim, dia não, parava bem embaixo da minha janela. A carroceria suja e repleta de fuligem — com o nome Comlurb ainda legível — ficava na altura do peitoril, de modo que seria possível pular pra lataria sem grande esforço. O ronco do motor vibrava a persiana e o vidro sempre no mesmo ritmo, meus tímpanos seguiam a cadência. Em instantes, a fumaça nauseante do diesel inundava o quarto pelos vãos da persiana, por onde a claridade tentava entrar. Os garis, que saltavam do estribo, falavam alto de futebol com o Tinga, que decerto largou a portaria sozinha. [...] Ainda deitado, ouvia os garis arremessarem os sacos como se competissem por algo. Corriam e voltavam com as mãos apinhadas, até que a pá hidráulica era acionada, compactando e arrastando tudo pra dentro, engolindo os restos dos Homo restus. Os restos descartados pelo povo daquele lugar — do prédio e da rua —, os Homo restus. E eles, os Homo restus, acabavam lá mesmo, na caçamba imunda, boiando em chorume. De certo modo, eles iam. Os Homo restus eram uma espécie nativa daquele bairro. Viviam e morriam em seu habitat, sem jamais migrar ou evoluir, deixando a sua marca apenas nos aterros sanitários. Lá, depositavam seus restos — o único vestígio de suas existências. Imprestáveis. [...]" (pp. 10-11)

A postura egoísta do narrador-protagonista é algo que presenciamos diariamente nas redes sociais: um constante estado de acusação e patrulhamento das ações alheias, enquanto se ignoram os próprios desvios de caráter. Essa hipocrisia parece sintetizar o avanço dos Homo restus na atualidade, assim como a definição da autora que resume tão bem seu personagem — nada confiável, repito, e justamente por isso tão carismático: "O Homo restus não evolui, não progride  apenas permanece, ocupando um território emocional entre o tédio e o ressentimento."

"Passava das duas da manhã quando abri a porta. Dona Nélia assistia  ao canal de venda de tapetes e joias caras no quarto; não dava pra ouvir, eu só sabia. Acendi a luz do corredor antes de me lembrar que o estalo do interruptor atraía Mimo, mas ele não apareceu. Era uma noite muito abafada, muito úmida. A sala estava parcialmente iluminada pela luz do corredor, já que não tínhamos abajur. Na penumbra, o galo do tempo parecia cinza, mas estava rosa. Os garotos dormiam juntos no sofá. Suas cabeças repousavam onde a espuma estava mais afundada e era possível sentir a madeira da estrutura, mas, se ficaram daquele lado, não estavam incomodados. O janelão estava aberto, não ocorria brisa. A rede de proteção instalada por Lena para Mimo impedia os rasantes dos morcegos que bebericavam a água açucarada que a desgraçada da Dona Marli deixava na janela para os beija-flores. Porém, a tela não evitava outros invasores. Parado ali, avistei um enorme invasor na parede atrás do sofá. Mimo, no alto do encosto, olhava vidrado, corpo tensionado e incrivelmente estático, mas a barata estava fora do seu alcance. As longas antenas se agitaram no ar, o que presumi anteceder um voo; saí sem dar as costas para a cena. Os garotos dormiam profundamente em seus pijamas de super-herói. O Don Corleone dos gatos mantinha a vigília na barata, então voltei para o quarto, fechei a minha porta e usei o tapete do banheiro para vedar a fresta." (p. 45)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Leonilia Ribeiro nasceu em 1983, na cidade do Rio de Janeiro, e vive atualmente em São Paulo. É pós-graduada em Direito tributário e em Formação de escritores de Ficção pelo Instituto Vera Cruz. Publicou o conto “Todas as coisas da ilha deserta” na 5ª edição da Revista Revera (2021), “Lembrancinhas” na Antologia do Instituto Vera Cruz (2021) e “A Matrioska” na Antologia Conto Brasil (Ed. Trevo, 2020). Homo restus foi desenvolvido como parte de seu Trabalho de Conclusão de Curso.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Homo restus de Leonilia Ribeiro

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