João Batista de Andrade - Ecos de Badajoz

Literatura brasileira contemporânea
João Batista de Andrade - Ecos de Badajoz: uma fábula de nosso tempo - Editora Patuá - 252 Páginas - Capa e projeto gráfico: Carla H. Oliveira

A cidade de Badajoz ficou marcada na história quando, em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, milhares de pessoas acusadas de simpatizar com os republicanos foram fuziladas por ordem das forças franquistas. Este evento marcou a escalada fascista na Europa, prenunciando a ascensão do nazismo e, mais tarde, a Segunda Guerra Mundial. Um dos personagens deste mais recente romance do escritor, roteirista e cineasta João Batista de Andrade, se chama Leo Buenura, que teria se radicado no Brasil, escapando do massacre graças à fuga da mãe, ainda durante a sua gestação. Ele é o dono do boteco do Peixe Frito, famoso por suas manjubinhas fritas, onde se reúnem os aposentados Solano e Trindade, cantadores que conduzem boa parte da narrativa deste livro, um recurso criativo que o autor encontrou de mesclar a prosa com a poesia para dar corpo à sua fábula contemporânea.

Os dois personagens centrais, Benvindo e Poliana, representam polos opostos da condição humana. Benvindo, marcado pela perda prematura dos pais, cresce revoltado e ardiloso, moldando para si um caráter falso que lhe permite sobreviver sozinho desde a infância. Poliana, ao contrário, é ingênua e sonhadora, deixando-se envolver pela sedução de Benvindo e por sua enganosa postura de príncipe. Nesse contexto, o autor desenvolve uma fábula de tom farsesco na qual Poliana, agora com um bebê e abandonada por Benvindo, parte desesperada em sua busca e acaba caindo nas garras de Grillo, um bicheiro local que a convence a se prostituir utilizando o absurdo argumento de que, sendo procurada por tantos homens, aumentariam suas chances de reencontrar Benvindo. Submetida ao comando de Grillo, ela se vê envolvida em uma espiral de exploração e desamparo.

"Um morro eleva as casinhas pobres acima da vastidão assustadora da cidade grande. Acima, muito acima daquele amontoado de casas e edifícios que parecem ocupar o chão, o céu e o ar poluído das cidades. Uma vastíssima solidão, onde tudo parece impossível, menos a miséria. Em contraposição ao deserto urbano das grandes cidades, quem não gostaria de morar ali, no alto, acima de tudo, não fosse a miséria que tudo cobre? Nas ruas do morro, um festival de roupas nos pobres varais, qual bandeiras desfraldadas. Nos barracos, pessoas que já nasceram ali, marcadas pela falta de oportunidades e a miséria local. Ou aqueles que caíram na escala social e tiveram que subir o morro, conviver com uma realidade que antes negava. No campinho de terra, garotos sem camisa e descalços ensaiam jogadas com uma velha bola de capotão que já produziu tantos gênios e ídolos neste esporte tão popular, o futebol. Claro, fica a pergunta, onde conseguiram uma bola assim, cinquentenária? Não há resposta simples e desviaria os rumos de nossa história. Sei que um dos garotos encontrou a bola nos velhos guardados do seu avô, já falecido, craque brasileiro dos anos cinquenta." (p. 13) - Trecho da Primeira Parte - "A bola de capotão"

O sofrimento de Poliana se intensifica quando o romance assume ares de tragédia e Benvindo — ou Benkisto, como ele prefere ser chamado, em uma clara alusão a Mefisto — retorna para roubar o bebê. O autor cria então uma atmosfera fantástica que, além de remeter à sua longa experiência como cineasta, hipnotiza o leitor como uma ópera popular, representada neste trecho na voz de Grillo: "Um filho no ventre / Que perigo pode ser! / Quem saberá agora / Que ser estranho há de nascer / Filho de um demônio, sim / Pois é o que eu penso / Deste Benkisto/Mefisto / É só esperar para ver / Quanto a mim, não desisto / É preciso seguir meu destino / Ganhar tudo o que conseguir / Manter viva a bela menina / E depois fazer como ele / Fugir!"

"Ainda muito jovem, um rapaz sentado à soleira da porta de seu barraco demonstra tédio e insatisfação. Preguiçoso, demonstrando seu desprezo pelo mundo, o rapaz se levanta, apoiado no portal. Entediado, dirige uma forte cusparada em direção ao campo de futebol, de terra, onde garotos disputam chutes com a bola de capotão. Em seguida entra, caminhando morosamente, no pequeno espaço de seu barraco, o chão atapetado de objetos estranhos, chifres, queixadas de burro, garrafadas de raízes. A um canto, sem destaque, uma foto quase apagada de poucos anos atrás: ele mesmo, passados quatro ou cinco anos, diante do poderoso animal que invadira a Vila, cujo morro e a própria Vila acabaram sendo conhecidos por esse raro acontecimento. Morro e Vila do Elefante. Diante da evidência exposta pela pequena foto, Benvindo ainda se pergunta como conseguira fazer aquilo, de onde buscara a coragem e a força. Mais ainda, como conseguira fazer o poderoso animal dar meia volta e fugir. Medo? Mas medo de quê? Em vão tentara, muitas vezes, desvendar esse mistério que o marcou como herói. Agora, diante do espelho, Benvindo exibe seu desgosto com o que vê: o desânimo, olhos caídos, a roupa amarrotada. Nada do herói, nenhuma coragem, nenhuma força. Tentando fugir dessa fragilidade, reage. Ensaia caras e poses de terrível, de demônio, de estranho. Tira a camisa e aprecia o peito estufado, o olhar maligno. Não quer ser mais um fraco, conhece tantos e os despreza decididamente. Disfarçadamente, olha de novo para a foto emblemática de sua vida, retrato da coragem que o tornou um herói na Vila." (p. 17) - Trecho da Primeira Parte - "Benvindo"

Na parte final da narrativa, torna-se evidente o avanço de um movimento político que remete diretamente ao fascismo do “Generalíssimo” Franco, responsável pelo massacre de Badajoz. Esse movimento é mencionado por Pavão, primo de Grillo e também bicheiro, evocando perigosos ecos de eventos recentes da política nacional: "Ao nosso futuro / Com a pátria, a família / E Deus acima de tudo!", afirmação logo seguida por um companheiro que ergue um brinde eufórico: "Que o Estado esteja ao lado dos que produzem a riqueza! / Como nós! Como nós, que somos o exemplo! / Como Poliana, exemplo de luta e beleza!". João Batista de Andrade nos lembra, com este Ecos de Badajoz, que a história insiste em se repetir e que, no entanto, raramente aprendemos com ela — fazendo dessa fábula não apenas uma alegoria, mas um alerta.

"No bar do Peixe Vivo, bem no centro antigo da cidade, o dia parece se recusar a ir embora, apesar das sete horas da noite. Um frequentador, cabelos grisalhos, com o violão sobre a mesa, espera por um amigo, seu parceiro. Aposentados, Solano e Trindade, amigos de infância, são poetas de improvisos. Nada mais fazem na vida do que frequentar e descobrir bares jeitosos na grande cidade. Conhecidos por suas conversas rimadas acompanhadas pelo violão, são muito populares. Sempre abertos a novas amizades, sabem que estas duram apenas o tempo dos primeiros encontros para nunca mais. [...] Bebendo e cantando junto a desconhecidos, estão sempre prontos a ouvir histórias, mentiras, desabafos e narrativas desbaratadas, coisas de frequentadores bêbados, pessoas tristes, solitárias ou simplesmente divertidas. Não gostam do movimento costumeiro deste bar, mas as manjubas são frescas, pescadas pelo próprio dono, o espanhol Leo Buenura. Sim, Buenura, cujo nome deveria ser registrado, na antiga cidade espanhola de Badajoz, como Buenaventura. Por erro, preguiça ou, como ainda veremos, para proteger o menino, ficou sendo Leo Buenura. [...]" (pp. 25-6) - Trecho da Segunda Parte - "O bar dos cantadores"

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: O escritor, roteirista e cineasta João Batista de Andrade, ex-Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, ex-Presidente do Memorial da América Latina, Professor da ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP), Doutor em Comunicações pela Universidade de São Paulo, nasceu em Ituiutaba (MG), em 01 de dezembro de 1939. Em paralelo a uma intensa atividade como escritor e cineasta, João Batista sempre esteve presente às lutas sociais e culturais desde que ingressou na Universidade (Escola Politécnica da USP) em 1960. Foi um dos diretores da UEE (União Estadual de Estudantes – SP), foi Secretário da Cultura do Estado de SP no período de 2005/2006, quando criou o PROAC, lei de incentivo à produção cultural do Estado de SP, no governo Geraldo Alckmin. Foi também Presidente do Memorial da América Latina entre 2012 e 2016. Em 2017, foi nomeado Secretário Executivo do Ministério da Cultura e assumiu, por um curto período, a função de Ministro da Cultura (2017), devido à renúncia do titular. Iniciou em 1963 uma carreira pródiga, reconhecida, com inúmeros filmes premiados nacional e internacionalmente, como “Doramundo” (1978), “O homem que virou suco” (1981), “O país dos Tenentes” (1987), “O tronco” (1998), “Vlado” (2005), “Veias e Vinhos” (2007) e outros. Como escritor, seu primeiro livro é Perdido no meio da rua, escrito durante os primeiros anos após o golpe militar de 1964 e somente editado em 1989 (Editora Global). Depois vieram, entre outros, A Terra do Deus Dará (Editora Atual, 1991), Um olé em Deus (Editora Scipione Cultural, 1997), O portal dos sonhos (UFSCAR Editora, 2001), O povo fala (tese de doutoramento, Editora Senac, 2002), Confinados (Editora Prumo, 2013), A Terra será azul e Sozitos (Editora Lazuli, 2014), Poeira e escuridão (Editora Letra Selvagem, 2015), 1964, uma bomba na escuridão (Editora Paisá, 2021) e Extrema, incerta ilha do amanhã (Editora Paisá, 2021). Inscrito após a publicação do romance Confinados, JBA recebeu em 2014 o Troféu Juca Pato, como “Intelectual do Ano”, pela UBE – União Brasileira de Escritores, SP.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Ecos de Badajoz: uma fábula de nosso tempo de João Batista de Andrade

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