Clara Averbuck - Sim, nós estamos com raiva
O mais recente lançamento de Clara Averbuck, após um afastamento de dez anos do mercado editorial, reúne uma coletânea de crônicas centradas em experiências pessoais relacionadas ao feminismo e associadas às questões de gênero, raça e desigualdade social. Não se trata de uma obra de caráter teórico ou ensaístico, na linha de autoras como Gloria Jean Watkins (bell hooks) ou Grada Kilomba. Mantendo o estilo que a consagrou desde os textos publicados em blogs no final dos anos 1990 e, posteriormente, no romance Máquina de Pinball, em 2002, a autora recorre a uma linguagem coloquial, direta e explícita, sem a preocupação de adequar seu discurso às expectativas da crítica literária, o que confere força e espontaneidade aos textos.
Dividido em quatro partes, intituladas 'Faísca', 'Brasa', 'Chama' e 'Incêndio', o livro organiza crônicas que se tornam progressivamente mais raivosas, partindo da adolescência da autora em Porto Alegre, antes de se mudar para São Paulo, enfrentando os primeiros desafios para conquistar o seu lugar no mundo, dominado por uma sociedade patriarcal que insiste em classificar os seus livros como "literatura feminina", quando tudo o que ela deseja é ser reconhecida como escritora. Ao longo do amadurecimento, a indignação se transforma em raiva, que Clara usa como combustível para incendiar os preconceitos: "a raiva tem que ser uma força motriz e um agente de mudança, não um fogo sem controle, senão acabamos por nos autoimolar."
"Já fui uma mulher que dizia querer ser um homem sem perceber que o que eu queria era a liberdade deles. Eu afastava as outras mulheres e execreva o que me era apresentado como feminino, posto que não me contemplava, não tinha nada a ver comigo. Mal sabia eu que não tinha a ver com o indivíduo, e sim com a construção da mulher, essa ideia errada de que devemos seguir um padrão preestabelecido com o que esperam de nós, e não com o que realmente somos ou almejamos ser. / Minha mãe dizia: 'Não seja como as outras'. Eu entendia isso de uma forma pessoal, mas sei que o que ela queria dizer era: 'Não precisa seguir esse modelo, você pode ser o que quiser'. / Fui mesmo. Virei. O que eu quis." (p. 25)
O conceito de feminismo é frequentemente ridicularizado, razão pela qual as crônicas de Clara Averbuck se tornam uma leitura importante para homens e mulheres. Como afirma a autora: "o feminismo é uma luta contra um sistema opressor. Não é o 'contrário' de machismo, que é um sistema de opressão; é uma reação a esse sistema." Eu mesmo tenho de confessar que me surpreendi com alguns textos ao me identificar em pequenas ciladas do cotidiano, relacionadas à objetificação do corpo feminino. Um exemplo é o hábito aparentemente inocente de elogiar uma mulher que perdeu peso e parece "estar mais bonita" segundo padrões estéticos difundidos pela indústria da dieta, uma cultura que a autora identifica como mais um dos diversos mecanismos de controle sobre as mulheres.
"Feminismo não prega ódio, feminismo não prega a dominação das mulheres sobre os homens. Feminismo clama por igualidade, pelo fim da dominação de um gênero sobre outro. Feminismo não é o contrário de machismo, Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais. [...] Feminismo não tem nada a ver com deixar de usar batom, salto ou dar de quatro. Feminismo não tem nada a ver com ser inimiga dos homens. Feminismo não tem nada a ver com esconder o corpo; muito pelo contrário, exigimos o direito de andar com a roupa que bem entendermos, sem assédio ou constrangimentos. Feminismo não tem nada a ver com morrer solteira de bigode (mas se quiser, pode). Feminismo não tem nada a ver com não ter filhos, e simcom a escolha de como e quando esses filhos virão, e se virão. Feminismo não tem nada a vr com não ser feminina. E nem com ser." (pp. 49-50)
O livro é também uma forma de alívio e acolhimento para mulheres que convivem diariamente com abusos, violência, preconceito e discriminações. Ao compartilhar suas experiências e reflexões, Clara Averbuck transforma vivências individuais em uma narrativa coletiva, na qual muitas leitoras poderão se reconhecer. A autora destaca que essas opressões são amplificadas pela desigualdade social e pelo racismo estrutural que atravessam a nossa sociedade, tornando ainda mais difícil a luta por direitos. A raiva é, portanto, justificada e necessária, da faísca ao incêndio.
"Somos ensinadas que não estamos completas sem um amor, sem a outra metade, a tal da tampa da panela, da metade da laranja. E muitas vezes acabamos aceitando o inaceitável em nome disso. Repito: mesmo as mulheres mais independentes, esclarecidas, com mil livros na cabeça e na cabeceira, carreira e contas bancárias sólidas, mesmo essas não estão livrs disso. É uma questão estrutural. É algo que está muito entranhado em nossas construções. / Não estou falando que todos os homens são monstros e nem que devemos fugir deles e viver solteiras para sempre. Amar é bom, relacionamentos podem ser saudáveis, ainda que complicados, mas temos que estar atentas a essa construção de amor romântico que nos anula. Na verdade, de onde vejo, acho que muitos deles são vítimas de uma construção de masculinidade tóxica que execra o feminino e é calcada em violência e dominação. Não sabem sequer nomear seus sentimentos e viram uns deficientes emocionais, que não sabem lidar com os sentimentos sem ser de formas violentas. Porém, mesmo eles sendo vítimas dessa masculinidade, quem paga o preço alto somos nós, mulheres." (pp. 79-80)
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