Maíra Valério - Amarga

Poesia brasileira contemporânea
Maíra Valério - Amarga - Editora Orlando - 88 Páginas - Projeto gráfico e diagramação: Ana Elisa Granziera - Ilustração de capa: Caio Gomez - Lançamento: 2025.

Já resenhei por aqui, há algum tempo, a coletânea de contos “Homens que nunca conheci” (Patuá, 2020) de Maíra Valério, obra que me chamou a atenção pela sinceridade em descrever os comportamentos ditos inadequados ou politicamente incorretos dos personagens, revelando fragilidades que permeiam a condição humana. São características que procuramos disfarçar em contínuas edições nas redes sociais, na tentativa de corresponder ao que supostamente esperam de nós. Em seu lançamento mais recente, agora assumindo a poesia como forma de expressão, a autora recorre ao sarcasmo e à amargura para desafiar a "maquiagem da positividade tóxica" do mundo contemporâneo, como destaca Thais Camponila na introdução.

O livro, que foi o vencedor do Prêmio Tato Literário 2025, revela poemas com influências diversas — de Ana Cristina Cesar a Hilda Hilst, de Cazuza a Courtney Barnett —, mas sempre orientados por uma perspectiva feminina, bem-humorada e consciente dos impasses existenciais da nossa época. O resultado é uma poesia que conversa com a tradição sem se submeter a ela, fazendo da ironia um antídoto contra a estupidez moderna, como em FLÂNEUR COM TAG (ou panic attacks are my cardio): "caminho com pressa / namoro vitrines / anseio por um amanhã / que chegue logo / descortinando um acontecimento / estrondoso / desses que mudam tudo / até o que nem sei / que precisa ser mudado / enquanto deixo roupas esquecidas / na máquina de lavar antiga / e a vida, lesmamente, segue / encharcada de tanto mistério / no tempo que tem que seguir"  

MALMEQUER

eu quis tanto que
        cansei
afrouxei os dedos
antes firmes nas rédeas
os nós brancos ganhando cor
a mão desabrochando, até ficar
completamente aberta
        pétala a pétala
toquei seu rosto com devoção
cócegas se tornaram riso
e logo desaguaram em choro manso
a terra ácida e avermelhada
sorveu
        lágrima a lágrima
com a sofreguidão de um cão
                velho
há muito sem alimento
querendo tanto até
                cansar
igualzinho a mim
pois somos feitos da mesma matéria:
de vez em quando dou uns latidos
encaro homens com olhos pedintes 
ainda que ostente a espessura
sentimental de uma
                        flor

CAVALA 

monto nas nuvens brancas da memória
cavalgo por horas o campo seco da existência 
lembrar dói, mas não consigo parar — 
a verdade nem sempre é emancipatória 

tento tocar aquela tarde com os dedos
enquanto caio num abismo infinito
trituro gatilhos ao som de relinchos 
lamento equino que escancara o silêncio

é tanto barulho, menino 
bagunçando o calabouço da minha mente
é tanta gente, meu deus 
solapada bem no fundo do meu peito

lembrar dói, mas não consigo parar:
a sela contra o corpo traz um gozo fácil 
a busca em espiral levanta um rumo fértil 
miro sentido enlouquecendo com o incerto 

abro a boca, estupefata
nunca estive no céu, 
mas dou meu jeito 
engulo vento 
como nos tempos de infância
alço voo com meu animal quimérico
corro por entre pastos murchos que alimentam
tudo o que eu gostaria de esquecer

DIABA

quero experimentar 
minha pior versão 
como quem mete a mão 
em bolo quente 
sentindo a massa murchar, de repente 
ainda crua 
jamais vestir a camisa, ficar nua
lamber o dedo molhado 
correr devagar, sem cuidado 
chutar o pódio espalhar o ódio
ser malvista, malquista 
tóxica 
a mais escrota do bairro 
nunca exposta como conquista
diaba ingovernável a comandar
todo um país botar fogo nas casas, rasgar as leis 
decapitar todos os reis 
dizer não para o sim 
deixar de fazer as
sobrancelhas

MEU MUNDO

meu mundo seria hoje
se eu tivesse tempo
mas queima o agora
eternamente engolido
por um amanhã
que nunca amanhece

as pálpebras pesam
como janelas emperradas
sem dinheiro, sem posição
descanso sentada
abraçada a tantos arrependimentos
no escritório-quarto-caixão

sem hora para aumento
sem hora para dormir
é, senhor,
não é mole, não
meu mundo, hoje
nunca

VENENO 

amarga 
e também mal dormida
feito pão velho 
toda roída 
casca bem grossa
miolo mole, 
pois é, mais um gole
é sempre a saída 
um alvo, um ser 
amanheço doída 
o boteco cheio 
pendura a dívida 
suspiro longo, a mão
tão fudida 
o peito murchinho 
feito uma bexiga 
nem mesmo fermento 
ou venlafaxina 
oração, silicone 
ou uma boa faxina
vão desentortar 
essa louca rotina 
vão dar algum jeito 
aí nessa menina. 
a massa inflada
já passou do ponto, 
tipo a grande língua 
a contar um conto. 
o corte é seco 
a ponta ferina
o pão nunca cresce
se ficar olhando. 
sufoco bateu
só cafeína 
por fora 
por dentro
odor bolorento 
ser tipo veneno 
é mesmo a sina

Poesia brasileira contemporânea
Sobre a autora
: Nascida na capital do Brasil, Maíra Valério é escritora e jornalista, com especialização e mestrado na área de gênero, comunicação e saúde. Entusiasta da cultura do-it-yourself, teve o próprio caráter moldado por livrarias, shows punks e festas gays. É ansiosa, extrovertímida, hipocondríaca e escreve em zines, blogs, revistas, jornais, sites, coletâneas literárias e onde mais der. Como jornalista, já colaborou com veículos como Vice Brasil, Correio Braziliense, Tab Uol, Jornal de Brasília, Delirium Nerd, Revista Seca, Radis, e outros, além de ter sido editora-chefe da Revista Traços. Publicou os livros “Homens que nunca conheci” (Patuá, 2020) e “Vulva revolução” (negalilu, 2024).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Amarga de Maíra Valério

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