Maíra Valério - Amarga
Já resenhei por aqui, há algum tempo, a coletânea de contos “Homens que nunca conheci” (Patuá, 2020) de Maíra Valério, obra que me chamou a atenção pela sinceridade em descrever os comportamentos ditos inadequados ou politicamente incorretos dos personagens, revelando fragilidades que permeiam a condição humana. São características que procuramos disfarçar em contínuas edições nas redes sociais, na tentativa de corresponder ao que supostamente esperam de nós. Em seu lançamento mais recente, agora assumindo a poesia como forma de expressão, a autora recorre ao sarcasmo e à amargura para desafiar a "maquiagem da positividade tóxica" do mundo contemporâneo, como destaca Thais Camponila na introdução.
O livro, que foi o vencedor do Prêmio Tato Literário 2025, revela poemas com influências diversas — de Ana Cristina Cesar a Hilda Hilst, de Cazuza a Courtney Barnett —, mas sempre orientados por uma perspectiva feminina, bem-humorada e consciente dos impasses existenciais da nossa época. O resultado é uma poesia que conversa com a tradição sem se submeter a ela, fazendo da ironia um antídoto contra a estupidez moderna, como em FLÂNEUR COM TAG (ou panic attacks are my cardio): "caminho com pressa / namoro vitrines / anseio por um amanhã / que chegue logo / descortinando um acontecimento / estrondoso / desses que mudam tudo / até o que nem sei / que precisa ser mudado / enquanto deixo roupas esquecidas / na máquina de lavar antiga / e a vida, lesmamente, segue / encharcada de tanto mistério / no tempo que tem que seguir"
MALMEQUER
eu quis tanto que
cansei
afrouxei os dedos
antes firmes nas rédeas
os nós brancos ganhando cor
a mão desabrochando, até ficar
completamente aberta
pétala a pétala
toquei seu rosto com devoção
cócegas se tornaram riso
e logo desaguaram em choro manso
a terra ácida e avermelhada
sorveu
lágrima a lágrima
com a sofreguidão de um cão
velho
há muito sem alimento
querendo tanto até
cansar
igualzinho a mim
pois somos feitos da mesma matéria:
de vez em quando dou uns latidos
encaro homens com olhos pedintes —
ainda que ostente a espessura
sentimental de uma
flor
CAVALA
monto nas nuvens brancas da memória
cavalgo por horas o campo seco da existência
lembrar dói, mas não consigo parar —
a verdade nem sempre é emancipatória
tento tocar aquela tarde com os dedos
enquanto caio num abismo infinito
trituro gatilhos ao som de relinchos
lamento equino que escancara o silêncio
é tanto barulho, menino
bagunçando o calabouço da minha mente
é tanta gente, meu deus
solapada bem no fundo do meu peito
lembrar dói, mas não consigo parar:
a sela contra o corpo traz um gozo fácil
a busca em espiral levanta um rumo fértil
miro sentido enlouquecendo com o incerto
abro a boca, estupefata
nunca estive no céu,
mas dou meu jeito
engulo vento
como nos tempos de infância
alço voo com meu animal quimérico
corro por entre pastos murchos que alimentam
tudo o que eu gostaria de esquecer
DIABA
quero experimentar
minha pior versão
como quem mete a mão
em bolo quente
sentindo a massa murchar, de repente
ainda crua
jamais vestir a camisa, ficar nua
lamber o dedo molhado
correr devagar, sem cuidado
chutar o pódio
espalhar o ódio
ser malvista, malquista
tóxica
a mais escrota do bairro
nunca exposta como conquista
diaba ingovernável a comandar
todo um país
botar fogo nas casas, rasgar as leis
decapitar todos os reis
dizer não para o sim
deixar de fazer as
sobrancelhas
MEU MUNDO
meu mundo seria hoje
se eu tivesse tempo
mas queima o agora
eternamente engolido
por um amanhã
que nunca amanhece
as pálpebras pesam
como janelas emperradas
sem dinheiro, sem posição
descanso sentada
abraçada a tantos arrependimentos
no escritório-quarto-caixão
sem hora para aumento
sem hora para dormir
é, senhor,
não é mole, não
meu mundo, hoje
nunca
VENENO
amarga
e também mal dormida
feito pão velho
toda roída
casca bem grossa
miolo mole,
pois é, mais um gole
é sempre a saída
um alvo, um ser
amanheço doída
o boteco cheio
pendura a dívida
suspiro longo, a mão
tão fudida
o peito murchinho
feito uma bexiga
nem mesmo fermento
ou venlafaxina
oração, silicone
ou uma boa faxina
vão desentortar
essa louca rotina
vão dar algum jeito
aí nessa menina.
a massa inflada
já passou do ponto,
tipo a grande língua
a contar um conto.
o corte é seco
a ponta ferina
o pão nunca cresce
se ficar olhando.
sufoco bateu
só cafeína
por fora
por dentro
odor bolorento
ser tipo veneno
é mesmo a sina
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