Maíra Valério - Homens que nunca conheci

Literatura brasileira contemporânea
Maíra Valério - Homens que nunca conheci - Editora Patuá - 120 Páginas - Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

Maíra Valério nos apresenta em seus contos uma coleção de personagens que definem muito bem a desesperança de uma época na qual passamos a maior parte do dia em frente a uma tela, vivendo em um mundo globalizado, mas estéril de ideias e ideais, permanecendo com o olhar perdido nos aplicativos, sempre conectados e cada vez mais solitários, editando boa parte daquilo que realmente somos para nos transformar no que esperam de nós. Em uma epígrafe escolhida para um dos contos (maiúscula - p. 51), a autora destacou uma afirmação visionária da escritora francesa George Sand em uma carta de 1834: "Oculta de mim tua alma, para que eu sempre possa acreditá-la bela", antecipando tão bem o que fazemos hoje nas redes sociais.

Dona de um estilo forte e sincero, como se escrevesse um diário, Maíra Valério não demonstra a menor hesitação em revelar o nosso lado mais medíocre em comportamentos inadequados ou politicamente incorretos, seja falando de relacionamentos amorosos ou simplesmente sexo, a linguagem é clara e direta para mostrar todas as incertezas que caracterizam a nossa humanidade tão frágil. A autora vai nos conquistando aos poucos com a sua honestidade, um recurso que tem andado um pouco ausente na literatura contemporânea desde a estreia de Clara Averbuck com seus textos pessoais em blogs no final dos anos noventa, sem medo de errar ou de não satisfazer a dita "alta literatura".

É o caso da narrativa perfeita do conto Apenas um cara qualquer, no qual o nosso anti-herói Genival procura, depois de um frustrante dia de trabalho, na tela engordurada do smartphone, algum vídeo pornográfico para que possa se masturbar ao lado de sua mulher, Roseli, que dorme sem saber que o marido alcoolizado tenta satisfazer os seus instintos em uma busca da mulher perfeita que é, ao mesmo tempo, "todas as mulheres e nenhuma mulher". Neste texto, ficam claras algumas marcas da autora como a técnica experimental e o tom bem-humorado, mas carregado de uma ironia tão feroz que flerta com o tragicômico.

"A mulher ao lado, de bobes, e Genival socando uma, feroz, e sonhando com uma gata ideal, uma modelo de plástico sem poros cu pra cima travado, conexão lenta, química automática. Ela pularia da tela com a coluna ereta e sentaria na rola dele dizendo que, puxa, vaginal rima com Genival. E em seguida eles fariam um montão de sexo. Ele seria o rei e ela seria uma massa homogênea, ela seria ela e todas as outras mulheres, ela seria macia, boca, ânus, vagina, a professora do primário, a colega do trabalho, ela seria todas as mulheres e nenhuma mulher. / Roseli acordava com a alavancada do homem gozando, pensando que ele estava apenas inquieto e sem conseguir dormir, e roçava o pé cascudo na canela seca dele, em busca de um contato que não acontecia há tempos. Genival, todo melado, fingia estar dormindo e acabava dormindo mesmo. Sem escovar os dentes e com a gengiva vermelha, sonhava com um clarão de fumaça e chuva de cachaça envolvendo a mulher perfeita." Trecho do conto Apenas um cara qualquer (p. 12)

Já em Calombo, é abordada uma visão mais realista da gravidez, um estado que a sociedade insiste em transformar em uma espécie de "santidade arbitrária", o momento mais bonito na vida de uma mulher, tudo muito simples, tudo muito descomplicado, um dom divino e, no entanto, olhando para o ventilador no teto, a protagonista sem nome não tem certeza de nada disso, sente apenas o medo e pergunta para o pedaço do próprio corpo que cresce em sua barriga: Qual o sentido de tudo isso?

"Qual o sentido de tudo isso, hein? é o que ela costumava indagar em voz alta, mas a barriga não respondia. Era estranho conversar com uma parte do próprio corpo, antropomorfizar um pedaço que crescia como se ele subitamente tivesse ganho alguma espécie de personalidade própria. Algo estava ali dentro, se formando, parasitando como ela gostava de dizer, mas as pessoas não riam desse tipo de piada. Regras tácitas eram expressas pela vizinhança por meio de olhares sisudos e cumprimentos constrangidos que indicavam que não era de bom tom uma grávida ironizar a própria situação. Nem usar maquiagem, vestido curto ou aparentar alguma espécie de vaidade para além do papel de progenitora. Ao mesmo tempo, se não passasse um batonzinho sequer, lá vinham os comentários apontando a cara de cansada com mais julgamento do que solidariedade. / Presa em uma santidade arbitrária, ela se sentia destituída de si mesma ao estar sempre sendo partida em duas: a futura mãezinha e a mulher que um dia transou, fodeu, trepou, praticou atos libidinosos. / Fez Sexo." Trecho do conto Calombo (pp. 60-1)

Um dos melhores contos do livro, Cheesecake & siririca é um texto libertário que já começa provocando o leitor logo pelo título, sobre "a beleza e o terror que é estar vivo", sobre as tentativas de classificar o amor: "Talvez porque o amor seja a ilusão de quem crê em cacos reconfigurados. Talvez porque em uma era de qualificação instantânea de experiências, o afobamento pelo controle autonarrativo faça com que emoções sejam descritas antes de serem sentidas." Bonito isso, acho que ainda vamos ouvir falar muito de Maíra Valério.

"Oito pode representar uma grande ou pequena quantidade. Tudo depende do referencial em questão. Andar oito quadras a pé cansa. De carro, a coisa muda de figura. Oito grãos de arroz não servem nem para encher o buraquinho do dente. No entanto, oito pedaços de bolo deixariam qualquer pessoa empanturrada. Oito gotinhas de suco não se comparam a oito baldes enormes e cheios de Coca-Cola. Oito. Um número que nos lembra o infinito de pé ou uma pista de corrida escorregadia e tediosa. Observando por outro ângulo, 8 parece a letra B escrita de um modo mais sinuoso, misterioso. 88888888. Oito oitos. Aliás, analisando bem, oito Hitlers nunca seriam equivalentes a... OK. Não vou apelar para uma nazi card – ainda que o oito remeta até mesmo a isso. O que importa é que foram oito as siriricas tocadas naquele dia. Uma após a outra. Uma após a outra. Uma opós a outra. Uma após a outra. Repetidamente. Sofregamente. [...]" Trecho do conto Cheesecake & siririca (pp. 84-5)

Sobre a autora: Maíra Valério é cria do fim da década de 80 e uma jornalista brasiliense que acredita na rapaziada, na mulherada e na cultura do-it-yourself. Ama frequentar lugares repetidos e mergulhar nas particularidades e anseios dos indivíduos que povoam esse planeta; especializou-se em gênero, sexualidade e direitos humanos; pesquisa mídia, mulher e envelhecimento no mestrado; teve o próprio caráter moldado por livrarias, shows punk e festas gay; é ansiosa, extrovertímida, hipocondríaca e escreve em zines, blogs, revistas, jornais, sites, bloco de notas do celular, cadernos, diários, papeis que encontra pelo chão e o onde mais der. Este é o primeiro livro dela.

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