Vicente Humberto - Abacates no caixote

Poesia brasileira contemporânea
Vicente Humberto - Abacates no caixote - Editora Ficções - 124 Páginas - Projeto gráfico / capa: Alonso Alvarez - Ilustração de Marcos Benjamim - Lançamento: 2020.

Abacates no caixote é uma antologia que cobre trinta anos da produção poética do compositor e poeta mineiro Vicente Humberto em uma caprichada edição com imagens de obras de uma seleção de artistas plásticos, tais como: Carlos Scliar (1920-2001), Amilcar de Castro (1920-2002) e Antônio Poteiro (1925-2010), entre outros, compondo alguns poemas ilustrados. Outra curiosidade no livro é a apresentação da biografia do poeta em versos e, assim, ficamos sabendo que Vivente Humberto é engenheiro de Minas pela UFMG e graduado em Letras pela UFG, ou seja: "Oscilou como pêndulo / Entre a lida técnica / Engenharia / E a poesia".

A sinopse da editora recomenda ler em voz alta cada poema, pois eles nasceram orais. É verdade, mas também são o resultado de uma persistente busca da expressão que desnorteia e encanta o leitor, como em Autópsia (p. 14): "[...] Ah, se tudo fose tão belo, / Se tudo fosse tão belo / Feito o Castelo de Grayskull, / A equação de Laplace, / A Lemniscata de Bernoulli, / O caracol de Pascal." Ou ainda em Ophis (p. 30): "Sob a lente da serpente / Valei-me Valéry! / Resta a causa réptil / Cabeça, triângulo e cauda // Vibra a víbora sobre a relva, / Estrela binária a sua língua, / Singra o inferno para isto, / O paraíso mingua. [...]"

Na invejável simplicidade das construções perfeitas reside o ritmo e o lirismo dos versos do poeta. Seja no poema-carta para o falecido pai (Prece, p. 28), na singela declaração para a musa amada  (Aniversário, p. 29) ou na linda homenagem à poesia (Colhendo letrinhas, p. 41), é sempre um prazer nos deparar com uma "chuva de andorinhas", deixo vocês com esses três exemplos da poesia madura de Vicente Humberto.

Prece
(Para Vicente Paulo Cruz, meu pai)

Se meu verso fosse capaz,
Te traria de volta
E se ainda fosse capaz,
Nunca mais deixaria você ir,
Ou até se fosse capaz,
Iria com você

Aniversário
(para Jô)

Com você
Desaprendi
A perceber
    O correr dos dias

Foram 20 anos
Ou foram vinte dias?

Colhendo letrinhas
(para Pio Vargas)

Você chega, cheia de signos e conquista mansinho.
Sorrateira vai impregnando seu mundo de vocábulos
Em meu mundo de engenheiro.
Depois, envolve meus cálculos frios no frio imenso
Da angústia e da solidão.

Irônica, convida para seu banquete de estrelas
Se veste de ingênua e vai adultando em imagens
Depois deita no chão e conta os aviões comigo
Crava alfinetes de prata e esporas de cobre.

Um a um foram tombando meus exércitos
Todos novale dos suicidas
E eu entre eles colhendo letrinhas.

Vai, alma vadia,
Penso nela e o verão anuncia
Uma chuva de andorinhas
Borboletas no crepúsculo. 

Sobre o autor (em versos): "Nasceu em Uberaba, Minas Gerais / Em 3 de fevereiro de 1953 / Filho de Vicente de Paulo Cruz / Bancário do Banco Hipotecário / E Pirenice Nicinha doce Doceira de Pires do Rio Goiás [...] Publicou Folhas Levadas / Em Ouro Preto nos anos setenta / E Perpendiculares pela Editora artepaubrasil / Em São Paulo nos idos de oitenta [...] Promoveu Poesia na Rua / Semana de Artes de Ouro Preto / Publicou Poemas Cartazes / E poemas no Algodão / Fez programa de Rádio de Jazz, Blues / E literatura / Declamou em concursos de Poesia Falada / É membro da Academia Catalana de Letras [...]"

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Abacates no caixote de Vicente Humberto 

Comentários

Muito interessante esse livro. Parabéns pela resenha e por sempre trazer coisas novas e diversas da literatura.
Alexandre Kovacs disse…
Obrigado Kelly, fico feliz que tenha gostado!

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