Alexandre Meira - Guia de sobrevivência do exilado no próprio país

Ensaios
Alexandre Meira - Guia de sobrevivência do exilado no próprio país - Editora Penalux - 148 Páginas - Editoração eletrônica e Capa: Karina Tenório - Lançamento: 2020.

É normal que a decepção com o cenário político atual possa estimular sentimentos contraditórios. De um lado, a apatia política e o desejo de isolamento e, no outro extremo, a polarização ideológica, levando a sociedade a uma escolha entre o conformismo ou o ódio. Para sair deste impasse e preservar os valores democráticos é necessário acesso à informação e diálogo, como propõe este livro de Alexandre Meira, uma reunião de cinco crônicas ou pequenos ensaios sobre os eventos marcantes do cenário político nacional nos anos mais recentes, tais como: as manifestações de rua de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a ascensão ao poder da extrema direita conservadora e o assassinato de Marielle Franco, entre outros.

É fácil entender a sensação de exílio no próprio país quando percebemos que antigas amizades, assim como relações familiares, são colocadas em perigo por discursos inflamados nas redes sociais, nem sempre pontuados por informações confiáveis. O que geralmente ocorre nesses casos é um excesso de discurso e pouco diálogo, como bem colocado pelo autor em O Golpe na Amendoeira (ler trecho abaixo), uma crônica inspirada pela resistência das amendoeiras que vieram nas naus portuguesas e espalharam-se pelo país com suas raízes profundas e uma sombra acolhedora, "irremediavelmente democrática", propiciada por suas grandes folhas. Um texto que é também uma reflexão sobre ética e caráter na gestação de um Golpe de Estado organizado na forma de impeachment. 

"Uma das coisas mais estranhas desses tempos atuais é ver como aos poucos o diálogo tem sido morto a golpes duros de discurso. É simples: diálogo não é discurso. Veja bem, o exercício da política pressupõe que haja o diálogo, um não há sem que haja o outro. Política, se retornarmos ao seu sentido grego original, quer dizer algo como a arte ou exercício pleno do convencimento em prol da governança, não e à toa que Aristóteles nos definia de forma existencial como animais eminentemente políticos. [...] O discurso, por ser impositivo, quebra a alteridade porque não enxerga subjetividade no outro. Geralmente é dirigido às massas, onde não há manifestação consciente da individualidade e torna-se, por isso, atraente. Olhando de perto, porém, ele é homogêneo e simplista, não resistindo ao seu antídoto por definição: o diálogo. Por isso o discurso é uma arma poderosa na mão de quem tem medo, de quem é reativo, primal, de quem resiste à ideia de transformação, principalmente da autotransformação." - Trecho de O Golpe na Amendoeira (pp. 17-8)

É preciso não confundir a violência urbana no Rio de Janeiro com crime político, por mais dolorosos que ambos possam ser, assim alerta Alexandre Meira em Por que eu Matei Marielle? O brutal assassinato da socióloga e política que lutava como vereadora pelos direitos das mulheres, da população LGBT e dos negros e moradores de favelas, continua não esclarecido e uma pergunta ainda sem resposta até hoje: Quem mandou matar Marielle? 

"No dia 14 de março de 2018, Marielle Franco, uma vereadora da cidade do Rio de Janeiro, foi até à Casa das Pretas, na Rua dos Inválidos, Lapa, centro histórico da cidade do Rio de Janeiro, para fazer uma mediação em um encontro com debates promovidos pelo Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, envolvendo jovens negras, por volta das dezenove horas. Ela, Marielle, sozinha, representava ao mesmo tempo mulheres, negros e homossexuais e sua comunidade pobre de origem, o Complexo da Maré. Mas como já foi dito acima... e por conta de sua essência transformadora, ela jamais caberia no mundo reservado para si pelas históricas aberrações da estrutura social brasileira. Ela se moveu. Mais do que isso: ela virou a voz de outras Marielles. Ela foi eleita. Ela, mesmo dentro da democracia soluçante brasileira, representava uma agenda ocultada pelos ferrolhos econômicos e oligárquicos do país. Ela participava politicamente de um lugar historicamente não reservado a ela, a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, ela por si só era uma bomba semiótica no ventre de um Estado misógino e desigual, moedor de gente pobre e preta. [...]" - Trecho de Por que eu Matei Marielle? (p. 73)

Em Chão de Amêndoas, o autor relembra as suas primeira impressões sobre política, ainda criança,  a eleição direta de Fernando Collor em 1989 — a primeira realizada pelo voto popular desde 1961 — encerrando o longo período de governo dos militares que se alternaram no comando do poder Executivo, os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e os governos sucessivos do PT, a partir da primeira eleição de Lula em 2003, sua reeleição em 2006 e os dois mandatos de Dilma Rousseff, desde 2011 até o seu afastamento em 2016.

Sobre o autor: Alexandre Meira é carioca e tem 41 anos. Devoto do magistério. Mestre em Ciências Sociais. Faz desse seu primeiro livro um guia de sobrevivência que sirva de refúgio contra belicismos ou campanhas de ódio do dia de hoje. Um guia para esse novo exílio, dedicado a quem tem se sentido um pouco desterrado nestes últimos anos. Algo como estar, mas não sentir mais o Brasil, ainda que sob uma sombra de amendoeira no subúrbio ou tomando uma gelada com os amigos, mas sobretudo estando neste mesmo país.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar o Guia de sobrevivência de Alexandre Meira

Comentários

Muito orgulho, Kovacs. É uma honra ter o trabalho analisado aqui nesse espaço. Muito feliz. Espero que gostem!
Alexandre Kovacs disse…
Oi Alexandre, obrigado pelo comentário e boa sorte na divulgação do livro!
Adriane Garcia disse…
Excelente seleção de textos, Alexandre.
Alexandre Kovacs disse…
Obrigado pela visita e comentário Adriane!

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