Leonardo Valente - Calote

Literatura brasileira contemporânea
Leonardo Valente - Calote - Editora Mondrongo - 180 Páginas - Capa: Cláudio Duarte - Lançamento: 2020.

No mais recente romance de Leonardo Valente, o Brasil se tornou uma espécie de distopia financeira e, por sinal, assustadoramente semelhante à situação na qual vivemos atualmente. Em um futuro próximo, imaginado por Leonardo, o Mercado toma de vez as rédeas da nação em nome de um liberalismo econômico extremo, formatado por um conceito de meritocracia injusto e assumindo as funções de um Estado falido, burocrático e corrupto. O capitalismo predatório prioriza a atividade financeira em detrimento da produtiva, direitos trabalhistas são flexibilizados ou cancelados, deixando a população assalariada refém dos juros extorsivos do cartão de crédito e excluída de qualquer possibilidade de ascensão social.

Neste contexto, o romance acompanha a trajetória de dois protagonistas que representam, cada um a seu modo, os extremos deste sistema. Marlene Scheidt é uma sobrevivente da classe média e tem acesso a cada vez menos privilégios, viúva com dois filhos pequenos, trabalha em uma loja de departamentos na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, desesperada com as dívidas exponenciais no cartão de crédito que já não consegue pagar e prestes a não ter onde morar. Já David Scheidt, jamais deixou de pagar o valor total de seu cartão de crédito black sem limite pré-estabelecido, um defensor do mercado financeiro, diretor de um banco especializado em investimentos na Avenida Paulistra que venceu uma concorrência aberta para criar uma lista nacional centralizada de controle de pagamentos, dívidas em atraso e inadimplentes.

"São Paulo viu fechar quase tudo o que um dia foi chamado de público, e o que sobrou virou comércio honrado, empreendimento inovador ou contrato arrojado. O verde do maior parque da cidade passou a cobrar de seus habitantes a sua visita, em nem um só banheiro de toda a metrópole deixou de ter uma máquina de cartões de crédito e débito em sua entrada. Até as praças ganharam seus planos de negócios e seus executivos estressados com o balanço, não o de brinquedo, mas aquele que deveriam apresentar ao final de cada ano para seus acionistas. As massas converteram-se em indivíduos e os cidadãos em clientes. (...) Um modelo, passaram a pregar os paulistanos mais entusiasmados, que se espalharia rapidamente pelo Brasil, ou pelo menos pela parte menos indolente dele. Uma cidade-empresa capaz de gerar lucro a seus acionistas só poderia ser um plano fadado ao sucesso e aos investimentos vultuosos dos estrangeiros, admirados e ávidos por participarem de tamanha empreitada." (pp. 64-5)

Um tênue laço familiar une os dois personagens, David é filho de Ricardo, de quem Marlene é viúva, mas ambos perderam o contato há algum tempo. O desespero de Marlene frente à inviabilidade de continuar rolando as dívidas no cartão de crédito, faz com que ela considere, depois de uma noite em claro, a vergonhosa alternativa de pedir auxílio financeiro a Ricardo, afinal ele é irmão de seus dois filhos por parte de pai. No entanto, no dia seguinte, ocorre no país o surpreendente dia da insubordinação civil, no qual a população das classes C, D e E, silenciosa e misteriosamente, para de pagar as suas contas, provocando a queda das ações na Bolsa e um verdadeiro terremoto no mercado financeiro.

Uma revolução silenciosa abala o país e o ultraliberal David Scheidt não consegue acreditar nos índices apresentados por sua equipe, esperando a confirmaçao de que se trata de um erro do sistema. Contudo, os dados estavam rigorosamente corretos e, naquele primeiro dia do Calote, ficou comprovado que o índice de pagamentos em aberto das classes C, D e E superava os 97%, enquanto nas classes A e B, ficava em menos de 8%. Considerando que a maioria esmagadora dos dados das contas vinha das classes mais pobres, não apenas por ser mais numerosa, mas porque também fazia mais dívidas, a situação era muito grave.

"Era um calote. Ficou claro quando David, que dessa vez acordou às seis da manhã sem despertador e sem ninguém ao seu lado, recebeu as primeiras parciais por telefone, às sete e cinco da manhã: 91,5% das contas com vencimento naquele dia, e que normalmente seriam pagas no período, estavam em aberto, sendo que nenhuma das contas em atraso do dia anterior havia sido quitada até aquele momento. Percebeu a gravidade da situação e, como todo diretor intermediário com muita arrogância e poder sobre os subordinados, mas nenhuma autonomia sobre o que realmente interessa, jogou a informação imediatamente para cima. Enviou mensagens para o presidente e para os acionistas com os primeiros indicadores, e recebeu como resposta a confirmação de uma entrevista coletiva às nove e meia, pouco antes dos mercados abrirem, e uma enorme lista de dados para enviar." (p.81)

O poderoso Mercado que sempre soube como manter o poder durante tantos anos, não estava preparado para uma revolução tão fora dos padrões e uma singela verdade que se anunciava: "De agora em diante, o devedor é o verdadeiro credor." Leonardo Valente conseguiu um feito curioso porque, ao final da leitura, ficamos na dúvida se o livro trata de uma distopia ou utopia, acho que isso vai depender do valor de sua dívida atual no cartão crédito, caro(a) leitor(a), mas, de qualquer forma, vale a pena conhecer e julgar por você mesmo(a).

"O Mercado e seus súditos se prepararam por anos para as ameaças externas, bloquearam suas fronteiras e ergueram um muro quase intransponível, combateram com vigor todas as reações, até eliminá-las pela fadiga. Absorveram tudo o que vinha de fora como ameaça, e converteram em produto rentável. Para não serem mais surpreendidos com sustos provocados pelos bárbaros e aventureiros, montaram vigília permanente em seus minaretes, de onde se via o exterior ao longe. Mas Calote veio de dentro, e sem precisar furar suas armaduras por debaixo dos paletós, passou a comer-lhes as carnes moles e duras. Poderosos no combate externo, mas incapazes de olhar para a própria pele, os defensores da ordem em xeque se desesperaram." (p. 133)

Sobre o autor: Leonardo Valente é escritor, jornalista, cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nascido em Niterói-RJ, em 1974, tem três romances publicados, cinco livros de ficção e três de não-ficção. Foi um dos vencedores do Prêmio José de Alencar 2017, da União Brasileira de Escritores, com um original ainda não publicado. Pela Mondrongo publicou Apoteose (Contos, 2018), O beijo da pombagira (Romance, 2019 - livro finalista do Prêmio Rio de Literatura, categoria novo autor fluminense) e organizou junto com Carol Proner a coletânea Antifascistas: contos, crônicas e poemas de resistência (2020).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Calote de Leonardo Valente

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