Mikhail Bulgákov - O Mestre e Margarida

Clássicos da Literatura
Mikhail Bulgákov - O Mestre e Margarida - Editora 34 - 408 Páginas - Tradução de Irineu Franco Perpetuo - Capa: Bracher & Malta Produção Gráfica - Lançamento: 2017.

Não sei por que demorei tanto para ler este livro, considerado um dos romances mais importantes e influentes do século XX. Essa espera, contudo, acabou sendo providencial uma vez que O Mestre e Margarida de Mikhail Bulgákov (1891-1940) é uma obra que requer maturidade literária para que se possa assimilar, ainda que parcialmente, suas múltiplas camadas e referências. Outra vantagem foi contar com esta mais recente e bem-cuidada edição da Editora 34 com tradução direta, posfácio e notas de Irineu Franco Perpetuo, especialista em literatura russa, a partir da versão mais completa e atualizada, publicada apenas em 2014 pela pesquisadora Ielena Kolycheva com base nos rascunhos e versões datilografadas do autor.

Inspirado no poema trágico Fausto de Goethe e na ópera homônima de Charles Gounod, o romance é uma sátira ferina à sociedade moscovita e à crítica literária da época. Bulgákov o desenvolveu de maneira fragmentada ao longo de doze anos (1928–1940), enfrentando a censura e perseguição stalinista. A obra só veio a público décadas depois, graças aos esforços de sua terceira esposa, Ielena Serguêievna, que preservou o manuscrito para publicação póstuma: primeiro na França (1967) e na Alemanha (1969), ambas edições em russo. A publicação soviética ocorreu apenas em 1973, quando já havia sido traduzida para diversas línguas, inclusive português (1969) em tradução indireta do inglês, um pecado para qualquer obra.

Resumir o enredo é tarefa ingrata, pois a narrativa se desdobra em três partes ou camadas principais com inúmeros personagens. Na primeira, acompanhamos a chegada de um estrangeiro enigmático na Moscou dos anos 1930, professor de magia negra contratado para um espetáculo de ilusionismo e identificado como Woland  ninguém menos que o próprio Satã  que vem acompanhado por uma trupe insólita: o gato falante e debochado Behemoth; o intérprete trapaceiro Korôviev; a sedutora bruxa Hella e o capanga Azazello. Esse grupo provoca o caos na cidade com episódios memoráveis, como a chuva de dinheiro durante o espetáculo no Teatro de Variedades, expondo a ganância dos cidadãos moscovitas e a utopia do regime comunista.

"[...] — Perdão — retrucou o desconhecido, com delicadeza —, mas para governar é preciso, afinal, ter um plano preciso para um certo período razoável de tempo. Permita-me perguntar: como o homem poderia governar se ele não apenas está privado da possibilidade de elaborar um plano para um período de tempo ridiculamente curto, como, digamos, mil anos, mas nem consegue responder pelo dia de amanhã? E, de fato — daí o desconhecido se virou para Berlioz —, imagine que o senhor, por exemplo, comece a governar, dar ordens para os outros e para si mesmo, em geral, como dizem, pega gosto e, de repente... cof... cof... um sarcoma no pulmão... — daí o estrangeiro abriu um sorriso doce, como se a ideia de um sarcoma no pulmão lhe desse satisfação — sim, um sarcoma — repetiu a palavra sonora, semicerrando os olhos, como um gato —, e é o fim do seu governo! Nenhum destino o interessa mais, além do seu próprio. Os parentes começam a lhe enrolar, o senhor, sentindo que algo não está bem, sai correndo atrás dos médicos formados, depois dos charlatães, e acontece de ir a cartomantes. Assim como os primeiros e os segundos, esses terceiros também se mostram totalmente insensatos, como o senhor mesmo compreende. [...]" (p. 22) - Trecho do Capítulo 1 - Nunca fale com desconhecidos

Uma segunda camada concentra-se na história de amor entre o Mestre — assim nomeado ao longo de todo o romance, funcionando como alter ego de Bulgákov — e Margarida, inspirada em sua terceira esposa. Há inúmeras evidências de que se trata de um enredo autobiográfico, sobretudo quando o atormentado Mestre, incapaz de suportar as críticas ao seu romance, perde a sanidade e decide queimar todos os manuscritos, episódio que de fato ocorreu na vida do autor. Após o desaparecimento do Mestre, internado em uma clínica psiquiátrica, Margarida, tomada pelo desespero, faz um pacto com o Diabo na esperança de recuperar o amado. Transforma-se em bruxa, abandona o marido e participa de um baile satânico como rainha, numa das passagens mais intensas do livro.

"O unguento modificara não apenas seu exterior. Agora em todo seu ser, em cada partícula do corpo, fervilhava a alegria, que ela sentia como bolhas a lhe picar todo o corpo. Margarida se sentia livre, livre de tudo. Além disso, entendia com toda a clareza que acontecera exatamente aquilo de que seu pressentimento lhe falara por toda a manhã, e que ela abandonaria para sempre a mansão e a vida anterior. Porém, dessa vida anterior, ainda vinha a ideia de que precisava cumprir um último dever antes de começar algo de novo e extraordinário, que a impelia para cima, para o ar. E, nua como estava, voando pelo ar de vez em quando, saiu correndo do dormitório para o gabinete do marido, e acendendo a luz, precipitou-se para a escrivaninha. Em uma folha arrancada de um bloco, escreveu uma nota a lápis, rápido, com letras grandes, e sem correções: 'Perdoe-me e me esqueça o mais rápido possível. Estou deixando-o para sempre. Não me procure, é inútil. Tornei-me uma bruxa por causa das desgraças e calamidades que me afligiram. Está na minha hora. Adeus. Margarida'" (p. 235) - Trecho do Capítulo 20 - O creme de Azazello

A terceira camada que atravessa toda a obra é o romance escrito pelo Mestre, rejeitado pela crítica e, surpreendentemente, ressuscitado por Satã após ter sido queimado, graças à atuação de Margarida durante o baile. Passagens deste livro são intercaladas em capítulos que narram a história de Pôncio Pilatos e o julgamento de Cristo, tido como subversivo por recusar o poder dos Césares ou qualquer outra autoridade. Mais uma vez fica evidente a analogia com a opressão do regime soviético. Bulgákov nos deixou uma obra-prima que continua a desconcertar e fascinar leitores em todo o mundo que descobrem novas referências e semelhanças não apenas com o regime autoritário da época, mas também com certos governos da atualidade, provando que a arte sempre encontra caminhos para se manifestar.

"A meia-noite se aproximava, era necessário ter pressa. Margarida via tudo de forma confusa. Guardou na memória as velas e uma piscina de pedras preciosas. Enquanto Margarida estava de pé no fundo dessa piscina, Hella, com o auxílio de Natacha, vestia sobre ela um líquido fervente, espesso e vermelho. Margarida sentiu gosto de sal nos lábios e compreendeu que estava sendo banhada com sangue. O manto de sangue foi trocado por outro, espesso, transparente, rosado, e o óleo de rosas fez a cabeça de Margarida girar. Depois, Margarida foi jogada em um leito de cristal, e se puseram a esfregá-la com grandes folhas verdes, até ficar brilhante. Daí o gato irrompeu e começou a ajudar. Agachou-se aos pés de Margarida e passou a friccionar suas plantas dos pés, como se estivesse engraxando sapatos na rua. Margarida não lembrava quem lhe confeccionara aqueles sapatos de pétalas de rosas brancas, nem como esses sapatos abotoavam sozinhos suas fivelas douradas. Uma força levantou Margarida e a colocou na frente do espelho, e em seus cabelos cintilou uma coroa real de diamantes." (p. 264) - Trecho do Capítulo 23 - O grande baile de Satã

Clássicos da literatura
Sobre o autor: Mikhail Afanássievitch Bulgákov nasceu em Kíev, na Ucrânia, em 1891, filho de um teólogo e uma professora de piano. Formou-se em Medicina, tendo sido voluntário da Cruz Vermelha durante a Primeira Guerra Mundial. Após a Revolução de 1917, chegou a lutar ao lado do Exército Branco contra os bolcheviques. Nos anos 1920, sob influência de Gógol e H. G. Wells, escreveu contos e novelas satirizando a Nova Política Econômica (NEP), como as narrativas da coletânea Diabolíada (1925) e a novela Um coração de cachorro, rejeitada pela censura no mesmo ano. Publicou também o ciclo de contos Anotações de um jovem médico, de teor autobiográfico, em periódicos locais. Foi como dramaturgo, no entanto, que Bulgákov primeiro alcançou a fama, quando o Teatro de Arte de Moscou (TAM) o convidou a adaptar para os palcos seu romance A guarda branca, uma crônica de Kíev durante a Guerra Civil; o texto foi montado em 1926 com o título Os dias dos Turbin. Após ter várias peças censuradas, Bulgákov queimou seus manuscritos e escreveu em 1930 uma carta ao governo soviético pedindo permissão para deixar o país. Sem a autorização, conseguiu apenas um emprego de assistente no TAM. Morreu em 1940, em Moscou, tendo trabalhado até seus últimos dias em O mestre e Margarida, seu romance-testamento.

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