Ismail Xavier - A experiência do cinema

Cinema, história
Ismail Xavier - A experiência do cinema - Editora Paz e Terra - 392 Páginas - Relançamento: 02/04/2018 (Leia um trecho disponibilizado pela Editora).

Esta antologia relançada agora pela Editora Paz e Terra foi organizada pelo professor Ismail Xavier e lançada originalmente em 1983, tendo se tornado, desde então, uma referência na área de teoria do cinema em nosso país. Obviamente, um livro indispensável para estudiosos e profissionais da área, mas também de interesse para aqueles que queiram conhecer mais sobre a teoria e prática da linguagem do cinema mundial.

A experiência do cinema se destaca na extensa bibliografia de Ismail Xavier pela abrangência e originalidade de suas escolhas, abordando um período de 1916 a 1980, os textos selecionados pelo organizador, produzidos por críticos, filósofos, psicólogos e, é claro, cineastas da importância de Eisenstein e Luis Buñuel, contam um pouco da história do cinema mundial no século XX e a experiência cinematográfica sob diferentes pontos de vista.

A organização proposta por Ismail Xavier para esta antologia compreende três partes:

Parte I
A ORDEM DO OLHAR: A CODIFICAÇÃO DO CINEMA CLÁSSICO, AS DIMENSÕES DA NOVA IMAGEM - Textos de Hugo Münsterberg (1863-1916), V. Pudovkin (1893-1953), Béla Balázs (1884-1949), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), André Bazin (1918-1958) e Edgar Morin(1921- ).

Esta parte inicia com os textos do psicólogo alemão Hugo Münsterberg sobre a relação dos processos utilizados no cinema narrativo convencional para lidar com a atenção, memória, imaginação e emoção do espectador. Em seguida são apresentadas as ideias do cineasta russo V. Pudovkin sobre as técnicas de montagem de cena, sequência e roteiro. Os conceitos do escritor e crítico húngaro Béla Balázs sobre o "homem visível" e a recuperação da experiência visual após séculos da cultura impressa. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty analisa a percepção do espectador sob a luz da psicologia. Os artigos do crítico francês André Bazin descrevem os "pontos críticos" de representação do cinema, o ato sexual e a morte. Finalizando esta parte alguns textos bastante complexos do antropólogo e sociólogo francês Edgar Morin, conceituando o antropomorfismo e os processos de projeção e identificação no cinema.

Parte II
A AMPLIAÇÃO DO OLHAR, INVESTIGAÇÕES SONORAS: POÉTICAS - Textos de Sergei M. Eisenstein (1898-1948), Dziga Vertov (1896-1954), Jean Epstein (1897-1953), Robert Desnos (1900-1945), Luis Buñuel (1900-1983), Stan Brakhage (1933-2003)

Nesta parte foram selecionados quatro textos do cineasta russo Eisenstein dos anos 1920 a 1940, o trecho em que ele comenta a adaptação do romance de Theodor Dreiser, Uma tragédia americana já vale a pena por toda a antologia. Outro cineasta russo, Dziga Vertov, defende o cinema "fábrica de fatos" e o movimento dos "KINOKS". O cineasta francês Jean Epstein apresenta um conceito interessante: "A literatura moderna e o cinema são igualmente inimigos do teatro." Já Robert Desnos e Luis Buñuel representam o forte movimento surrealista francês em seus filmes. Finalizando esta parte um artigo de Stan Brakhage, ícone do movimento underground norte-americano, sobre o o compromisso com o radicalismo na busca de uma nova estética visual.

Parte III
O PRAZER DO OLHAR E O CORPO DA VOZ: A PSICANÁLISE DIANTE DO FILME CLÁSSICO - Textos de Hugo Mauerhofer (1904-1962), Jean-Louis Baudry (1930-2015), Christian Metz (1931-1993), Laura Mulvey (1941- ), Mary Ann Doane (1952- ).

Nesta parte final os textos refletem a visão da psicanálise no cinema convencional. Aqui o leitor talvez sinta falta de uma base teórica nesta área, mas nada que uma rápida pesquisa não resolva. O psicólogo alemão Hugo Mauerhofer teoriza sobre a "situação cinema" e a estranha zona de fronteira entre a vigília e o sonho que nos leva para longe dos problemas cotidianos.  O ensaísta francês Jean-Louis Baudry define o "aparelho de base", o sistema integrado câmera/imagem/montagem/projetor/sala escura. Já o teórico francês Christian Metz explica como o espectador na sala escura reproduz certas condições do que Lacan definiu como a "fase do espelho" na criança. Laura Mulvey é uma crítica e feminista britânica que analisa os fenômenos de voyeurismo e prazer visual no cinema utilizando conceitos da psicanálise como falocentrismo e a "angústia da castração". Finalizando o livro, um artigo de 1980 da crítica norte-americana Mary Ann Doane sobre a função da trilha sonora e do som, incluindo considerações sobre a voz-off e voz-over na narrativa cinematográfica.
"Quando o homem moderno, particularmente o habitante da cidade, deixa a luz natural do dia ou a luz artificial da noite e entra no cinema, opera-se em sua consciência uma mudança psicológica crucial. (...) Um dos principais aspectos desse ato corriqueiro, que chamaremos de situação cinema, é o isolamento mais completo possível do mundo exterior e de suas fontes de perturbação visual e auditiva. O cinema ideal seria aquele onde não houvesse absolutamente nenhum ponto de luz (tais como letreiros luminosos de emergência e saída etc.) fora a própria tela e, fora a trilha sonora do filme não pudessem penetrar nem mesmo os mínimos ruídos. (...) Em tais circunstâncias, ocorre em primeiro lugar uma alteração na sensação de tempo, no sentido de um retardamento do curso normal dos acontecimentos: a impressão subjetiva é a de que o tempo passa mais lentamente do que quando, sob o efeito da luz, seja natural, seja artificial, somos mantidos a certa distância de nossa experiência temporal (...) Um outro efeito psicológico do confinamento visual em um quarto escuro é a alteração da sensação de espaço. Sabe-se que a iluminação insuficiente torna a forma dos objetos menos definida, dando à imaginação maior liberdade de interpretar o mundo que nos cerca." - A Psicologia da Experiência Cinematográfica - Hugo Mauerhofer (Págs. 303 e 304)
Um livro que não deve faltar em qualquer biblioteca voltada para as áreas de cultura e arte contemporâneas, exigindo um certo nível de conhecimento prévio do leitor, principalmente no campo da psicanálise e filmes de vanguarda. De qualquer forma, aprendi muito com esta antologia e recomendo a sua leitura para todos que desejem conhecer mais sobre a teoria e história do cinema.
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