Leonardo Padura - Hereges

Literatura hispano-americana contemporânea
Leonardo Padura - Hereges - Boitempo Editorial - 512 Páginas - Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht - Capa de Ronaldo Alves - Lançamento no Brasil: 2015

Depois do grande sucesso de público e crítica de seu romance histórico O homem que amava os cachorros e também do policial A neblina do passado (sigam os links para as respectivas resenhas do Mundo de K), Leonardo Padura se tornou um dos escritores cubanos mais conhecidos no Brasil. Em Hereges o leitor reencontrará um dos personagens mais famosos e carismáticos do autor, o detetive Mario Conde, um escritor frustrado que, após a sua saída dos quadros da polícia local, sobrevive à base de expedientes, comprando e vendendo livros usados, assim como boa parte da população de Havana, uma geração desiludida com os rumos da revolução.

Lançado originalmente em 2013, o livro combina os dois estilos – romance histórico e policial noir – em um ambicioso projeto narrativo que conecta uma série de fatos e personagens ao longo de muitas épocas, todos ligados a uma pintura perdida de Rembrandt. Em 1939, o menino Daniel Kaminsky e seu tio aguardam no porto de Havana a chegada do navio S.S. Saint Louis com 937 refugiados judeus que, no entanto, após vários dias de espera foram impedidos de desembarcar em Cuba. Entre os passageiros estavam o pai, a mãe e a irmã de Daniel. Em 2007, o detetive Mario Conde é procurado por Isaias Kaminsky, o filho de Daniel, para investigar o que ocorreu com sua família e a pintura de Rembrandt que deveria ter sido utilizada como suborno na época para autorizar o desembarque da família.
"Tratava-se de uma cópia recente de uma foto antiga. O sépia original tinha se tornado cinza e viam-se as margens irregulares da cartolina primitiva. Na imagem havia uma mulher, entre os seus vinte, trinta anos, sentada com um vestido escuro numa poltrona de tecido brocado e espaldar alto. Ao lado da mulher, um menino de uns cinco anos, em pé, com a mão no colo da senhora, olhava para a objetiva. Pelas roupas e penteados, Conde supôs que a foto tinha sido tirada entre as décadas de 1920 e 1930. Já advertido sobre o assunto, depois de observar os personagens, Conde se concentrou num pequeno quadro pendurado atrás deles, acima de uma mesinha onde repousava um vaso com flores brancas. O quadro devia ter, uns 40 por 25 centímetros, a julgar por sua relação com a cabeça da mulher. Conde moveu a foto procurando a melhor iluminação para estudar a figura emoldurada: tratava-se do busto de um homem, com o cabelo repartido no meio e descendo até os ombros e uma barba rala e descuidada. Aquela imagem transmitia algo indefinível, sobretudo o olhar perdido e melancólico dos olhos do sujeito, e Conde se perguntou se era o retrato de um homem ou uma representação da figura de Cristo, muito parecida com alguma que devia  ter visto em um ou mais livros com reproduções de pintura de Rembrandt. Um Cristo de Rembrandt na casa de judeus?" (p. 36)
Na primeira parte da obra (Livro de Daniel) é contada a trágica história da família Kaminsky, na segunda (Livro de Elias), em 1643, o leitor acompanha em detalhes o trabalho de Rembrandt e de um jovem que, apesar da proibição da religião judaica, luta para ser aceito como aprendiz do mestre. Na terceira parte (Livro de Judith), em 2007, Mario Conde investiga o desaparecimento de uma jovem adolescente em Cuba que acabará se conectando com a família Kaminsky e o misterioso quadro. Na última parte (Gênesis), o quebra-cabeça histórico é finalmente resolvido. Uma obra de fôlego e excelente recomendação para conhecer o trabalho de Leonardo Padura, ainda melhor que O homem que amava os cachorros.

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