Cyro Leão - Rafaela em queda

Literatura brasileira contemporânea
Cyro Leão - Rafaela em queda - Editora Patuá - 192 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019.

Não há como ficar indiferente à experiência literária proposta por Cyro Leão neste Rafaela em Queda, um livro que incorpora elementos de romance, conto, diário e poesia, para questionar a fragilidade da vida e o nosso impasse existencial por meio da ficção. Na primeira parte, acompanhamos de perto três sofridos personagens, solitários e desajustados no ambiente em que vivem: Rafaela, Teles e Rômi.

Rafaela tem uma deformidade de nascença nos pés e vive assustada e isolada do mundo com seus escritos e estranhos personagens: "Rafaela evita convívios, se apavora no escuro, lê muito, escreve sempre, quase não fala ou se relaciona – prefere personagens, ficção: eles nunca incomodam e estão sempre à mão. Quando chega a noite, seus olhos ardem escrevendo e lendo, até dormir cansada e com luz nunca apagada."

"Teles é um imbecil que parece sempre pronto para ir ao serviço", ele é ridicularizado pelos colegas devido à característica incontrolável de chorar em público quando é colocado sob pressão: "Com o tempo as pessoas próximas, no trabalho, na família, já pouco se importavam com sua boca frouxa e o nariz escorrendo. Mesmo os que em princípio se comoviam, já não suportavam mais aquela lamúria estúpida e nojenta." Teles conhece Rafaela no metrô, por acaso, e iniciam um rápido relacionamento que ele, na sua insegurança, procura manter, mas é descartado por ela, "sempre em busca de algo e em fuga de tudo".

"Rômi, por outro lado, "parece estar sempre pronto para a guerra", mora no mesmo prédio que Rafaela e tem fixação por facas e automutilação: "'Isto sim, é dor de verdade!' pensou Rômi enquanto rasgava, aos treze anos, com estilete a própria perna, primeira das feridas que aumentaram ano a ano mais profundas e variadas." A sua pele é coberta por cicatrizes, desenhos e brincos. Ele conhece Rafaela apenas de vista, mas pretende realizar com "a vizinha esquisita e solitária" a experiência de mutilar outra pessoa, imaginando como seria a sensação.
"Cresceu e com ele o gosto torto, passando a se cortar, pequenas incisões, cicatrizes das quais se orgulhava e de onde extraía purgação e deleite. Logo imaginou como seria fazer aquilo nos outros, suas reações e a sua própria observando a dor alheia, a deformação para sempre no corpo e na memória. Jamais teve uma oportunidade, pena. Uma namoradinha estilo louca a quem propôs o desafio, mostrou-se menos pirada do que alardeava. Primeiro topou, depois tremeu-se toda ao primeiro sanguinho que escorreu. 'Vá à merda então!'. Atualmente deseja cada vez mais fazer com alguém, mesmo que à força, uma vez só, e ver no que dá. Não considera que isso seria um crime, mas também não se importaria se a coisa toda desandasse até a pessoa não aguentar o tranco... 'Foda-se.'" Trecho de Três perfis aproximados (p. 28)
Na segunda parte, por meio dos contos de Rafaela, que lidam com universos paralelos e eventos fantásticos, ficamos conhecendo detalhes da sua trajetória e, aos poucos, sempre orientados pela metaficção, conhecemos os seus questionamentos mais profundos, que também são nossos, como a insegurança diante da morte. Tudo que sabemos vem dos textos com traços autobiográficos, embora não fique claro o quanto há de fantasia da protagonista.  
"[...] Enquanto nos debatemos para desviar da morte, ela se aproxima serena, certeira, sem que nada venha nos resgatar, sem escapatória. / Porque a morte virá, já está aqui, aí, aguardando paciente para acabar tudo, concluir nossa aniquilação total, nosso desaparecimento da Terra. Pode restar uma memória de quem você foi, sim mas o que importa é que VOCÊ NÃO ESTARÁ MAIS AQUI. É isso que nos condena e amaldiçoa. E então a vida nada mais é que o incessante e vazio caminhar para a morte, vagaroso rastejar sem opção de fuga. / E entre escombros e esperanças esfarrapadas a existência se esvai, se evola e nada estabelece. Tudo é transitório, o pouco que permanece é vão. Um vazio que devora, voragem que devasta tudo que se quer preencher. Que proíbe, procrastina, interrompe cada passo, prende o pé a milhões de grilhões e assim todos nos arrastamos desse desarrazoado viver. Afinal, viver por quê? Pior ainda, mas preciso perguntar, viver o quê? Não há alma que queira ou possa responder. / Assim finge-se, ferra-se e faz-se de conta que há um propósito, um fim, quando talvez haja apenas o despropósito. E o fim." Trecho de Em Queda (pp. 52 a 54)
Na terceira e última parte, dois novos personagens, Luiz e Jadyr, lançam alguma luz sobre o que de fato ocorreu com Rafaela, Teles e Rômi, mas sempre fica a visão dela de que "somos todos feitos de histórias. Estamos sendo criados agora, rasurados e corrigidos a cada instante, erros que têm de dar certo, queiramos ou não, porque não haverá segunda chance. Somos esboços definitivos." Parece que a literatura só consegue criar mais dúvidas, contudo, ainda citando Rafaela: "quem está livre de criar fantasias neste mundo sem respostas?"
"A descoberta de que sou eu a autora desta minha história deplorável, me deixou transtornada. Se pudesse reescrever o roteiro, quanta coisa mudaria, como teria sido mais realizada e feliz. E pensar que tudo por que passei poderia ter sido evitado! Sinto-me duplamente desgraçada, porque vítima de mim mesma, da minha incompetência em esboçar um enredo menos ordinário. Ainda dará tempo de mudar os próximos episódios? Será que sou capaz de transformar meu rascunho de vida em uma obra mais digna e decente? Mas mesmo que seja possível, mal sei por onde começar, pois a cada momento que me volto para o início de tudo, lá estou rabiscando os mesmos erros que cometerei adiante, desencadeando enganos e desilusões, dando forma ao caos que sou." Trecho de Depois do Ocaso (p. 178)
Sobre o autor: Cyro Leão nasceu em São Paulo, trabalha na área de comunicação, tem três filhos e é casado. Escreve em prosa e verso e lançou, há alguns anos, um livro de Poemas (Confusão). Desde então, concluiu este “Rafaela em Queda” e está finalizando um livro de Contos e mais um de Poemas, além de estar trabalhando um novo Romance. Tem como autores diletos Machado de Assis, Kafka, Dostoiévski e Rilke, entre tantos mais. 

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