Sandra Godinho - As Três Faces da Sombra

Literatura brasileira contemporânea
Sandra Godinho - As Três Faces da Sombra - Editora Fora da Caixa - 196 Páginas - Capa e Diagramação de Sara Vertuan - Lançamento: 2020.

As distopias que lidam com regimes políticos totalitários sempre ocuparam um lugar de destaque na literatura e os acontecimentos cruéis deste início de século XXI, norteados pelo fanatismo religioso, os interesses das grandes corporações, tragédias ambientais, atentados terroristas e, recentemente, o avanço de pandemias, parecem ter transformado os romances distópicos em ingênuos contos de fadas. Em seu mais recente lançamento, Sandra Godinho desenvolve um exercício distópico ao imaginar uma nova ditadura militar no Brasil em uma narrativa de ação que prende a atenção do leitor do início até o final do livro.

Salvador Ferreira Falcão, chamado de "General", título que ganhou em deferência à posição de destaque na política nacional, criou uma imagem de homem de bons princípios e de patriotismo e, devido à frustração de grande parte do eleitorado com os erros do antigo regime – principalmente o avanço da corrupção – e amparado pelo crescimento de um movimento ultraconservador de líderes de direita em todo o mundo, foi eleito democraticamente com base em um discurso em defesa da ética na política e da valorização da segurança pública. Pouco tempo depois de eleito ele se transforma em um ditador, líder de um governo que promove a tortura, execuções coletivas e perseguição às minorias.

Ana Morgado é o fio condutor de toda a narrativa, quando desperta no fundo de um poço escuro sem memória e rodeada por ossadas humanas, ela não tem a menor ideia de como chegou até aquele ponto, mas precisa sobreviver e vai fazer tudo o que for necessário para isso. O leitor acompanha as ações de Ana e suas primas, Santinha e Rosa, em um movimento de resistência chamado "Sombra". Cada uma tem uma personalidade muito diferente, enquanto Ana é impulsiva e corajosa, Rosa, que é casada com o General, é submissa e conformada, mas a situação está prestes a mudar quando Santinha é sequestrada por agentes do governo que precisam recuperar provas incriminadoras contra o General.
"Ela abre os olhos, mas nada vê. Está num buraco infestado de sombras, que se manifestam conforme o luar e o deslocamento das nuvens. Enquanto o vento varre o ar por cima da cabeça, invadindo as trilhas de seu cabelo num movimento que rompe o marasmo do tempo, sente os pés descalços e a umidade comendo-lhe as pernas. Escuta um farfalhar de folhas, um cricrilar, um pio. Da sua boca nada sai, a articulação não toma forma nesse lugar inexistente em sua mente. Nada há que faça sentido. Não quer acreditar que está nesse limbo escuro, então lhe nega a existência. Confusa, entregue ao nada, quanto mais pensa, mais constata de que é uma mulher desprovida de luz, que é uma mulher das profundezas, de vontades silenciadas." (p. 6)
A autora busca inspiração em fatos recentes do nosso noticiário político para a construção do seu personagem: "A cada pronunciamento arrebanhava descontentes e controvérsias, por isso foi tão contestado pela imprensa, que longe de o ofuscar, colocou-o em evidência. Em represália, o General acabou abrindo mão da grande mídia para explorar as redes sociais [...]". Vale lembrar que o que é sempre assustador, quando lidamos com distopias, é o caráter premonitório de alguns textos da literatura em autores clássicos como H. G. Wells, Aldous Huxley e Kafka (que perceberam muito cedo o que o futuro nos reservava). Espero que não seja o caso do romance de Sandra Godinho e que as inúmeras semelhanças apontadas com o nosso Brasil contemporâneo permaneçam apenas no campo da ficção.
"O maniqueísmo tornou-se a sagração de quem já não dialoga, carente mais de ideias que de palavras. A sociedade se partiu, agora é somente ruptura que põe todos à prova numa atmosfera sinistra que envolve as pessoas, tão inerente a esse regime que é bem capaz de bloquear preces, premonições e prantos. Estão entregues à própria sorte. Alguns diriam que estão entregues à bestialidade. O maniqueísmo é mordaça que engessa plataformas de todas as ordens, é como o rompante da manada. Não há o que fazer. Os dissidentes se recusam a se submeter às políticas que exortam o autoritarismo, a intolerância e o individualismo. Os conservadores as idolatram. E o povo permanece no meio desse cabo de guerra sem saber para qual lado pender. [...]" (p. 52)
Sobre a autora: Sandra Godinho, nascida a 27/07/1960 em São Paulo, é graduada e Mestre em Letras. Já participou de várias coletâneas de contos, sendo agraciada com alguns prêmios como o primeiro lugar no prêmio VIP de literatura de 2018 de A. R. Publisher Editora com o conto "Jogo de Damas" e o segundo lugar no Concurso Literário Internacional Palavradeiros 2018 com "O massacre". Publicou O Poder da Fé (2016), Olho a Olho com a Medusa (2017), Orelha Lavada, Infância Roubada, que foi o único livro de contos finalista na Maratona Literária (2018) do Carreira Literária, agraciado com Menção Honrosa no 60º Prêmio Literário Casa de Las Américas (2019) e semifinalista do Prêmio Guarulhos de Literatura (Escritor do ano 2019), O Verso do Reverso ganhou o Prêmio de Melhor Conto Regional da Cidade de Manaus 2019; Segredos e Mentiras (inédito) foi finalista no Prêmio Uirapuru 2019; Terra da Promissão foi publicado (2019) e As Três Faces da Sombra foi o romance ganhador do concurso da Editora Fora da Caixa (2019).

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