Carla Bessa - Urubus

Literatura brasileira contemporânea
Carla Bessa - Urubus - Editora Confraria do Vento - 104 Páginas - Projeto Gráfico: Pranayama Design - Lançamento: 2019.

Uma linguagem seca e direta confere caráter de urgência aos contos reunidos nesta mais recente antologia de Carla Bessa que apresenta um recurso técnico original ao fazer com que as narrativas se desenvolvam em um mesmo recorte de tempo e espaço, produzindo múltiplos pontos de vista para uma dada situação em função dos personagens envolvidos e suas próprias motivações. 

Esses personagens podem ainda estar buscando um resto de felicidade possível (ou impossível) em meio aos escombros em que se transformaram suas próprias vidas. De fato, para alguns só resta o papel de presa ou carniça em uma sociedade injusta, eles insistem em sobreviver em um meio adverso, cercados por predadores que, assim como os urubus, seguem planando em longos círculos sobre suas vítimas, aguardando.

No conto de abertura, que empresta o título ao livro, o menino Zezinho vive em um lixão com seu pai e logo aprende que "o ser humano no lixo falta pouco para ser lixo humano". É o caso do "homem-chorume, homem-lama, homem-lixo, homem-bicho" que o menino surpreende em seu exercício diário de sobrevivência, recolhendo os restos que não serviram para outras pessoas. Este conto foi um dos vencedores do prêmio Off Flip de Literatura 2019.
"Ao puxar o sapato vem junto uma perna esgarçada. Mas não é só de calça desmembrada do dono, não. Tem gente dentro, carne, osso. Tem sexo. Dá para ver direitinho que tem tudo isso ali dentro da perna daquela calça. É homem. É, ou foi. Será que está vivo ou morto? Mas antes de se ocupar disso a mãozinha ainda gordinha de criança apalpa, escarafuncha-se para dentro do bolso, quem sabe não tem dinheiro por aqui. Já teve várias vezes, tantos fundos de calça recheados ali no lixão." (p. 11) - Trecho do conto "Urubus"
Sempre com sensibilidade e um olhar humano, a autora apresenta outros personagens nos contos seguintes que, apesar de não habitarem em lixões, também sobrevivem a partir de restos. Por exemplo, Paloma precisa de coragem para abandonar o marido e tentar uma vida nova, ela reflete sobre o passado ao preparar a mala "aberta em cima da cama feito um bocejo". Toda a narrativa demonstra o impasse da protagonista em prosseguir na sua fuga, enquanto o final da trama, como se repete em todos os contos do livro, guarda uma surpresa para o leitor.
"Só o estritamente necessário, ele tinha dito, leva o indispensável. A mala aberta em cima da cama feito um bocejo. Lá fora chovia. Logo sai o sol, logo tudo melhora, amanhã vai ser outro dia, Paloma pensa. É verdade que tinha relutado. Uma decisão dessas a gente não toma assim de uma hora para outra, tentou argumentar no telefone, a ligação ruim. Mas ele respondeu, é agora ou nunca. Então, agora. Só era pena perder a novela, a viagem ia ser longa. Puxa uma caixa de sapatos de cima do armário, junto vem um bolo de fotos. Desabam sobre a sua cabeça: as últimas férias, as primeiras, um natal, a lua de mel. As etapas de uma vida assim embaralhadas, era mais real, era como sentia. No álbum, tudo posto em ordem, até parece que a vida vai para frente em linha reta, quando na verdade a gente anda em círculos, ela pondera." (p. 70) - Trecho do conto "Ele como qualquer outro (fuga imaginária que no fim nem houve)"
O ser humano pode se tornar urubu ou carniça dependendo das circunstâncias. É importante destacar a coragem de Carla Bessa em lidar com um tema tão difícil, mas que foi desenvolvido com originalidade e uma técnica apurada, como nos dois contos "Todas as cartas de amor" e "Sem verbo", ambos descrevendo uma mesma história de amor frustrado, sendo a segunda versão, como explicitado no título, construída sem nenhum verbo. Um exercício de escrita criativa no qual a autora conseguiu ótimo resultado.

No conto que encerra o livro, "Urubus II", personagens inusitados se revelam logo no primeiro parágrafo, como destacado no trecho abaixo, nos ensinando que "de cima a cidade não mente, ela não tem coração" e logo se revela a constatação óbvia: os homens é que se devoram uns aos outros, enquanto os abutres carregam a sina de fatídicos e mau-agourentos, "o ser humano é um bicho estranho mesmo". E alguém tem dúvidas sobre isso?
"Mas não abdicamos do deleite de planar em longos círculos, aproveitando as correntes de ar quente, o vento na cara pelancuda cinza, sem pressa, apesar da fome. A presa lá embaixo não mais se defenderá, pois é de sua natureza a devoção, já que é: carcaça. O dia passamos assim a pairar, à espera, tranquilos e confiantes na nossa sorte, sem medo de nada encontrar, pois o que não falta aqui é carniça, a cidade inteira um lixão. Lá embaixo, no entanto, na praia, à beira da água vislumbramos, mas o quê?, irreconhecível-inconcebível, nem gente nem bicho, nem fim nem começo." - (p. 101) - Trecho do conto "Urubus II"
Sobre a autora: Carla Bessa estudou teatro na UNIRIO e na Casa de Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Em seguida, emigrou para a Alemanha, onde trabalhou 15 anos como atriz e diretora. Hoje, vive em Berlim e é tradutora literária alemão-português do Brasil. Traduz autores renomados da literatura contemporânea alemã para as editoras WMF Martins Fontes e Estação Liberdade, ambas de São Paulo. Foi condecorada com bolsas de tradução e residências literárias na Europa. Estreou como escritora em 2017 com o livro de contos, Aí eu fiquei sem esse filho, pela editora Oito e meio, e tem vários contos publicados em antologias e revistas na web, além de escrever regularmente resenhas para o Jornal Rascunho.  

Comentários

Kelly Oliveira disse…
Olá Alexandre, gostei muito da resenha. Parabéns!
Alexandre Kovacs disse…
Obrigado pela visita e comentário Kelly!
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