Marcela Fassy - Abafada
A protagonista de Abafada, romance de estreia de Marcela Fassy, narra, em um fluxo de consciência atordoante, sua busca por uma saída. Essa fuga, entretanto, pode assumir a forma da desistência definitiva, como sugere a citação de Silvina Ocampo inserida no texto: "Às vezes, morrer é simplesmente ir embora de um lugar, abandonar todas as pessoas e os costumes que se ama. Por esse motivo, o exilado que não deseja morrer sofre, mas o exilado que busca a morte encontra o que antes não tinha conhecido: a ausência da dor em um mundo outro". De fato, a protagonista-narradora tenta o suicídio algumas vezes ao longo da vida, incapaz de continuar riscando a letra V nos checklists diários que a sociedade e a tradicional família mineira lhe impõem.
A personagem é atormentada pelo fantasma de outras mulheres que cederam à "tentativa de autoextermínio" como foi registrado no prontuário de sua primeira tentativa aos treze anos. Entre elas está a tia Celina, figura que habita suas lembranças desde a infância, quando a levava para tomar sorvete. Celina ingeriu comprimidos para dormir e depois abriu o gás, tornando-se uma presença constante na construção da identidade da protagonista. "Você tem o mesmo riso da Celina", dizia a mãe; já o pai a reduzia a um julgamento sumário: "A Celina sempre foi meio doida, né?". No decorrer da narrativa, outras escritoras famosas que também foram sufocadas ao longo da jornada são citadas como Virginia Woolf, Sylvia Plath e Ana Cristina Cesar.
"(se me permite aqui um parêntese, a minha cabeça é uma geringonça muito mal tratada, sinto vontade de arrancá-la pelo menos uma vez por dia, por enquanto vou conseguindo equilibrá-la em cima do meu pescoço mas sinto que a qualquer momento ela pode deslizar, cair no chão e se quebrar como uma jarra de cerâmica, dessas que as mulheres fazem nas pequenas cidades do Jequitinhonha, tão bonitas ( as jarras, não as mulheres, mas também as mulheres eventualmente, mas veja, já estou criando um parêntese dentro de outro parêntese, isso deve ser proibido em algum lugar ( sim, eu falava da minha cabeça deslizando de cima do meu pescoço como um bonito jarro de cerâmica, até que não é uma imagem feia, um jarro de cerâmica com uma cabeça desenhada ( não que minha cabeça seja particularmente bonita, pronto, outro parêntese, [...]" (p. 9)
A sensação de claustrofobia é reforçada pelo uso recorrente de parênteses, que funcionam como breves interrupções do fluxo narrativo, pequenos respiros em meio ao sufocamento emocional da protagonista. Uma de suas crises mais fortes é provocada pelo relacionamento com Leon, um homem casado que literalmente a sufoca: "Leon tem o hábito de me asfixiar, gosta de se deitar sobre mim com as mãos em volta de meu pescoço, eu penso que vou morrer sufocada e acho uma delícia (". Ajudada pela amiga Ivana, "uma garotinha de sessenta alguns anos", que também tem a "cabeça quebrada", ela consegue superar uma das tentativas de suicídio.
"Ivana é maconheiríssima, quando o marido a trocou pela secretária vinte anos mais nova a cabeça de Ivana quebrou e o médico que conserta cabeças receitou para ela uns antidepressivos fortes, Ivana não conseguia levantar da cama e ficava babando no travesseiro o dia todo, até que resolveu fazer um experimento científico e trocar os antidepressivos por maconha, o experimento funcionou até certo ponto, quer dizer, a cabeça dela continuou quebrada, mas a maconha ajudou a fazer com que ela conseguisse rir desse fato ( o riso aproxima, aproxima os caquinhos quebrados das cabeças das pessoas e ajuda a disfarçar, nem ficou tão feio assim ( o riso resulta de um estímulo no córtex motor desencadeado pelo sistema límbico, a resposta física do corpo sob a forma do riso faz com que a caixa torácica se contraia de maneira rápida, empurrando o ar e fazendo com que aumente a quantidade de oxigênio inalado, que se espalha pelas células cerebrais e por todo o organismo (" (p. 37)
Uma experiência de autoconhecimento em uma caverna irá permitir alívio, sem o consumo de antidepressivos e ansiolíticos, influência da indústria farmacêutica e de alguns profissionais da área de saúde que muitas vezes procuram combater apenas o efeito, mas não a causa dos colapsos psíquicos de seus pacientes. Um livro que surpreende tanto pela originalidade da construção narrativa quanto pela coragem de abordar temas sensíveis do universo feminino, fazendo com que aguardemos com interesse novos lançamentos de Marcela Fassy.
"Você anota, você rabisca, você escreve incessantemente no receituário, as vistas eternamente pregadas no papel azul, você prescreve os medicamentos adequados, você coloca o CID, você é um profissional sério, zeloso, de suas grandes responsabilidades, o grande salvador de mulheres solitárias à beira de um ataque de nervos, o grande herói, o grande Deus da medicina, Herr Doktor, pois sim, aquele que tudo sabe e tudo conhece, todo poderoso onisciente onipotente, por fim você pressiona o carimbo sobre a almofada embebida em tinta e imprime no canto inferior direito da folha azul o seu registro do CFM. Em seguida você alisa os bigodes amarelos, você sorri orgulhoso e satisfeito com a sensação de dever cumprido, enquanto a paciente sai pela porta você dá uma boa olhada na bunda dela, você pensa que é um desperdício uma bunda daquelas com depressão, ao final do expediente você faz uma parada para um uísque e olha a bunda da garçonete." (pp. 164-5)
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