Haruki Murakami - A cidade e suas muralhas incertas

Literatura japonesa contemporânea
Haruki Murakami - A cidade e suas muralhas incertas - Editora Alfaguara - 504 Páginas - Tradução de Jefferson José Teixeira - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Lançamento no Brasil: 2026.

Haruki Murakami é um dos autores favoritos da casa, e cada lançamento seu é aguardado com ansiedade. A cidade e suas muralhas incertas foi inspirado em um conto publicado pelo autor em 1980, em uma revista literária japonesa, no início da carreira. Na época, o autor administrava um bar de jazz em Tóquio. O próprio Murakami explica no posfácio que jamais se sentiu plenamente satisfeito com a versão original. Ao expandir esse conto décadas depois, reflete: "Como disse Jorge Luis Borges, o número de histórias que um escritor é capaz de contar com sinceridade durante a vida é limitado. Ou talvez seja melhor afirmar que apenas reescrevemos, de várias formas e por todos os meios possíveis, os temas desse número limitado de histórias. Ou seja, a verdade não está em uma quietude fixa, mas numa mudança constante. Mas será que não é isso que constitui a quintessência das narrativas? É o que penso."

De fato, muitos temas recorrentes na obra de Murakami são revisitados neste romance: o amor adolescente, as fronteiras entre o real e o fantástico, os impasses existenciais da nossa época e, é claro, sua conhecida fixação por gatos e música de qualidade. Na primeira parte do romance, escrita em uma rara narrativa em segunda pessoa, um protagonista sem nome, como ocorre com muitos personagens no livro, apaixona-se por uma colega do ensino médio após ambos vencerem um concurso de redação. Aos dezessete e dezesseis anos eles mantêm uma relação durante alguns meses e ela descreve os detalhes de uma enigmática cidade cercada por altas muralhas onde o seu eu verdadeiro viveria, trabalhando em uma biblioteca. Após alguns meses, a jovem desaparece misteriosamente, deixando o namorado inconsolável em uma busca incessante pela cidade na esperança de encontrá-la também.

"Mas o que, afinal, conversávamos ali, com as testas unidas? Não me lembro mais. Eram tantos assuntos que é impossível saber cada um deles. Desde que você começou a contar sobre a cidade especial cercada de altas muralhas, porém, esse assunto se tornou a parte principal de nossas conversas. / Os detalhes da cidade foram se definindo sobretudo porque você contava sobre as origens dela e respondia às minhas perguntas práticas a respeito dela. Essa cidade tinha sido originalmente criada por você. Mas acredito ter, de alguma maneira, dado minha modesta contribuição para torná-la visível e para que pudesse ser descrita em palavras. Você conta a história, e eu a anoto. Da mesma forma que os antigos filósofos e religiosos tinham atrás de si fiéis e escribas ou discípulos meticulosos que os seguiam. Cheguei a pegar um pequeno caderno apenas para registrar sua história, como faria um bom secretário ou um apóstolo fiel. Naquele verão, estávamos os dois totalmente concentrados nesse trabalho conjunto." (pp. 16-7)

Em uma narrativa paralela, muitos anos depois, o rapaz, agora um homem de meia-idade, finalmente chega à misteriosa cidade que imaginara com a garota. Para entrar, precisa abandonar sua sombra no portal vigiado por um guardião e submeter-se a uma lesão nos olhos para assumir o trabalho de leitor de sonhos em uma biblioteca sem livros, onde essas memórias são preservadas em estranhas esferas. Sua assistente é justamente a antiga namorada de dezesseis anos, que não envelheceu um único dia e não guarda qualquer lembrança de tê-lo conhecido. Nesse mundo fantástico cercado por muralhas móveis, uma torre com um relógio sem ponteiros recorda constantemente aos habitantes que o tempo não existe. Enquanto isso, unicórnios circulam livremente pelas ruas e todos precisam viver sem suas sombras, mais Murakami do que isso impossível não é mesmo?

"O longo e úmido inverno terminou, finalmente, e um rigoroso inverno chegou à cidade. Alguns animais já haviam perdido a vida. Na manhã da primeira nevasca forte, alguns deles estavam estirados sobre os cerca de cinco centímetros de neve acumulada no seu assentamento, os corpos dourados intensificando a brancura invernal. Os primeiros a morrer eram os mais velhos, os mais fracos e os mais jovens que, por algum motivo, tinham sido abandonados pelos pais. A estação os selecionava com rigor. Subi a torre de vigia da muralha e observei as carcaças dos animais. Era uma visão deprimente e, ao mesmo tempo, espantosa. O sol matinal brilhava débil por trás das nuvens, e abaixo delas o hálito branco expelido pelos animais vivos pairava no ar, como uma névoa matinal. Logo após o amanhecer, ao som do berrante, o guardião como de costume abriu o portal e conduziu os animais para dentro. No assentamento, depois de os animais vivos terem saído, algumas carcaças ficaram como calombos na terra. Fiquei contemplando a cena, hipnotizado, até meus olhos doerem devido à luz matinal." (p. 83)

A sombra do protagonista, aprisionada junto ao guardião da cidade, começa a definhar lentamente e convence seu "dono" a fugir levando-a consigo. No último instante, porém, ele muda de ideia e permite que ela parta sozinha. Na segunda parte do romance, o protagonista-narrador retorna ao mundo real e decide abandonar o emprego estável em uma editora para candidatar-se a uma vaga em uma biblioteca no interior do país. O responsável pela entrevista é Koyasu, um dos raros personagens nomeados por Murakami: um homem idoso e excêntrico, que usa boina e gosta de vestir saias. Após assumir a direção da biblioteca, o protagonista passa a levar uma rotina simples e repetitiva. A narrativa, contudo, ganha um novo impulso quando Koyasu, que continua a lhe oferecer frequentes conselhos administrativos, declara de forma repentina e desconcertante que é um fantasma: "Sim, não vivo mais neste mundo. Tenho tanta vida quanto um prego de ferro congelado."

"— Sim, fiquei pensando sobre a alma. Porém, por mais que reflita, ela é um mistério profundo. Mesmo depois de morrer e me tornar um fantasma, ou melhor, justamente por ter me tornado um fantasma, aí é que não compreendi nada. Muitas pessoas gostam de usar a palavra 'alma'. Porém, ninguém consegue definir e explicar de forma clara e inteligível o que ela é. Como essa palavra é usada com muita frequência em várias situações, todos acreditam se tratar de algo que exista inexoravelmente dentro de nossos corpos. Todavia, quando morremos, de fato, a alma fica invisível e intocável. Não é possível fazer nada com ela. A meu ver, só podemos confiar mesmo na consciência e na memória. / Abstive-me de expressar qualquer opinião pessoal sobre o assunto. Como contra-argumentar quando uma pessoa morta surge diante de seus olhos e declara: 'Não sei se existe alma?'" (pp. 232-3)

Ainda na segunda parte, um novo personagem surge para tornar a trama ainda mais enigmática: um adolescente que veste sempre um moletom com capuz estampado com a capa de "Yellow Submarine", dos Beatles. Incapaz de frequentar uma escola convencional, o rapaz possui memória fotográfica e passa os dias na biblioteca, dedicando-se a memorizar livros. Esse personagem desempenhará um papel decisivo na terceira e última parte, quando a cidade das muralhas incertas volta a ocupar o centro da história. Marcado pela melancolia e pela solidão, temas recorrentes na obra de Murakami, o romance acompanha a busca persistente do protagonista por seu amor perdido entre diferentes mundos. Uma obra recomendada, que revisita muitas das obsessões literárias do autor e que certamente encontrará forte acolhida entre seus leitores mais fiéis. Eu, decididamente, me incluo entre essa legião de seguidores.

Literatura japonesa contemporânea
Sobre o autor: Haruki Murakami nasceu em Kyoto, no Japão, em janeiro de 1949. É considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa. Sua obra foi traduzida para mais de quarenta idiomas e recebeu importantes prêmios, como o Yomiuri e o Franz Kafka. O escritor vive atualmente nas proximidades de Tóquio. Dele, a Alfaguara publicou os relatos “Do que eu falo quando falo de corrida” e “Romancista como vocação”, as coletâneas de contos “Primeira pessoa do singular”, "Homens sem mulheres", os romances “Caçando carneiros”, “Minha querida Sputnik”, “O incolor Tsukuro Tazaki”, “Crônica do Pássaro de Corda”, "Sul da fronteira, oeste do sol" e a trilogia “1Q84”, entre outros.

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