Haruki Murakami - A cidade e suas muralhas incertas
Haruki Murakami é um dos autores favoritos da casa, e cada lançamento seu é aguardado com ansiedade. A cidade e suas muralhas incertas foi inspirado em um conto publicado pelo autor em 1980, em uma revista literária japonesa, no início da carreira. Na época, o autor administrava um bar de jazz em Tóquio. O próprio Murakami explica no posfácio que jamais se sentiu plenamente satisfeito com a versão original. Ao expandir esse conto décadas depois, reflete: "Como disse Jorge Luis Borges, o número de histórias que um escritor é capaz de contar com sinceridade durante a vida é limitado. Ou talvez seja melhor afirmar que apenas reescrevemos, de várias formas e por todos os meios possíveis, os temas desse número limitado de histórias. Ou seja, a verdade não está em uma quietude fixa, mas numa mudança constante. Mas será que não é isso que constitui a quintessência das narrativas? É o que penso."
De fato, muitos temas recorrentes na obra de Murakami são revisitados neste romance: o amor adolescente, as fronteiras entre o real e o fantástico, os impasses existenciais da nossa época e, é claro, sua conhecida fixação por gatos e música de qualidade. Na primeira parte do romance, escrita em uma rara narrativa em segunda pessoa, um protagonista sem nome, como ocorre com muitos personagens no livro, apaixona-se por uma colega do ensino médio após ambos vencerem um concurso de redação. Aos dezessete e dezesseis anos eles mantêm uma relação durante alguns meses e ela descreve os detalhes de uma enigmática cidade cercada por altas muralhas onde o seu eu verdadeiro viveria, trabalhando em uma biblioteca. Após alguns meses, a jovem desaparece misteriosamente, deixando o namorado inconsolável em uma busca incessante pela cidade na esperança de encontrá-la também.
"Mas o que, afinal, conversávamos ali, com as testas unidas? Não me lembro mais. Eram tantos assuntos que é impossível saber cada um deles. Desde que você começou a contar sobre a cidade especial cercada de altas muralhas, porém, esse assunto se tornou a parte principal de nossas conversas. / Os detalhes da cidade foram se definindo sobretudo porque você contava sobre as origens dela e respondia às minhas perguntas práticas a respeito dela. Essa cidade tinha sido originalmente criada por você. Mas acredito ter, de alguma maneira, dado minha modesta contribuição para torná-la visível e para que pudesse ser descrita em palavras. Você conta a história, e eu a anoto. Da mesma forma que os antigos filósofos e religiosos tinham atrás de si fiéis e escribas ou discípulos meticulosos que os seguiam. Cheguei a pegar um pequeno caderno apenas para registrar sua história, como faria um bom secretário ou um apóstolo fiel. Naquele verão, estávamos os dois totalmente concentrados nesse trabalho conjunto." (pp. 16-7)
Em uma narrativa paralela, muitos anos depois, o rapaz, agora um homem de meia-idade, finalmente chega à misteriosa cidade que imaginara com a garota. Para entrar, precisa abandonar sua sombra no portal vigiado por um guardião e submeter-se a uma lesão nos olhos para assumir o trabalho de leitor de sonhos em uma biblioteca sem livros, onde essas memórias são preservadas em estranhas esferas. Sua assistente é justamente a antiga namorada de dezesseis anos, que não envelheceu um único dia e não guarda qualquer lembrança de tê-lo conhecido. Nesse mundo fantástico cercado por muralhas móveis, uma torre com um relógio sem ponteiros recorda constantemente aos habitantes que o tempo não existe. Enquanto isso, unicórnios circulam livremente pelas ruas e todos precisam viver sem suas sombras, mais Murakami do que isso impossível não é mesmo?
"O longo e úmido inverno terminou, finalmente, e um rigoroso inverno chegou à cidade. Alguns animais já haviam perdido a vida. Na manhã da primeira nevasca forte, alguns deles estavam estirados sobre os cerca de cinco centímetros de neve acumulada no seu assentamento, os corpos dourados intensificando a brancura invernal. Os primeiros a morrer eram os mais velhos, os mais fracos e os mais jovens que, por algum motivo, tinham sido abandonados pelos pais. A estação os selecionava com rigor. Subi a torre de vigia da muralha e observei as carcaças dos animais. Era uma visão deprimente e, ao mesmo tempo, espantosa. O sol matinal brilhava débil por trás das nuvens, e abaixo delas o hálito branco expelido pelos animais vivos pairava no ar, como uma névoa matinal. Logo após o amanhecer, ao som do berrante, o guardião como de costume abriu o portal e conduziu os animais para dentro. No assentamento, depois de os animais vivos terem saído, algumas carcaças ficaram como calombos na terra. Fiquei contemplando a cena, hipnotizado, até meus olhos doerem devido à luz matinal." (p. 83)
A sombra do protagonista, aprisionada junto ao guardião da cidade, começa a definhar lentamente e convence seu "dono" a fugir levando-a consigo. No último instante, porém, ele muda de ideia e permite que ela parta sozinha. Na segunda parte do romance, o protagonista-narrador retorna ao mundo real e decide abandonar o emprego estável em uma editora para candidatar-se a uma vaga em uma biblioteca no interior do país. O responsável pela entrevista é Koyasu, um dos raros personagens nomeados por Murakami: um homem idoso e excêntrico, que usa boina e gosta de vestir saias. Após assumir a direção da biblioteca, o protagonista passa a levar uma rotina simples e repetitiva. A narrativa, contudo, ganha um novo impulso quando Koyasu, que continua a lhe oferecer frequentes conselhos administrativos, declara de forma repentina e desconcertante que é um fantasma: "Sim, não vivo mais neste mundo. Tenho tanta vida quanto um prego de ferro congelado."
"— Sim, fiquei pensando sobre a alma. Porém, por mais que reflita, ela é um mistério profundo. Mesmo depois de morrer e me tornar um fantasma, ou melhor, justamente por ter me tornado um fantasma, aí é que não compreendi nada. Muitas pessoas gostam de usar a palavra 'alma'. Porém, ninguém consegue definir e explicar de forma clara e inteligível o que ela é. Como essa palavra é usada com muita frequência em várias situações, todos acreditam se tratar de algo que exista inexoravelmente dentro de nossos corpos. Todavia, quando morremos, de fato, a alma fica invisível e intocável. Não é possível fazer nada com ela. A meu ver, só podemos confiar mesmo na consciência e na memória. / Abstive-me de expressar qualquer opinião pessoal sobre o assunto. Como contra-argumentar quando uma pessoa morta surge diante de seus olhos e declara: 'Não sei se existe alma?'" (pp. 232-3)
Ainda na segunda parte, um novo personagem surge para tornar a trama ainda mais enigmática: um adolescente que veste sempre um moletom com capuz estampado com a capa de "Yellow Submarine", dos Beatles. Incapaz de frequentar uma escola convencional, o rapaz possui memória fotográfica e passa os dias na biblioteca, dedicando-se a memorizar livros. Esse personagem desempenhará um papel decisivo na terceira e última parte, quando a cidade das muralhas incertas volta a ocupar o centro da história. Marcado pela melancolia e pela solidão, temas recorrentes na obra de Murakami, o romance acompanha a busca persistente do protagonista por seu amor perdido entre diferentes mundos. Uma obra recomendada, que revisita muitas das obsessões literárias do autor e que certamente encontrará forte acolhida entre seus leitores mais fiéis. Eu, decididamente, me incluo entre essa legião de seguidores.
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