Haruki Murakami - Primeira pessoa do singular

Literatura japonesa contemporânea
Haruki Murakami - Primeira pessoa do singular - Editora Alfaguara - 168 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: My Tattoo, de Lee Heinen - Lançamento: 2023.

O mais recente lançamento de um dos autores prediletos da casa é uma coletânea de oito contos conduzidos por um protagonista-narrador inspirado pelo próprio Haruki Murakami e suas memórias, nem sempre verdadeiras é claro, assim como as incursões ao universo fantástico e paralelo em meio às suas obsessões com o o jazz, a música clássica, os Beatles, beisebol e a cultura pop ocidental de uma forma geral. Desta vez temos poucas referências aos gatos, presença constante em outras obras, mas em contrapartida ganhamos a participação de um macaco falante e suas reminiscências em A confissão do macaco de Shinagawa, um inusitado personagem que rouba os nomes das mulheres pelas quais se apaixona, provocando uma inconveniente perda de identidade em suas vítimas, mais Murakami do que isso é impossível.

A música, como não poderia deixar de ser, ocupa um papel central em algumas das narrativas como é o caso de Charlie Parker Plays Bossa Nova, inspirado em uma resenha supostamente escrita pelo próprio Murakami no início de sua carreira sobre um álbum fictício que continha preciosas gravações de Charlie "Bird" Parker juntamente com Tom Jobim, incluindo Corcovado, Chega de Saudade e outros sucessos da bossa nova. Já em With the Beatles, o famoso segundo álbum da banda está associado às lembranças de uma namorada do ensino médio e um dia em particular no qual o protagonista lê em voz alta um conto de Ryunosuke Akutagawa para o irmão dessa menina, enquanto a espera chegar na sua casa. Assim como outros contos de Murakami, o amor está sempre associado a um sentimento de inadaptação e melancolia.

"É óbvio que não existe nenhum álbum chamado 'Charlie Parker Plays Bossa Nova'. Charlie Parker faleceu no dia 12 de março de 1955, e foi só em 1962 que, graças às interpretações de artistas como Stan Getz, a bossa nova explodiu nos Estados Unidos. Mas... e se Bird ainda estivesse vivo na década de 1960? E se ele se interessasse pela bossa nova e resolvesse gravar algumas dessas canções? Foi pensando nesse cenário que escrevi essa crítica musical fictícia. [...] A primeira surpresa que o álbum nos traz é a maneira maravilhosa  como o piano minimalista e simples de Jobim se combina ao fraseado eloquente e extravagante de Bird. Simplesmente indescritível. Alguém poderia argumentar que a voz de Jobim (e aqui estou falando apenas da voz do seu instrumento, pois ele não canta neste LP) e a de Bird são diferentes demais, têm estilos opostos, vão em direções contrárias. Sem dúvida, são duas vozes completamente distintas. Chega a ser difícil encontrar pontos em comum entre elas. E, além disso, nenhum dos dois parece fazer qualquer esforço para modificar sua performance e acompanhar o parceiro. Mas é precisamente desse desencontro, da fresta que separa as duas vozes, que brota a força vital capaz de criar uma música de beleza incomparável." (pp. 40 e 43) - Trecho do conto Charlie Parker Plays Bossa Nova

A música clássica inspira o conto Carnaval, cujo título é uma referência a uma peça pouco conhecida de Schuman para piano, obsessão do protagonista e sua amiga, citada da maneira mais politicamente incorreta que se possa imaginar, sem qualquer eufemismo: "De todas as mulheres que conheci até hoje, ela foi a mais feia. Não, talvez nao seja justo pôr desta maneira. Certamente houve muitas outras de aparência pior. Mas, entre as mulheres com quem tive contato mais próximo, as que fincaram raízes razoáveis no solo da minha memória, acho que não seria errado falar que ela foi a mais feia." Na verdade, o autor deixa passar frequentemente algum tipo de misoginia, comum na sociedade patriarcal japonesa, seja pela falta de definição e complexidade psicológica de suas personagens ou até mesmo pelo comportamento simplista.

"Ela era linda. Pelo menos aos meus olhos, naquele momento, pareceu incrivelmente bela. Não era muito alta. Tinha o cabelo longo e bem preto, as pernas esguias, e cheirava  muito bem (quer dizer, talvez eu tenha inventado isso. Talvez ela não tivesse cheiro nenhum, mas foi o que me pareceu. Ao passar por ela, tive a impressão de sentir um perfume maravilhoso). Naquele momento, fui intensamente atraído por ela – por aquela menina linda cujo nome eu não sabia, com o LP 'With the Beatles' apertado contra o peito. / Meu coração disparou e não consegui respirar direito, os sons ficaram todos distantes, como se eu estivesse no fundo de uma piscina; eu só escutava bem ao longe o barulho de um guizo baixinho. Como se alguém estivesse tentando me transmitir uma mensagem crucial. Mas foi tudo muito rápido, coisa de dez ou quinze segundos. Um acontecimento súbito que, quando dei por mim, já havia terminado. E a mensagem preciosa que havia ali, como a essência de todos os sonhos, simplesmente desapareceu. Assim como costuma acontecer com a maioria das experiências preciosas da vida." (p. 54) - Trecho do conto With the Beatles

Os torcedores cariocas do Botafogo, assim como este resenhista que vos escreve, certamente se identificarão muito com o time de beisebol do coração de Murakami em Tóquio, os Yakult Swallows, uma equipe tradicional que desenvolveu ao longo do tempo uma relação conflituosa com a vitória, se podemos definir assim. Esse conto, assim como outros presentes no livro, mistura ficção e realidade pois tem como base um livro de poemas escritos pelo autor enquanto assistia aos jogos do Yakult Swallows, obra que nunca existiu, espécie de ode à filosofia de saber como perder bem: "O jogo desta noite vai começar. Temos que rezar para que nosso time ganhe. E ao mesmo tempo, discretamente, nos preparar para a derrota." 

"Em 1978, quando eles ganharam o primeiro campeonato, eu morava em Sendagaya, a apenas dez minutos de caminhada do estádio. então, sempre que podia, ia ver os jogos. Naquele ano, o vigésimo nono desde seu estabelecimento, o Yakult Swallows (a essa altura eles já tinham mudado de nome) venceu o campeonato da Liga Central pela primeira vez, e no impulso conquistou ainda a Nippon Series. Foi realmente um milagre. E foi nesse mesmo ano, em que eu também estava com vinte e nove, que escrevi pela primeira vez uma obra literária. 'Ouça a canção do vento' ganhou o Prêmio Gunzo para novos autores, e desde então passei a ser chamado de escritor. Nada mais do que uma coincidência, é claro, mas não pude deixar de sentir que esses fatos nos conectavam, eu e o time. / Mas isso tudo aconteceu muito mais tarde. Nos dez anos que antecederam esse momento, entre 1968 e 1977, assisti a uma quantidade exorbitante, quase astronômica (pelo menos me pareceu assim), de derrotas. Em outras palavras, fui aclimatando meu organismo a esse mundo de 'perdemos mais uma vez'. Como um mergulhador acostuma o corpo, lenta e cuidadosamente, à pressão da água. É, na vida a gente perde mais do que ganha. E a verdadeira sabedoria não está em saber como vencer seu oponente, mas em saber como perder bem." (pp. 93-4) - Trecho do conto Coletânea de poemas Yakult Swallows

Mesmo que os contos não tenham a regularidade de outros livros de Haruki Murakami, alguns deles compensam a leitura, principalmente para os já iniciados no estranho universo paralelo do autor. Um lugar no qual pode acontecer um encontro no alto de uma montanha num domingo mágico de fim de outono e um idoso pedir para imaginar um círculo que tem muitos centros diferentes, mas sem circunferência. Uma tarefa difícil sem dúvida, porém "existe alguma coisa neste mundo que valha a pena ter e que seja fácil de conseguir?", certamente que não.

Literatura japonesa contemporânea
Sobre o autor: Haruki Murakami nasceu em Kyoto, no Japão, em janeiro de 1949. É considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa. Sua obra foi traduzida para mais de quarenta idiomas e recebeu importantes prêmios, como o Yomiuri e o Franz Kafka. O escritor vive atualmente nas proximidades de Tóquio. Outros livros do autor resenhados no Mundo de K: 1Q84 (Livro 1, Livro 2, Livro 3), Caçando carneiros, Crônica do pássaro de corda, Homens sem mulheres, Minha querida Sputnik, O assassinato do comendador, O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação, Sono, Sul da fronteira, oeste do sol, The Elephant Vanishes.

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