Haruki Murakami - O assassinato do comendador - Vol. 1

Literatura japonesaHaruki Murakami - O assassinato do comendador - Vol. 1 - O surgimento da IDEA - Editora Alfaguara - 360 Páginas - Tradução: Rita Kohl - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Lançamento: 23/11/2018.

Os leitores de Haruki Murakami certamente não irão se decepcionar com este seu novo romance que volta a abordar temas recorrentes de obras anteriores, tais como a solidão e inadaptação dos personagens à rigidez de costumes da sociedade japonesa, mundos paralelos repletos de fantasia e mistério que se chocam com a realidade e a já tradicional habilidade do autor em mesclar, com muito bom gosto, diga-se de passagem, referências culturais (principalmente música e literatura) do ocidente e oriente, fazendo de seus livros, a cada novo lançamento, um fenômeno de vendas em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Murakami levou quatro anos para terminar este livro, depois de seu último romance, O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação. A estratégia de marketing da editora no Japão manteve o conteúdo em segredo absoluto até o lançamento oficial, que ocorreu em fevereiro de 2017, quando se conhecia apenas os títulos em japonês (“Kishidancho Goroshi”) e inglês (“Killing Commendatore”), tendo sido impressas 650.000 cópias de cada um dos dois volumes. Hoje, menos de dois anos depois, a obra já conta com traduções disponíveis publicadas em inglês, francês, alemão, espanhol e português, juntando-se a uma extensa bibliografia que já totaliza 14 romances traduzidos para mais de 50 idiomas.

O livro é narrado retrospectivamente em primeira pessoa por um pintor de 36 anos, cujo nome não é informado. Especializado em retratos por encomenda, ele leva uma vida simples e acomodada em Tóquio, quando é repentinamente abandonado pela esposa, Yuzu, sem maiores explicações, depois de um casamento de seis anos que julgava ser feliz. Desiludido com a separação, ele parte para uma viagem solitária de carro pelo norte do Japão. Depois de algum tempo, decide retornar e aceita a oferta de um amigo para morar na casa que havia sido de seu pai, um renomado pintor chamado Tomohiko Amada, internado em um asilo devido a complicações do mal de Alzheimer. A localização da casa é bastante peculiar, no alto de uma montanha, próxima à cidade de Odawara, região de Kanagawa, mas ele imagina que terá tempo e disposição de se dedicar a um tipo de pintura menos comercial neste ambiente isolado.
"De maio daquele ano até o começo do ano seguinte, morei no alto de uma montanha, nas imediações de um vale estreito. Durante o verão, chovia sem parar dentro do vale, mas fora quase sempre fazia sol. Esse fenômeno acontecia por conta do vento sudoeste que soprava do mar, trazendo as nuvens carregadas para dentro do vale. Quando essas nuvens subiam ao longo das encostas, faziam chover. Como a casa ficava bem na fronteira do vale, costumava bater sol na frente enquanto caía uma chuva pesada no jardim dos fundos. No começo, eu achava aquilo bem estranho, mas com o tempo me habituei, até que passei a achar que era muito natural." (Pág. 11)
Depois de alguns meses vivendo sozinho na casa e sem conseguir inspiração para o trabalho, o protagonista encontra uma antiga pintura de Tomohiko Amada escondida no interior de um sótão secreto, intitulada O assassinato do Comendador. Ele fica fascinado pelo quadro, não mencionado em nenhum dos catálogos anteriores do pintor que costumava trabalhar com pinturas a óleo no estilo ocidental em sua juventude mas, depois da Segunda Grande Guerra, havia passado a pintar apenas conforme a escola nihon-ga, utilizando técnica e materiais tradicionais japoneses com temas serenos, normalmente reproduções figurativas da natureza. Neste quadro, entretanto, dois homens, um jovem, outro velho, se enfrentavam com pesadas espadas antigas em um violento duelo no qual o jovem acaba de desferir um golpe mortal no peito do velho em uma cena realista e sangrenta.

Na tentativa de entender a razão do título do quadro, que é inconsistente com os trajes e o período histórico retratado no estilo nihon-ga, o protagonista supõe que a inspiração vem da ópera Don Giovanni de Mozart, na qual o personagem "Il commendatore" é assassinado pelo jovem Don Juan. Um mistério que pode ter relação com o período em que Tomohiko Amada viveu em Viena, de 1936 a 1939, presenciando a ascensão do nazismo na Europa e eventos históricos importantes como a anexação da Áustria pela Alemanha em 1938, conhecido como Anschluss. As referências históricas são utilizadas no contexto ficcional assim como em outro famoso romance de Murakami, Crônica do Pássaro de Corda.

Durante o impasse criativo do protagonista, surge uma proposta irrecusável em termos financeiros de um rico e estranho cliente, Wataru Menshiki, que faz a encomenda de um retrato. No decorrer da trama ficamos sabendo que este personagem terá um papel central no romance. Ele mora em uma mansão que pode ser avistada do outro lado do vale e coisas surpreendentes passam a ocorrer depois que o nosso ingênuo e solitário narrador, ainda apaixonado pela ex-esposa, aceita o trabalho. Segundo uma das raras entrevistas de Haruki Murakami, este romance é uma homenagem ao Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald, seria Wataru Menshki uma releitura de Gatsby? Bem, nada é tão simples nas citações e metáforas de Murakami.
"Voltei os olhos para a mansão branca, na montanha oposta, antes de olhar outra vez para Menshiki. Provavelmente era o homem que aparecia quase todas as noites no terraço daquela grandiosa casa. Analisando bem, dava para ver que sua compleição e seus movimentos batiam perfeitamente com aquela silhueta. Eu não saberia dizer quantos anos ele tinha. Pelo cabelo branco como a neve, poderia estar no final dos cinquenta ou no começo dos sessenta. Porém, a pele era firme e lustrosa, sem uma única ruga no rosto, e os olhos mantinham o brilho de alguém ainda na faixa dos trinta. Por isso, era difícil reunir todos esses elementos e calcular sua idade. Se me dissessem que ele tinha qualquer idade entre quarenta e cinco e sessenta anos, eu acreditaria." (Pág. 90)
Quando um estranho ruído, semelhante ao som de um sino ou guizo, passa a ser ouvido de forma intermitente durante as madrugadas, assim como outros eventos fantásticos na casa e suas imediações, é Wataru Menshiki quem alerta: "talvez existam momentos em que perdemos de vista a noção entre o que é real e o que não é. Às vezes parece que essa linha divisória está em movimento constante, como uma fronteira que muda a cada dia. Nessas horas, é preciso prestar muita atenção. Caso contrário, você pode não saber mais de que lado está." O nosso protagonista é arrastado contra a sua vontade por esta série de eventos e descobre que, como aconselha outro personagem, "Tem coisas que é melhor não saber."
"Deitado no escuro, me perguntei por que havia acordado àquela hora. Era uma noite qualquer. A lua, quase cheia, pairava no céu como um gigantesco e redondo espelho. Toda a paisagem estava esbranquiçada, como se tivesse recebido um banho de cal. Fora isso, não notei nada incomum. Sentei na cama e passei algum tempo escutando com atenção, até entender o que havia de estranho. 'Tudo estava quieto demais'. O silêncio era excessivamente profundo. Não se ouvia nem sequer um inseto, apesar de ser uma noite de outono. Ali, no meio das montanhas, os insetos começavam seu coro ensurdecedor assim que o sol se punha e continuavam o alarido noite adentro (aliás, fiquei surpreso com isso, pois antes de viver na natureza eu achava que eles só cantavam no começo da noite), fazendo tanto barulho que pareciam ter dominado o mundo. Porém, quando acordei naquela noite, não escutei nem um único inseto, o que era bem estranho. [...] De repente, ouvi um som desconhecido. Ou pelo menos tive essa impressão. Era algo muito tênue. Se os insetos estivessem cantando como de costume, com certeza eu não teria escutado. Prendi a respiração e agucei os ouvidos. Não era o som de nenhum inseto, nem da natureza, e sim algum tipo de instrumento ou objeto. Um som metálico, 'tlim-tlim'. Como um guizo." (Págs. 131-132)
Um dos temas preferidos de Murakami, o sentimento nostálgico do amor romântico, é utilizado novamente neste romance, apesar do sexo sem compromisso estar mais presente do que em outros livros do autor, com cenas explícitas das relações do protagonista com uma mulher casada que o faz esquecer da ex-esposa durante eventuais encontros na casa nas montanhas, tanto que o livro foi censurado recentemente em uma polêmica decisão das autoridades em Hong Kong por ser enquadrado na categoria "indecente" e permitida a venda nas livrarias locais apenas com uma tarja de "proibido para menores de 18 anos", um exagero na minha opinião.

Como sempre, a "trilha sonora" do livro é muito refinada, tanto em termos de música clássica, que apresenta seleções de óperas e quartetos de cordas (Mendelssohn, Mozart, Schubert), quanto na escolha de mestres do Jazz (Thelonious Monk e Modern Jazz Quartet, por exemplo). A arquitetura, arte e a pintura também, obviamente, são elementos centrais na trama, além de citações a obras de literatura de Franz Kafka e Lewis Carroll. Enfim, um autêntico Haruki Murakami recomendado para ler durante as férias de verão, que deverá agradar aos já iniciados na obra do autor assim como aos iniciantes.
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Postagens mais visitadas deste blog

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

As 20 melhores distopias da literatura

Real Gabinete Português de Leitura

As 20 obras mais importantes da literatura italiana

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa

Prêmio Sesc de Literatura abre inscrições para 2019