Olga Tokarczuk - Sobre os ossos dos mortos

Literatura polonesa contemporânea
Olga Tokarczuk - Sobre os ossos dos mortos - Editora Todavia - 256 Páginas - Tradução de Olga Baginska-Shinzato - Capa: Flávia Castanheira - Ilustração de capa: Talita Hoffmann - Lançamento: 2019.

A polonesa Olga Tokarczuk foi a vencedora do Man Booker International Prize versão 2018 com o romance Flights, lançado no Brasil em 2014 como Os Vagantes pela Editora Tinta Negra e, no mesmo ano (concedido em 2019), levou o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto da obra. Como era de se esperar nesses casos, a autora, pouco conhecida em nosso país na época, recebeu grande atenção da mídia e lançamentos em tradução direta do polonês, publicados pela Editora Todavia: Sobre os ossos dos mortos (2019), A alma perdida (2020), Correntes (2021), Escrever é muito perigoso: Ensaios e conferências (2023) e Um senhor notável (2023).

Sobre os ossos dos mortos é um inusitado romance policial ambientado em uma remota região da Polônia, fronteira com a República Tcheca, onde Janina Dusheiko, engenheira aposentada e professora de inglês, trabalha como caseira de algumas propriedades no inverno, quando os poucos moradores da localidade se mudam para a cidade. Ela tem obessão pela preparação de mapas astrológicos e a tradução de poemas de William Blake, além de proteger os animais ameaçados pelos caçadores ilegais. Na verdade, a sua postura extremada na defesa dos animais sivestres e da natureza faz com que seja considerada uma velha excêntrica no local.

"Era difícil conversar com Esquisito. Ele falava muito pouco, e se não podíamos trocar ideias, era preciso ficar em silêncio. É difícil conversar com certas pessoas, particularmente homens. Tenho uma teoria a respeito disso. A partir de certa idade, muitos homens desenvolvem autismo de testosterona, que se manifesta lentamente como uma deficiência de inteligência social e da habilidade de comunicação interpessoal que compromete a formulação de ideias. Um ser humano atacado por essa moléstia torna-se taciturno e parece imerso em seus pensamentos. Mostra-se mais interessado pelas diferentes ferramentas e maquinarias. Sente-se atraído pela Segunda Guerra Mundial e por biografias de pessoas famosas, geralmente de políticos e malfeitores. Sua capacidade de ler romances desaparece quase por completo, pois o autismo de testosterona interfere no seu entendimento psicológico dos personagens. Acho que Esquisito sofria dessa moléstia." (p. 28)

Uma série de assassinatos tem início quando um dos vizinhos de Janaína, chamado por ela de Pé Grande, membro do clube de caça local, aparece morto em condições estranhas. A narrativa é conduzida em primeira pessoa pela protagonista o que nos permite acompanhar de perto os seus conceitos: "Passou, então, pela minha cabeça a ideia de que a morte de Pé Grande poderia ser considerada, de alguma forma, algo bom, pois o libertou da bagunça que era a sua vida. E libertou outros seres vivos dele. Eis que, repentinamente, me dei conta dos benefícios da morte e de como ela era justa, à semelhança de um desinfetante ou de um aspirador. [...]"

"A escritora costumava vir em maio, num carro carregado até o teto de livros e comida exótica. Eu ajudava a descarregá-lo porque ela sofria com dores nas costas. Usava um colar cervical: parece ter sofrido um acidente no passado. Ou talvez tenha ficado mal da coluna de tanto escrever. Lembrava um sobrevivente de Pompeia – como se estivesse coberta de cinzas. Seu rosto era cinzento; até mesmo os lábios e os olhos eram cinza. Prendia os longos cabelos com um elástico e fazia um pequeno coque no topo da cabeça. Se eu a conhecesse um pouco menos, certamente leria seus livros. Mas, por conhecê-la tinha medo de os ler. Era possível que eu me achasse neles, descrita de uma forma que não conseguiria entender? Ou os lugares que amo seriam completamente diferentes do que são para mim? De alguma forma as pessoas como ela, que dominam a escrita, costumam ser perigosas. Logo, levantam suspeitas de falsidade – que não são elas mesmas, mas um olho que está sempre observando, e tranformando em frases tudo o que observa; assim retira da realidade a sua qualidade mais importante – sua inexpressividade." (p. 54)

De fato, a defesa intransigente da natureza pela protagonista e a sua teoria sobre a elucidação dos assasinatos que, segundo ela, seriam obra da vingança dos animais, fazem com que o próprio leitor considere a possibilidade de sua insanidade. Ela tem poucos amigos, um vizinho também idoso chamado por ela de Esquisito e dois amigos jovens (Dísio, um ex-aluno e Boas Novas, uma vendedora local). Olga Tokarczuk é uma autora que reflete na sua obra um extremo engajamento político que, neste livro, está expresso na defesa da causa ambiental e direitos dos animais, uma defesa que assume, algumas vezes, uma postura subversiva e radical.

"– Vejam só como funcionam esses púlpitos. É diabólico, precisamos chamar as coisas pelo nome. É um mal pérfido e sofisticado construir cochos, colocar lá maçãs frescas e trigo para atrair os animais e, depois que se acostumam e ficam mansos, atirar na cabeça deles de um esconderijo, de um 'púlpito' – comecei a falar em voz baixa, com o olhar fixo no chão. eu podia sentir que eles me olhavam inquietos enquanto se dedicavam a seus afazeres – Queria conhecer a escrita dos animais – continuei –, os sinais com os quais pudesse escrever avisos para eles: 'Não se aproximem deste lugar', 'Este alimento é letal', 'Fiquem longe dos púlpitos, de lá vocês não ouvirão ninguém pregar o Evangelho, tampouco virá uma boa palavra, não lhes prometerão salvação depois da morte, não se compadecerão de sua pobre alma, pois eles dizem que vocês não possuem alma. Não verão em vocês um próximo, não lhes abençoarão. O pior dos criminosos possui uma alma, mas não você bela corça, nem você, javali, nem sequer você, ganso selvagem, tampouco você, porco, ou você, cão'. O ato de matar se tornou impune. E por ser impune, ninguém o percebe mais. E já que ninguém percebe, não existe. [...]" (p. 102)

Literatura polonesa contemporânea
Sobre a autora: Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2018, Olga Tokarczuk é o nome mais conhecido da literatura polonesa contemporânea. Suas obras já ganharam as principais distinções de seu país e alguns dos mais importantes prêmios de tradução na língua inglesa (Man Booker Prize), além de edições na França, na Itália, na Espanha e na Alemanha. Nascida em 1962, e autora de roteiros e dezenas de livros, é uma voz dissonante da atual política repressiva dos países do Leste Europeu.

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