Haruki Murakami - Sul da fronteira, oeste do sol

Literatura japonesa contemporânea
Haruki Murakami - Sul da fronteira, oeste do sol - Editora Alfaguara - 176 Páginas - Tradução de Rita Kohl - Capa: Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: "Ancient Sea, Nautilus" de Mayumi Oda, 1986. Lançamento: 2021.

Lançado originalmente em 1992, Sul da fronteira, oeste do sol é um romance narrado em retrospectiva por Hajime, um protagonista que se aproxima da meia-idade com um casamento estável e duas filhas, tendo se tornado um bem-sucedido proprietário de dois bares de jazz em Tóquio. No entanto, depois de muitos anos, ao reencontrar e se apaixonar por Shimamoto, uma amiga de infância, enfrenta uma crise existencial e questiona a suposta felicidade de uma vida confortável e resolvida. Um enredo aparentemente simples, caso não estivésemos tratando de um livro de Haruki Murakami.

Na primeira parte, Hajime descreve o período da sua infância em uma cidade do interior durante o período de pós-guerra no Japão no qual era comum as famílias terem duas ou três crianças como parte do esforço de reconstrução do país. Como ele era filho único, sentia-se deslocado e incompleto e, aos doze anos, conheceu Shimamoto, transferida para a sua escola no meio do curso. O fato dela ser a única outra criança sem irmãos, além do próprio Hajime, provoca a aproximação entre ambos, assim como um defeito na perna esquerda que a fazia mancar, isolando-a dos outros alunos. Os dois passam a compartilhar momentos de intimidade, voltando juntos da escola, ouvindo música e gostando de gatos (temas recorrentes nos romances de Murakami).

"Certo dia, perto do Natal, eu e Shimamoto estávamos na sala da casa dela. Sentados no sofá, como sempre, ouvindo música. A mãe tinha saído para fazer alguma coisa e estávamos sozinhos em casa. Era uma tarde escura e nublada de inverno. Depois de ultrapassar, com esforço, a camada de nuvens pesadas e baixas, a luz do sol parecia ter sido reduzida a pó. Todas as coisas tinham uma aparência embotada e sem vida. O pôr do sol já se aproximava e o interior da sala estava escuro como se fosse noite. Acho que a luz não estava acesa. Só o brilho avermelhado do aquecedor a gás reluzia nas paredes. Nat King Cole cantava 'Pretend'. Não entendíamos nada da letra em inglês, é claro. As palavras soavam como um encantamento. Mas gostávamos daquela música e, de tanto escutá-la, conseguíamos imitar a pronúncia das primeiras frases: Pretend you're happy when you're blue / It isn't very hard to do..." (p. 14)

A fixação musical do autor está presente desde o título. South of the border é uma canção de 1939 que se refere ao México, gravada por Frank Sinatra. No romance é atribuída uma misteriosa gravação a Nat King Cole em um dos discos da família de Shimamoto mas, aparentemente, essa gravação não existe. Outra das inúmeras citações, entre obras clássicas e standards de jazz, é The Star-crossed lovers de Duke Ellington e Billy Strayhorn de 1957, expressão idiomática em inglês para um casal azarado, que nasceu sob uma estrela ruim. Uma música difícil e triste – vale a pena pesquisar no Google – que os músicos do bar principal de Hajime, Robin's Nest, sempre tocavam.

Na parte intermediária do romance, Hajime relata como se separou de Shimamoto durante o ensino médio quando mudou de escola e seguiu com a sua vida. Depois de muitos encontros e desencontros ele conhece Yukiko aos trinta anos e se casa com ela. O pai de Yukiko, presidente de uma grande empresa de construção, empresta dinheiro para Hajime, que até então tinha um trabalho simples em uma editora de livros didáticos, abrir o seu elegante bar de jazz. Em pouco tempo a vida muda completamente e, aos trinta e seis anos, ele já acumula uma pequena casa de campo em Hakone, um jeep Cherokee e dois bares que davam bastante lucro, além de inúmeros investimentos em ações e imóveis sob a orientação do sogro.

"Mas posso dizer que, no geral, levava uma vida feliz. Não tinha nada do que me queixar. Eu amava minha esposa. Yukiko era uma mulher tranquila e ponderada. Depois de ter filhos ela tinha engordado um pouco e por isso agora cuidava da dieta e se dedicava aos exercícios físicos. Mas eu continuava achando-a bonita. Gostava de estar junto dela e de dormir com ela. Algo em Yukiko me acalmava. E, o que quer que acontecesse, eu não queria voltar para aquela vida desolada e solitária dos meus vinte anos. 'Este é o meu lugar', eu pensava. 'Enquanto estiver aqui, sou amado e estou protegido. E, ao mesmo tempo, amo e protejo minha esposa e minhas filhas.' Era uma experiência totalmente inédita para mim, e o fato de eu ser capaz de cumprir aquele papel era uma descoberta inesperada." (p. 62)

Então, quando tudo parece estabilizado, na parte final, Shimamoto  reaparece em uma noite chuvosa no bar de Hajime e logo é restabelecida aquela antiga conexão que eles tinham entre si. Só que ela impõe a condição de não falar sobre a sua vida particular e, a partir deste momento, a narrativa entra em um clima sombrio, induzindo o leitor em uma espiral de mistério e realismo fantástico tão característica de Haruki Murakami com alguns temas normalmente não abordados em outras obras, tais como a crise existencial de meia-idade e o suicídio. Na verdade, o grande questionamento do livro é se Shimamoto é real ou um delírio de Hajime.

"Durante cerca de dois meses, até a chegada da primavera, encontrei Shimamoto praticamente toda semana. Ela aparecia nos meus bares de vez em quando. Às vezes no menor, mas geralmente no Robin's Nest. Vinha sempre depois das nove. Sentava ao balcão, tomava dois ou três coquetéis e ia embora por volta das onze. Enquanto ela estava lá, eu ficava sentado ao seu lado, conversando. Não sei o que os funcionários achavam da nossa relação, mas também não me importava com isso. Do mesmo jeito que, na escola, não me importava com o que os colegas pensavam de nós. [...] Eu não sabia praticamente nada sobre as circunstâncias em que Shimamoto se encontrava. Não sabia onde ela morava. Se vivia sozinha ou com alguém. Não sabia de onde vinha seu dinheiro. Se ela era casada ou se já fora algum dia. [...]" (pp. 118-9)

Talvez não seja o livro indicado para a iniciação em Haruki Murakami, mas, certamente os fãs do autor irão adorar mais este lançamento traduzido tão tardiamente no Brasil. 

Sobre o autor: Haruki Murakami nasceu em Kyoto, no Japão, em janeiro de 1949. É considerado um dos autores mais importantes da atual literatura japonesa. Sua obra foi traduzida para mais de quarenta idiomas e recebeu importantes prêmios, como o Yomiuri e o Franz Kafka. O escritor vive atualmente nas proximidades de Tóquio.

Outras resenhas sobre Haruki Murakami no Mundo de K: 1Q84 (Livro 1), 1Q84 (Livro 2), 1Q84 (Livro 3), Caçando carneiros, Crônica do pássaro de corda, Homens sem mulheres, Minha querida sputnik, O assassinato do comendador - Vol. 1, O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação, Sono, The elephant vanishes.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Sul da fronteira, oeste do sol 

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