Sonia Sant'Anna - Rondó

Literatura brasileira contemporânea
Sonia Sant'Anna - Rondó - Editora Penalux - 138 Páginas - Capa: Guilherme Peres
Imagem: Zdeněk Macháček (Unsplash) Lançamento: 2021.

Sonia Sant`Anna já tem o seu nome consagrado no gênero romance histórico, mas surpreende agora com este mais recente lançamento que reúne dezoito contos e uma novela de cunho memorialista. Na verdade, o livro confirma a vocação literária de uma família de escritores, tão bem representada pelos seus irmãos Sergio Sant`Anna (1941-2020) e Ivan Sant'Anna, além do sobrinho André, filho do saudoso Sergio. Contudo, se, por um lado, esta proximidade com profissionais da literatura foi certamente positiva como influência; por outro, imagino que tenha gerado alguma ansiedade para atender as expectativas, assim como eventuais comparações.

Seguramente Rondó mantém a tradição de qualidade da família Sant'Anna nas letras; desenvolvendo um estilo que reflete um cuidado artesanal com o texto e uma escolha criteriosa da linguagem, a autora apresenta um delicioso classicismo em termos de forma na construção de suas narrativas, porém, ao mesmo tempo, o conteúdo temático expressa alguns dos conflitos e impasses da nossa época, tão comuns à natureza humana. Sonia nos apresenta contos que têm personalidade própria e bem forte, diga-se de passagem, além de demonstrar coragem para escrever sobre um segredo de família na novela autobiográfica que encerra o livro.

Encontramos um bom exemplo do texto refinado e sensível de Sonia no conto A perda, que nos mostra como uma mulher manteve vivo o seu amor durante muitos anos apenas por meio das lembranças: "Era preciso lembrar, para isso havia existido todos esses anos. Para rememorar retirara-se do mundo. Sua missão era manter vivo o amor, assim saberia que não havia amado em vão. Assim se manteria fiel como ele não soubera ser." No entanto, o que fazer quando a memória insiste em nos abandonar e se transforma em uma "renda esgarçada, deixando vazios na trama". Uma linda reflexão para nos alertar sobre a terível perda gradativa das lembranças.

"No início fora fácil rememorar, reviver tudo o que acontecera desde a primeira vez em que o vira. Podia mesmo sentir o cheiro da sua pele. Se fechava os olhos, bastava-lhe imaginar a cabeça dele sobre seus joelhos e esboçar um gesto de carícia para sentir a maciez de seus cabelos. Como se ele ali estivesse. / Depois, lentamente, as lembranças foram se confundindo. O risco do bordado já não era tão nítido, a renda se esgarçava, fios escapavam aqui e ali, deixando vazios na trama. Já não sabia com certeza se haviam conversado pela primeira vez na praia ou naquela festa. Em troca, lembrava-se perfeitamente do dia em que, estando ele de pé junto ao bar, ela se chegara com uma ausência de timidez que não lhe era habitual, entrelaçara os dedos nos dele e dissera 'eu te gosto muito'. Ele disse 'eu sei'." - Trechos do conto A perda (pp. 64-5) 

Já em A partilha, a inspiração vem de um casal de mendigos que aparece um dia na praça, protagonistas tão comuns nos grandes centros urbanos e que, por isso mesmo, se tornam praticamente invisíveis aos olhos da população – mas não ao olhar atento da escritora –, este é o tema central de uma narrariva muito humana, afinal ainda persistem sinais da existência de um homem e uma mulher, escondidos em algum lugar por baixo dos trapos e da imundície, mesmo que todos saibamos o procedimento social nesses casos: "Aos mendigos não se pergunta sua origem, nem o que fez com que se tornassem mendigos".

"Ele, provavelmente, achou-a mais bela do que as outras mendigas. Ela, certamente, nele vislumbrou um protetor. A que horas se amavam? Nunca ninguém viu, nem os porteiros noturnos, nem os casais que voltavam tarde para casa nas noites de sábado. Diziam-se palavras ternas, ou simplesmente se acasalavam, em obediência à natureza que os fizera homem e mulher? Essas e outras questões perguntavam-se os moradores da praça, isto é, os moradores comuns, os que viviam em apartamentos com sala, quartos, televisão e ar-condicionado. / Havia mesmo  quem, em noites chuvosas, perdesse um ou dois minutos a pensar como estariam se arranjando os mendigos, se teriam encontrado alguma marquise para se abrigar." - Trechos do conto A partilha (pp. 82-3)

A novela Recordações de uma velha senhora é um exercício admirável de como compor as memórias de toda uma vida em poucas páginas, tendo como fio condutor uma certidão de óbito de uma criança do sexo masculino de oito meses de idade e filiação desconhecida, encontrada por acaso por uma menina de treze anos que mexia escondida nas coisas da mãe, "não havia ainda aprendido a virtude da discrição e do respeito aos segredos alheios". É fácil adivinhar que esta menina curiosa é a própria Sonia Sant'Anna. O trecho abaixo descreve uma experiência "sacrílega" da pequena Sonia, então com quatro para cinco anos, impagável!

"Trabalhava na casa de vovó, contratado para pequenos serviços, o Jesus, menino de uns dez anos de idade. Um dia Jesus me chamou atrás das bananeiras, disse-me para eu abaixar as calcinhas, abaixou as calças também e mandou que eu pegasse no pau dele. Eu sabia que aquilo era 'coisa feia' e morria de medo que descobrissem. Quando a noção de pecado foi posta na minha cabeça, lembrei-me desse episódio. Eu deveria contá-lo ao padre da próxima vez que me confessasse, mas faltava coragem. O catecismo ensinava que omitir um pecado durante a confissão era gravíssimo, um sacrilégio, que se tornava ainda mais grave se comungássemos nesse estado. E eu continuava confessando e comungando, sempre tencionando contar ao padre da próxima vez, mas a coragem não vinha nunca. Tão nova e já sacrílega, que tormento! Mas, pensei, eu tinha quatro para cinco anos quando tudo havia acontecido e nessa idade não se peca. No colégio Sion, 'mère' Afonsita nos contou a visão de que uma santa tivera do inferno, no qual as almas danadas caíam como neve, entre elas algumas de criancinhas de três anos de idade. Eu era mesmo sacrílega." - Trecho da novela Recordações de uma velha senhora (p. 96)

Para concluir a resenha procuro um adjetivo que sintetize o estilo desses contos e me ocorre chamá-los de machadianos. Logo me questiono se, por um acaso, não seria um exagero da minha parte, mas, apesar de um elogio considerável, é justo e merecido. Recomendo a leitura. 

Sobre a autora: Sonia Sant'Anna nasceu em Goiás, em 1938, e pertence a uma família de escritores. Iniciou na PUC, RJ, o curso de Letras, que concluiu em Belo Horizonte, MG. Viveu em diversas cidades no Brasil e no exterior, mas a maior parte de sua vida se passou no Rio de Janeiro. Vive atualmente em Belo Horizonte. Desde a infância desejava escrever, mas sua primeira profissão foi a de artesã joalheira, que aprendeu no atelier de Caio Mourão, o criador da joia moderna brasileira. Apreciadora de História, seus livros já publicados pertencem ao gênero romance histórico: Inconfidências Mineiras – uma história privada da Inconfidência (2004); Barões e Escravos do Café – uma história privada do Vale do Paraíba (2001); Leopoldina e Pedro I – a vida privada na corte (2004). Todos três pela Zahar. Memórias de um Bandeirante (2001), Editora Global. E Degredado em Santa Cruz (2009), pela Editora FTD. Leopoldina e Pedro I foi recentemente republicado pela Ibis Libris. Em Rondó, mudando totalmente de rumo, a autora oferece ao público dezoito contos e uma novela de cunho autobiográfico.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Rondó de Sonia Sant'Anna

Comentários

pausado tempo disse…
Maravilhosas leitura e resenha! Muito obrigada! O livro é mesmo "Machadiano" e sensacional.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Valéria, obrigado a você pela visita e comentário! Grande abraço

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