Veeraporn Nitiprapha - A minhoca cega no labirinto
A minhoca cega no labirinto é o premiado romance de estreia de Veeraporn Nitiprapha, autora que era até então inédita no Brasil. O volume marca também a primeira tradução direta para o português de um texto original em tailandês. A prosa lírica oferece uma rara experiência sensorial com descrições de cores, sons, aromas e sabores, criando uma atmosfera quase hipnótica para contar a história do triângulo amoroso entre Pran, um órfão agregado, e as irmãs Chalika e Chareeya, criadas em uma família disfuncional. Contudo, o argumento romântico é simples se comparado à estrutura do livro, em uma narrativa não linear no tempo e no espaço, com capítulos independentes e personagens secundários que se conectam aos poucos.
É possível definir o romance também como uma saga familiar na linha do realismo mágico de Gabriel García Márquez. Essa estética fica evidente logo no capítulo de abertura, que descreve o nascimento de Chareeya ocorrendo no exato instante em que a mãe descobre a infidelidade do pai com uma dançarina tradicional. O episódio marca o início de uma tragédia familiar que, mais tarde, deixará a protagonista sozinha no mundo ao lado da irmã, três anos mais velha, Chalika. As irmãs são criadas aos cuidados da ama Nuan, que se relacionou com três homens ao mesmo tempo durante toda a vida, consentido por eles, e do excêntrico tio Thanit, que chegou à casa às margens do rio, após a morte do pai e um dia antes de a mãe das meninas morrer.
"A mãe queimou todas as cartas antes do amanhecer, andando em círculos o redor da fogueira em chamas, cuspindo para dentro dela. Não chamou um único monge — nem um sequer — para recitar preces por sua alma. Mandou os criados cavarem uma cova, a mais funda que conseguissem, e enterrou o pai debaixo da árvore de pikul. 'Fique aqui para sempre! Nunca mais vai renascer em lugar nenhum!' / Todos os dias, do amanhecer ao anoitecer, durante um ano inteiro, desde aquele dia até o dia em que morreu, a mãe se sentava ali, sobre a cova do único homem que amou em toda a sua vida, na velha cadeira de vime, carcomida pelo desejo voraz que ele sempre teve por outras mulheres. Usava um lenço florido em tons de roxo, tingido de tristeza, amarrado na cabeça, onde os cabelos haviam sido arrancados e nunca mais voltaram a crescer. Ficava ali, naquele casulo de angústia, sob o aroma tênue, ao mesmo tempo doce e amargo, das flores de pikul, açoitada pelo vento incessante vindo do rio, guardando com desespero o fantasma do marido, tentando impedir que ele fugisse, para aquela mulher, ou para qualquer outra ou mesmo para a paz eterna." (pp. 23-4)
O jovem órfão Pran se junta à família após salvar Chareeya de um afogamento no rio. Entre idas e vindas, acompanhamos a vida dos três órfãos nos anos 1990 e o amor que Pran sempre sentiu por Chareeya, mas nunca conseguiu confessar. Os dois se reencontram após muitos anos no Bleeding Heart, um bar de rock em Bangcoc, onde Pran costumava tocar baixo com sua banda, ao som de "Pictures of You", do The Cure. Por sinal, a playlist do romance é fantástica, com uma abrangência que vai da música clássica ao rock — evocando uma época em que ainda existiam álbuns de vinil, CDs e livros físicos —, assim como as descrições culinárias exóticas, que vão além da tradicional cozinha tailandesa para destacar sabores internacionais.
"Ele não era como Chalika, que se declarava leitora voraz de romances desde os 10 anos, nem como Chareeya, que sabia — a cada novo dia — o que queria ser. Mesmo que num dia decidisse ser exploradora de cidades antigas no vale do rio Nakhon Chai Si e, no seguinte, uma monja de um culto aos gatos que ela mesma tinha inventado - já tendo esquecido o quanto dias antes estava convencida de que queria ser sapateadora, como tinha visto num filme estrangeiro. Pran, por sua vez, nunca soube o que queria ser. / Quando se deu conta, ele já usava o cabelo comprido, uma camiseta velha, uma calça jeans rasgada — e tocava baixo numa banda indie de quatro integrantes. Um pequeno grupo de fãs fiéis se revezava para vê-los tocar, noite após noite, num bar de rock chamado The Bleeding Heart. No fim, aquele sonho doce, quase instantâneo, da juventude deixou para ele pouco mais do que um cansaço profundo — às vezes quase insuportável. Era o cansaço de recitar os mesmos hinos do rock seguidas vezes. De ver, em silêncio, os corações se afundando na fumaça cinzenta e solitária dos cigarros — arrastados, mergulhando devagar até o fundo espesso e pegajoso do desejo. Confusos. Lentos. Calados. Como dois peixes betta nadando em círculos dentro de um frasco de cola, tentando se tocar sem nunca conseguir." (pp. 55-6)
Em contraste com o renovado realismo mágico apoiado pelo lirismo sensorial e o contexto romântico e melancólico dos protagonistas, a autora revela, por meio de outros personagens, uma Bangcoc que foi cenário de sucessivos golpes de Estado, turbulências políticas e traumas coletivos que ecoam através das gerações. Ao associar a delicadeza da prosa com a crônica de uma nação instável, a obra se consolida como uma excelente escolha da editora para a estreia de Veeraporn Nitiprapha em nosso país. Uma leitura recomendada que nos mostra a força da literatura contemporânea em outras culturas.
"Esquecer pode ser um trabalho árduo, mas no final todo mundo consegue. Não importa quão grandiosas, doces, amargas ou dolorosamente cortantes sejam as memórias. Ele já tinha ouvido sobre uma mulher que deixava um leitão mamar em seu peito para que ele esquecesse a mãe e não morresse de saudade. Já havia lido sobre pessoas que sofriam com rancor enraizado no coração, mas que no final morriam em paz, tomadas pela demência. Já havia ouvido histórias engraçadas sobre mulheres que gritavam durante o parto, enjoadas da dor, jurando que nunca mais se permitiriam engravidar - mas depois esqueciam tanto as palavras quanto o medo, tendo mais cinco ou seis filhos em seguida. / O esquecimento é um mecanismo impressionante. A humanidade já teria se extinguido há muito tempo se não tivesse essa sabedoria. Esquecer como somos patéticos e deploráveis, tendo de nascer neste mundo cruel completamente nus e desamparados, sem garras, presas ou força física. Nós já teríamos nos extinguido por inteiro se não tivéssemos sabedoria de esquecer como é difícil e doloroso estar vivo. Esquecer quem somos, o que já sentimos de alegria e tristeza, como vivemos. Esquecer que já tivemos coisas para lembrar." (p. 262)
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