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Milton Coutinho - No domínio de Suã

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Milton Coutinho - No domínio de Suã - Editora 7Letras - 324 Páginas - Ilustração de capa: Heitor dos Prazeres, Morro da Mangueir a [óleo sobre tela, 1965] - Lançamento: 2021. Milton Coutinho demonstra domínio da linguagem e segurança narrativa em seu mais recente lançamento ao  confundir os limites entre ficção e realidade em um exercício constante de  metaficção e intertextualidade  no melhor estilo de escritores como Italo Calvino e  Enrique Vila-Matas, sem contudo deixar de flertar com a técnica e ironia machadianas como, por exemplo, no clássico romance Memórias Póstumas de Brás Cubas . Trata-se, portanto,  de uma obra na qual as memórias literárias e artísticas do autor assumem um papel central no contexto narrativo. O tom irônico e provocativo  está presente logo no  título, uma referência ao primeiro volume –  No caminho de Swann  – de  Em busca do tempo perdido  de Marcel Proust, de caráter memorialístico, contrastando com a autobiografia do  personagem-narrador Marcel Celano à

Lucas Verzola - A última cabra

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Lucas Verzola - A última cabra - Editora Reformatório - 133 Páginas - Imagem de capa: Joel Sartore, Mountain goat - Design e editoração eletrônica: Negrito Produção Editorial - Lançamento: 2019. Nos dez contos de A última cabra , os protagonistas são confrontados em situações de aparente normalidade que testam os seus limites éticos, morais e psíquicos, seja nas relações artificiais do ambiente de trabalho, na intimidade do lar ou até mesmo na simples rotina de levar os filhos na barbearia, algo desagradável está sempre prestes a ocorrer com esses personagens sem esperança e envolvidos por um ambiente de violência e solidão, típico dos grandes centros urbanos. As epígrafes do livro são muito bem selecionadas e oferecem uma pista das referências que inspiraram a composição e seleção de cada um dos contos, gêneros que variam do realismo brutal (Roberto Bolaño, Raduan Nassar e Rubem Fonseca) até a literatura fantástica (Jorge Luis Borges e Murilo Rubião), resultando em estilo próprio que

João Paulo Parisio - Retrocausalidade

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João Paulo Parisio - Retrocausalidade - Cepe Editora - 428 Páginas - Projeto gráfico e capa de Luiz Arrais - Lançamento: 2020. Vencedor do 6º Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura (antigo Prêmio Pernambuco de Literatura), representando a Região Metropolitana do Recife, o romance de João Paulo Parisio consolida o nome do autor no cenário da nova literatura brasileira, um destaque merecido depois do seu elogiado livro de contos Homens e outros animais fabulosos de 2018. O conceito de retrocausalidade, associado à física quântica e à filosofia, inverte a causalidade, ou seja, considera que um efeito possa preceder a sua causa, fazendo com que passado, presente e futuro percam a sua relação de precedência, imaginem as inúmeras possibilidades deste conceito no campo da literatura. Na verdade, Retrocausalidade não se enquadra no formato tradicional de um romance e é composto, em suas mais de quatrocentas páginas, por uma variedade de gêneros: novelas, contos, fragmentos e ensaios, fazen

Mariana Basílio - Mácula

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Mariana Basílio - Mácula - Editora Patuá - 208 Páginas Capa, projeto gráfico e diagramação de Alessandro Romio - Lançamento: 2020. Mácula é o mais recente livro de poesia de Mariana Basílio, um corajoso projeto que demonstra lucidez e engajamento político ao registrar o maldito ano de 2020, "o ano que durou dez anos" – e as consequências da pandemia de COVID-19 em nosso cotidiano – a partir de 50 poemas que tiveram os seus títulos selecionados em uma pesquisa que consultou 266 participantes nas redes sociais, sobre qual seria a palavra da vida das pessoas naquele dia 9 de junho de 2020, quando imaginávamos estar passando pelo auge da transmissão do vírus, triste esperança como sabemos hoje. A obra pretende ser, portanto, uma representação da sociedade brasleira neste período histórico, refletindo sobre os dramas individuais e coletivos. A epígrafe de Carlos Drummond de Andrade, referência constante nos versos de Mariana Basílio, nos alerta para o protagonismo da dor nesta o

Jung Chang - Três irmãs

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Jung Chang - Três irmãs: As mulheres que definiram a China moderna - Editora Companhia das Letras - 392 Páginas - Tradução de Odorico Leal - Capa de Claudia Espínola de Carvalho - Lançamento: 2021. O mais recente lançamento da escritora chinesa, radicada em Londres, Jung Chang, autora de Cisnes selvagens , é uma biografia que mais parece um romance ao descrever em detalhes os bastidores das grandes reviravoltas políticas da China ao longo de todo o século XX, tais como: a queda da Monarquia da Dinastia Qing provocada pelo revolucionário Sun Yat-Sen em 1911, a ascensão do movimento nacionalista liderado por  Chiang Kai-Shek em 1928, a luta contra a invasão do Japão no período da Segunda Grande Guerra, o governo comunista e totalitário de Mao Tsé-tung que controlou o país de 1945 a 1976, chegando finalmente ao regime de transição para o sistema de economia de mercado com Deng Xiaoping nos anos noventa. Sempre atuantes em todas essas etapas da história chinesa e global estavam as três irm

Whisner Fraga - O que devíamos ter feito

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Whisner Fraga - O que devíamos ter feito - 164 Páginas - Editora Patuá - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020. O mais recente livro de Whisner Fraga marca o seu retorno às narrativas curtas – depois do romance O privilégio dos mortos  –  com uma antologia de contos que demonstra o amadurecimento de uma técnica refinada e original, tanto na forma quanto no conteúdo dos textos, construídos com base em uma prosa poética e  reflexões instigantes dos personagens ao serem confrontados com os impasses existenciais, morais e políticos da atualidade, fazendo pensar em nossas próprias escolhas ao longo da vida, principalmente se considerarmos o título como um questionamento, ainda que possa ser interpretado também como afirmação. Contudo, em ambos os casos, a sensação é de um amargo arrependimento. Whisner lança mão de  um procedimento já utilizado no seu romance anterior, espécie de falso diálogo entre o narrador-personagem e uma misteriosa e constant

Mário Baggio - Verás que tudo é mentira

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Mário Baggio - Verás que tudo é mentira - Editora Coralina - 206 Páginas - Diagramação, projeto gráfico e capa: Angel Cabeza - Lançamento: 2020. O paranaense Mário Baggio é um especialista na técnica da narrativa curta. Inspirado na melhor tradição de grandes autores da escola hispano-americana, como Horacio Quiroga, Julio Cortázar e, mais recentemente, Samanta Schweblin – para citar apenas três exemplos na linha do tempo – desenvolve um estilo muito próprio de literatura fantástica ao se rebelar contra o absurdo da realidade cotidiana, transformando-a em ficção. Nesta sua quarta antologia de contos, o autor reflete sobre a mentira e a nossa eterna e "irresistível atração pelo engano", afinal, citando o próprio Mário Baggio no texto de apresentação de seu site: "A literatura é uma mentira. O ato de escrever, a quem o pratica, permite ludibriar a realidade e criar regras próprias – burlando, fingindo, enganando, iludindo, mentindo! –, sem que ninguém peça ou dê explicaçõ

Silviano Santiago - Menino sem passado

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Silviano Santiago - Menino sem passado (1936-1948)  - Editora Companhia das Letras - 464 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Imagem de capa: Jean Cocteau © Adagp / Comité Cocteau, Paris [2020] - Lançamento: 22/01/2021. O mais recente lançamento de Silviano Santiago é o primeiro volume de sua autobiografia, cobrindo o período da infância em Formiga, Minas Gerais, de 1936 a 1948, intervalo coincidente com a Segunda Grande Guerra e a implantação do Estado Novo no Brasil, conhecido como ditadura Vargas.  No entanto, é bom que se diga, não encontraremos aqui um livro de memórias tradicional, mas sim uma combinação da prosa ensaísta e de ficção tão característica do estilo do autor, na qual a  memória não obedece uma cronologia básica, muito menos uma genealogia biológica.  As pessoas retratadas,  inclusive o próprio Silviano – chamado de "menino sonâmbulo" – não estão fixadas em seu próprio presente, ou seja, é obtida uma elasticidade ou liberdade narrativa, por meio de con

Sandra Abrano - Vestígios: mortes nem um pouco naturais

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Sandra Abrano - Vestígios: mortes nem um pouco naturais - Editora Bandeirola - 224 Páginas - Projeto gráfico, capa e diagramação de Thaís de Bruyn Ferraz - Lançamento: 2018. O romance de Sandra Abrano é um thriller político que tem como cenário a cidade de São Paulo no período de 1976 aos primeiros anos de 2000, utilizando na ficção alguns fatos marcantes da história recente brasileira, notadamente o submundo do serviço secreto durante os governos militares. Mário Aleixo de Alencar Teles é um protagonista nada confiável que participou como agente do Sistema de Informações e retorna depois de duas décadas ao bairro de Vila Maria onde estabelece uma empresa de segurança. Neste contexto, vários personagens irão se reencontrar para um acerto de contas dos excessos ocorridos durante a ditadura, tais como o desaparecimento de militantes políticos e o assassinato de agentes da repressão. O ponto de partida da trama é um fato real ocorrido em 1976, a queda da Casa da Lapa ou Chacina da Lapa em

Bruno Ribeiro - Como usar um pesadelo

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Bruno Ribeiro - Como usar um pesadelo - Editora Caos & Letras - 148 Páginas - Projeto Gráfico:  Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2020. Distopia é pouco para explicar o clima de surrealismo nonsense e a banalização da violência presentes nos contos (ou pesadelos) de Bruno Ribeiro. Com uma linguagem direta e diálogos precisos e velozes, que poderiam ser utilizados em roteiros cinematográficos, o autor coloca os seus personagens, normalmente com posturas politicamente incorretas, em situações de tensão e desespero; um estilo que poderia ser definido como uma mistura de  Quentin Tarantino e Chuck Palahniuk. Contudo, a verdade é que a inspiração para muitos desses textos poderia ter vindo de qualquer noticiário, considerando o clima de barbárie que assola o país ultimamente. O conto de abertura,  A arte de morrer ou Marta Díptero Braquícero , premiado no "Brasil em Prosa", organizado pelo jornal O Globo e Amazon, é uma ótima introdução ao estilo do