Nélio Silzantov - Em busca de Madalena Santos Reinbolt
Este livro não é uma biografia da pintora e bordadeira Madalena Santos Reinbolt (1919-1977), personalidade real, embora pouco conhecida do grande público, como ocorre com muitos artistas populares, frequentemente classificados como representantes da arte naïf ou da chamada arte primitiva, definições nem sempre lisonjeiras empregadas pela crítica especializada. Na verdade, trata-se de um romance inspirado em sua trajetória, no qual a narradora-protagonista relata sua própria história. Oriunda da zona rural de Vitória da Conquista, na Bahia, ela percorre um caminho que se estende dos anos 1960 aos dias atuais. Entre as dificuldades de criar sozinha três filhos, um deles com deficiência auditiva, a realização do sonho de ingressar na universidade já em idade madura e a pesquisa sobre a vida e a obra de Reinbolt, a protagonista acaba viajando sozinha para São Paulo, onde entra em contato com as pinturas e tapeçarias da artista em um museu.
A luta para escapar da invisibilidade constitui o principal elo entre a protagonista e a artista Madalena Santos Reinbolt. Antes de obter reconhecimento por sua obra, Reinbolt trabalhou como cozinheira na casa de Lota de Macedo Soares, que então vivia com a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop. Em uma de suas cartas, Bishop observou que os vasos pintados por Reinbolt lhe pareciam mais belos do que os de Portinari pertencentes a Lota. Apesar desse reconhecimento, ambas concluíram que a convivência com a artista representava um dilema entre “a arte e a paz”, optando pela tranquilidade doméstica. O episódio, reconstruído no romance, evidencia uma contradição que o leitor pode interpretar como pouco compatível com os ideais libertários frequentemente associados às duas intelectuais, mas tão comum em nossa sociedade.
"A lida na Casa de Farinha só começava quando as mulheres se assentavam ao redor da ruma de mandioca e, com golpes ágeis e precisos das suas facas, raspavam as raízes que seriam posteriormente lavadas para retirar qualquer vestígio de terra e deixá-las alvinhas. As mulheres também eram responsáveis pela subtração da goma, a fabricação de beijus e tapiocas. Em todos os processos, as conversas entre elas amenizavam o trabalho fastidioso e o arrastar das horas. A tritura das raízes ficava a cargo dos homens, e na falta de algum deles nos trabalhos considerados mais pesados, tia Basilda era quem assumia o posto. Atividade solitária e de extrema concentração para que não ocorresse nenhum acidente. O trabalho perfeito para ela, primogênita entre os filhos e filhas de vô Cosme e vó Mani, a mais forte e reservada das mulheres. Basilda assumiu desde cedo as responsabilidades de uma segunda mãe, sempre muito respeitada e, às vezes, até temida pelos irmãos mais novos. Sua experiência na casa de farinha a tornara essencial para o funcionamento das tarefas." (pp. 16-7)
O romance funciona também como uma forma de homenagem e de resgate cultural de artistas pouco conhecidos de Vitória da Conquista, terra natal de Nélio Silzantov, cujos nomes surgem ao longo da narrativa. Ao recuperar essas trajetórias frequentemente relegadas à margem dos circuitos culturais, o autor faz um chamado à reflexão sobre a necessidade de pertencimento e reconhecimento em um país marcado por profundas desigualdades regionais, onde a concentração de oportunidades limita a difusão da produção artística realizada longe do chamado "Sul Maravilha".
"Desde que ele chegou ao mundo, carreguei no peito a culpa silenciosa de não decifrar o que seus olhos gritavam. Eu era sua mãe, seu primeiro lar, e falhava diariamente em criar a ponte para a sua voz. Aos sete anos, quando finalmente o inscrevi na escola, vi meu filho engolido por um turbilhão de crianças que riam de seus gestos truncados, de sua voz que não ecoava como a delas. Com seus dedos apontados e risinhos cruéis chamavam-no de "mudinho", até nas calçadas do bairro, onde os adultos repetiam o insulto como se fosse seu verdadeiro nome. Vicente mordia os lábios até sangrar, esmurrava as paredes, arrancava os cabelos, os olhos marejados de uma raiva que eu, erroneamente, atribuía a um temperamento difícil - e, em vez de enxergarmos sua dor, todos, inclusive eu, dizíamos que ele era apenas uma criança 'nervosa' e 'malcriada'. E o mundo, com essa palavra fácil, nos permitia seguir em nossa ignorância." (pp. 95-6)
Um livro recomendado que mescla biografia e ficção de uma forma ainda pouco explorada na literatura contemporânea. Além do cuidadoso trabalho de pesquisa que sustenta a narrativa, o autor demonstra domínio de uma linguagem fortemente marcada pela expressão poética, capaz de conferir densidade e beleza ao texto, como neste trecho: "A casa de vó Egídia respirava silêncio após a lida na Casa de Farinha. A luz do candeeiro se propagava tímida e tremulante pela sala. Deitada no chão de barro batido, meus olhos vibravam ao ver contornos se formarem: cavaleiros sem rosto montando cavalos de crina flamejante, mulheres com jarros na cabeça e pés descalços pisando nuvens, santos de rosto severo abençoando plantações. O tear rangia feito a roda do tempo girando, e nas urdiduras que elas teciam, o sertão se fazia mito."
"Quando olho mais à esquerda, avisto duas obras de Madalena Santos Reinbolt, atravesso um breve corredor e me ponho cara a cara com dois dos seus quadros de lã. No primeiro deles, uma mulher negra se destaca no canto esquerdo superior da paisagem. Ela está em frente a um dos lagos característicos de Madalena, repleto de flores e animais num turbilhão de cores e formas, ocupando boa parte da região central. O cenário é bastante movimentado e denso, com cores extremamente intensas, contendo ainda onze figuras masculinas ao redor e logo abaixo uma manada de bois, vacas e um cavalo branco puxado por um dos personagens. Mas o que mais chama a atenção nesta cena é a única mulher em sua composição: uma negra imponente no canto superior esquerdo, ornada com dois colares enormes e um conjunto de faixas sobrepostas na cabeça com fios amarelo-ouro, misturado com azuis e marrons, que remetem ao turbante ou à coroa. Sim, ela mesma! A mulher que tantas vezes me visitou em meus sonhos. [...]" (pp. 242-3)
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