Nélio Silzantov - Br2466 ou a pátria que os pariu

Pieter Bruegel, o Velho
Nélio Silzantov - Br2466 ou a pátria que os pariu  - Edtitora Penalux - 112 Páginas - Capa: Pieter Bruegel, o Velho, "A luta entre o Carnaval e a Quaresma", 1555 - Lançamento: 2022.

A coletânea de contos de Nélio Silzantov apresenta múltiplas formas de distopia, desde a concepção clássica de um futuro distópico controlado por regimes políticos repressivos e totalitários até chegar à realidade do tempo presente em um país bem conhecido por todos nós. Não há duvida de que a distopia tem se tornado uma ameaça constante em nosso cotidiano, seja por meio do fanatismo religioso, violência gratuita ou pelos interesses das grandes corporações que provocam as tragédias ambientais, assim como a corrupção política generalizada que afeta as áreas mais sensíveis para a população: a saúde e a educação. 

Neste contexto, a ficção simplesmente reflete a realidade de uma forma até mesmo ingênua. A apresentação de Suzel Domini na contracapa resume bem o espírito do livro: "A literatura de Silzantov encarna o espírito do tempo com argúcia e precisão: estamos vivendo a barbárie, o presente histórico é mais assustador do que as estórias de terror mais bizarras que possamos conhecer porque é real, porque nos afeta, porque nos encaminha cada vez mais para o horror. [...]" Apesar de tudo, a arte e a cultura persistem como resistência ao avanço do obscurantismo e como atividades necessárias, entre muitas outras coisas, para a formação da cidadania.

"E já não há mais relato na poesia ou na prosa que sustente a beleza ou qualquer intenção artística, ainda que a arte persista e no centro da própria engrenagem, inventa contra a mola que resiste à necropolítica que nos assola. As vezes que ri foi por desespero, e embora o riso seja um ato de resistência, não espere de minha parte algo esperançoso, pois já vim natimorto neste mundo enfermo. Mas se for pra ter esperança e acaso ela seja a última que morre, só espero que antes ela leve tudo o que a vida não merece, inclusive essa outra parte que ainda resiste – antes que em outro opressor eu me torne." (p.21) - Trecho do conto Os Cavaleiros do Apocalipse – pp7:113

O livro é dividido em quatro partes. Na primeira, "O Estado é uma máquina de triturar homens", os contos têm inspiração em um Estado totalitário de extrema-direita que impõe absurdas Leis de controle aos cidadãos, em uma atmosfera que remete aos clássicos de Gerorge Orwell sobre as injustiças sociais e totalitarismo político, em uma versão tropicalizada, na qual "é preferível caminhar nu pelas ruas do que ofender o orgulho da nação verde-oliva".

Na segunda e terceira partes da coletânea: "Os homens são bestas que se devoram e louvam" e "O credo é a peste sedenta de morte", o autor lida com a mais assustadora das distopias, aquelas que se utilizam do fanatismo religioso para a perseguição das minorias e dos grupos vulneráveis, defendendo a censura aos meios de comunicação, a negação dos direitos feministas e tantas outras restrições às liberdades individuais. Enfim, toda a crueldade que uma sociedade é capaz de exercer em nome da fé: "se a sua mão direita o fizer pecar, corte-a e lance-a fora. É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir todo ele para o inferno".

"Quando o pequeno Belchior aprendeu a falar e a escrever suas primeiras palavra, o prazer e a tranquilidade daqueles dias memoráveis em família ficaram no passado, restando apenas as incertezas e o medo do que o futuro reservava. Enquanto seus demônios, dragões, serpentes, anjos, carrascos e sacerdotes em batalhas apocalípticas nos primeiros contatos com o papel e a caneta pareciam ingênuos, os pais até achavam graça do modo como o filho representava a carnificina com certo humor e leveza, a exemplo de alguns afrescos medievais liberados pelo Index Prohibitorum. Mas quando Belchior passou a escrever versos análogos aos abomináveis textos poéticos e um tanto quanto sensíveis às execuções no parque, foi como se uma sarça ardente surgisse no meio da sala e a voz de Deus ecoasse do meio dela exortando: 'A sua casa é caminho do inferno que desce para as câmaras da morte'." (pp 74-5) - Trecho do conto No que foi que nos metemos?

Já na última parte, "Com quantos caracteres se constitui um caráter", as narrativas nos levam a concluir que a distopia não é uma ameaça de um futuro distante, mas que pode já estar se estabelecendo bem próxima a nós na forma de perpetuação da desigualdade social, porque mesmo quando há crescimento econômico, percebemos uma ampliação da desigualdade e é tanto maior o aumento da pobreza quanto a concentração da riqueza.

"Os patriotas estão nas ruas, saudosos das prisões alheias, torturas e desaparecimentos. Não se importam com a venda do país, desde que não sobre nada aos verdadeiros donos desta terra e os patriotas saiam lucrando, como sempre. Os patriotas não se importam com a extrema miséria do povo ou se ele morre de fome, desde que todo aquele que quiser, possa ter em mãos o seu próprio fuzil. A falta de emprego, saúde, educação e renda não lhes diz nada, contanto que as exportações quebrem recordes e seus lucros continuem exorbitantes. Os patriotas se dizem os únicos que verdadeiramente amam a nação, mas o que eles mais odeiam são os miseráveis que povoam por toda parte. Gente desprezível, marginais por natureza, o câncer a ser extirpado a todo custo e o quanto antes. [...]" (p. 109) - Trecho do conto Isso é apenas o começo

Pieter Bruegel, o Velho


Sobre o autor: Nélio Silzantov é natural de Vitória da Conquista, Bahia. Professor de filosofia, escritor e crítico literário. Adora umbuzada, andu e festa junina. Voltar para o Nordeste está no topo de suas metas, embora seja mais provável que outros objetivos furem a fila, como ajudar o seu dog, Chico, a lidar com a entomofobia. Em 2020 estreou no Romance com a obra Desumanizados (Editora Penalux).

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Br2466 ou a pátria que os pariu de Nélio Silzantov

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