Jozias Benedicto - Doze noites e seus trabalhos

Literatura brasileira contemporânea
Jozias Benedicto - Doze noites e seus trabalhos: (sexo, fetiches, parafilias & talvez amor verdadeiro) - Editora Urutau / Hecatombe / Coleção Jiripoca Erótica - 140 Páginas - Projeto gráfico e capa: Wladimir Vaz - Lançamento: 2022.

O romance de Jozias Benedicto tem inspiração na obra do Marquês de Sade (1740-1814), particularmente Os 120 dias de Sodoma, levando ao limite as demandas do prazer sensual de toda ordem e o que for necessário para a sua satisfação. Como é comum neste tipo de abordagem literária, sempre haverá espaço para o debate sobre a fronteira entre erotismo e pornografia, aquilo que pode ser considerado como arte ou descartado como produto de consumo. É curioso como esta discussão ainda hoje continua despertando reações polêmicas.

O livro é situado em 2020 e descreve a relação de um casal com um garoto de programa, contratado para encenar, em doze noites, os doze trabalhos de Hércules em versões transgressoras transmitidas on-line na dark web. Neste clima, as fantasias sexuais são acompanhadas por sonetos, paródias de poemas clássicos de: Olavo Bilac, Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa, Antônio Gonçalves Dias, Manuel Bandeira Francisca Júlia da Silva, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Augusto dos Anjos e do próprio Marquês de Sade.

"Assim conheci o casal. O homem gostou de meu perfil, de meu nome, não acreditou quando eu disse que Hércules era meu nome verdadeiro. Saímos, bebemos, cheiramos pó, me bateu me queimou, pôs presilhas em meus mamilos, gozou dentro de mim e quis que eu batesse na cara dele ao esporrar em sua boca. Na saída, a proposta: 'eu, você e minha mulher.' Topei. Os três, eu me submetendo aos desejos deles. E eles aos meus. Insaciável, insaciáveis. A mulher sai do banheiro. É bonita, se mantém jovem com muita malhação, botox, colágeno, ácido hialurônico e sexo furioso com o marido e com muitos outros. [...]" (p. 13)

O autor apresenta descrições detalhadas de atos de crueldade sexual e outras parafilias, principalmente no limite entre sexo e morte e, devo confessar, tive alguma preocupação ao selecionar os trechos em destaque para evitar a censura dos radicais algoritmos caçadores de perversões das nossas redes sociais contemporâneas, parecendo ter herdado, de certa forma,  a hipocrisia da sociedade francesa dos séculos XVIII e XIX que condenou o Marquês de Sade a ser encarcerado em várias prisões e um asilo de loucos por cerca de 32 anos de sua vida. 

"A mulher abre a bolsa de grife, me entrega um embrulho em papel de presente. Antes que eu consiga agradecer, 'mas não é nem meu aniversário', ordena: 'Abre. É um presente e uma proposta". Obedeço. Um livro antigo, capa dura verde-musgo, letras prateadas: Os Doze Trabalhos de Hércules. E explica: 'Você se muda para nossa casa durante uns dias. Doze dias, na verdade serão doze noites, cada trabalho em uma noite. A proposta é fazermos juntos esses trabalhos. Você, nosso escravo. Quer um tempo para pensar?". Não preciso de tempo. Me ajoelho. Eles sabem que agora sou escravo deles. [.. ]" (p. 14)

Na verdade, a pornografia gerada pelo capitalismo se transformou hoje em uma grande cultura de massas como descrito pelo filósofo Paul B. Preciado em Pornotopia: "Este capitalismo quente difere radicalmente do capitalismo puritano do século XIX que Foucault havia caracterizado como disciplinador: as premisssas de penalização de toda atividade sexual que não tenha fins reprodutivos e da masturbação viram-se substituídas pela obtenção de capital através da regulação da reprodução e da incitação à masturbação multimídia em escala global."

Um livro perturbador e corajoso sem dúvida, desafiador no seu conceito de releitura da obra de Sade em um contexto moderno, na era da internet, demonstrando como a perversão polimorfa, ou seja, a capacidade de obter gratificação sexual fora dos comportamentos socialmente normativos, como estudado por Freud, continua sendo um tabu. Ao lidar com transgressões e ilusões, horror e humor, Jozias Benedicto nos desnuda um comportamento delirante, sombrio e obsessivo que preferimos esconder, contudo é parte inseparável da natureza humana.

"Prefiro chamar o meu de 'plug anal' – a denominação mais contemporânea, neutra e eficiente como seu design –, que lembra uma chupeta, só que brilhante, em alumínio, como uma pequena espaçonave. Encaixa-se prefeitamente dentro de mim. Contrair os glúteos com ele me provoca ondas de um prazer portátil e discreto, um objeto de prazer que se incorpora ao meu corpo como um órgão transplantado, um pedaço de mim que me foi roubado no desmame e que hoje recupero em três vezes sem juros em qualquer cartão de crédito." (p. 16) 

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Escritor e artista visual, Doze noites e seus trabalhos é seu primeiro romance, parte de um projeto sobre sexualidades transgressoras nas décadas 1950 a 2020. Autor de Erotiscências & Embustes e A ópera náufraga (Urutau), Estranhas criaturas noturnas (finalista do Prêmio SESC de Literatura), Como não aprender a nadar (Prêmio Literatura Minas Gerais e Prêmio Moacyr Scliar), Um livro quase vermelho (Prêmio Fundação Cultural do Pará) e Aqui até o céu escreve ficção (Prêmio Fundação Cultural do Maranhão).

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