Herta Müller - Nobel 2009

Literatura alemã
Mais um Nobel de Literatura vai para a Europa, desta vez a escritora Herta Müller, alemã nascida na Romênia, tornou-se a décima pessoa de cidadania alemã a receber a premiação. Ela não figurava entre os autores considerados favoritos para o Nobel deste ano. De acordo com a academia: "a densidade da poesia e a franqueza da prosa de Müller ilustram o panorama dos despossuídos"O único livro dela traduzido para o português e publicado no Brasil é "O Compromisso",  lançado originalmente em 1997.

Nascida a 17 de Agosto de 1953, na aldeia de língua alemã de Nitzkydorf, na Romênia, emigrou em 1987 para a Alemanha com o seu marido, o escritor Richard Wagner, porque era censurada a publicação dos seus textos onde criticava abertamente o regime comunista.

Hoje no Caderno Prosa e Verso do Globo, foi publicado o conto "Os varredores de rua" (que mais me parece um poema) de "Depressões", primeiro livro de Herta Müller que destaquei abaixo. A tradução, inédita, é da crítica Ingrid Ani Assman de Freitas.

Os varredores de rua

A cidade está impregnada de vazio. Um carro atropela meus olhos com suas luzes.

O condutor foge, pois não podem me ver na escuridão.

Os varredores de rua têm trabalho.

Eles varrem as lâmpadas, varrem as ruas para fora da cidade, varrem o morar das casas, varrem-me os pensamentos da cabeça, varrem-me de uma perna para outra, varrem-me os passos do andar.

Os varredores de rua enviam-me suas vassouras, suas magras e saltitantes vassouras. Os sapatos batem fora do meu corpo.

Caminho atrás de mim, caio fora de mim sobre a margem de minhas imaginações.

O parque late ao meu lado. As corujas comem os beijos que ficaram sobre os bancos. As corujas não dão por minha presença. Os cansados e estafados sonhos acocoram-se nos arbustos.

As vassouras varrem-me as costas porque me apoio muito na noite.

Os varredores de rua varrem as estrelas formando uma pilha, varrem-nas sobre suas pás e as esvaziam no canal.

Um varredor de rua chama um outro varredor, este um outro e este novamente um outro.

Agora todos os varredores falam e misturam todas as ruas. Caminho através de seus gritos, através da espuma de seus chamados e quebro e caio na profundidade das significações.

Dou passos grandes. Arranco minhas pernas com o andar.

O caminho foi varrido para longe.

As vassouras caem sobre mim.

Tudo dá voltas sobre si.

A cidade erra sobre o campo, para algum lugar.

Comentários

Victor Nogueira disse…
Viva :-)
Publiquei este seu post no meu blog D'Ali e D'Aqui - http://daliedaqui.blogspot.com/2009/10/literatura-herta-muller-nobel-2009.html -Se não concordar, retirá-lo-ei
Abraço
Victor Nogueira
Kovacs disse…
Victor, sem nenhum problema, fiquei até bastante satisfeito! Obrigado pela citação.
jugioli disse…
K: com esta primorosa resenha fiquei interessada em ler.

bjs.
Kovacs disse…
jugioli, obrigado pelo comentário gentil e eu também desejo conhecer melhor o trabalho desta escritora.
Wania disse…
Oi, Kovacs...

Bom te ver de volta na Blogosfera, sei que o motivo do afastamento foi extremamente relevante, e espero que tenhas tido momentos de muita paz e divertimento entre os teus afetos.

Pela provinha que tive aqui, acho que foi mais que merecido o prêmio!
Adoro este tipo de escrita, cheia de figuras de linguagem!

Fiquei com "gostinho de quero mais"...

Obrigada pela partilha,
Bjs e bom retorno!!
Kovacs disse…
Wania, as férias foram ótimas e agradeço a lembrança. Não conheço muito esta autora, mas também fiquei curioso com a amostra!
Maria Augusta disse…
Lendo este trecho do poema da Herta Muller que você nos trouxe, entendemos porque ela ganhou o Nobel. Genial!
Abraços.
Kovacs disse…
Maria Augusta, fascinante este trecho sem dúvida. Desperta a nossa curiosidade quanto a esta autora.
Barros disse…
Pode ser implicância minha, e vou me repetir em relação ao ano passado: premio Nobel está cada vez mais europeizado e político.
Pode ser que Herta Müller tenha grande valor, mas daí a ganhar um premio que é considerado o mais importante da literatura mundial,...
Kovacs disse…
Barros, tenho que concordar que este eurocentrismo do Nobel é mesmo irritante. Não dá para entender como Phiplip Roth ainda não tenha recebido a premiação.
Lígia Guedes disse…
Kovacs,

Como não havia visto este MARAVILHOSO texto aqui neste espaço???

Fiquei até inspirada para fazer um texto sobre um varredor de rua... lógico que não tão poético como este!

Boa semana!
Kovacs disse…
Lígia, fico aguardando, portanto, lá no "Nós Todos Lemos", certo que gostarei do seu texto. Obrigado pela visita e comentário.
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