O Movimento Surrealista na Literatura

Editorial PresençaO Movimento Surrealista - Franco Fortini - Editorial Presença (Portugal) - 230 páginas - Coleção Biblioteca Universal Presença (tradução do original italiano de Antônio Ramos Rosa) - Publicação 1980.

Um livro raro (nos dois sentidos), no qual o autor apresenta algumas características importantes do Surrealismo, movimento que, segundo Sartre, "destrói criando". A intenção de exprimir o inconsciente do homem que se revela no sonho, nas associações de idéias, nas liberdades de linguagem e em particulares condições psíquicas, quer naturais quer induzidas artificialmente. A paixão negativa , de destruição e de recusa de toda a legislação, de todos os tabus sociais, patrióticos ou religiosos, e, especialmente, os preceitos sexuais, pedagógicos e hierárquicos, exigindo-se e proclamando-se a virtude do escândalo, da revolta e do sacrilégio.

A fase inicial do movimento compreendida entre 1919 e 1925, na França, contou com os seguintes autores principais: Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard, Benjamin Pet e Philippe Soupalt. Em 1924, Breton publicou o primeiro Manifesto do Surrealismo, talvez ele tenha sido o maior teórico do movimento que definiu como "um automatismo psíquico puro mediante o qual se nos propõe exprimir quer verbalmente quer por escrito o funcionamento real do pensamento. Ditado pelo pensamento, fora de todo o controle exercido pela razão, fora de toda a preocupação estética ou moral...".

Difícil escolher um exemplo para um espaço tão limitado, fico mesmo com o meu preferido Paul Éluard (1895-1952) que, na verdade, extrapola os limites e exageros do movimento como todo artista verdadeiramente original deve fazer.

LE MIROIR D’UN MOMENT
(Paul Éluard)

Il dissipe le jour,
Il montre aux hommes les images déliées de l’apparence,
Il enlève aux hommes la possibilité de se distraire.
Il est dur comme la pierre,
La pierre informe,
La pierre du mouvement et de la rue,
Et son éclat est tel que toutes les armures, tous les
masques en sont faussés.
Ce que la main a pris dédaigne même de pendre la
forme de la main,
Ce qui a été compris n’existe plus,
L’oiseau s'est confondu avec le vent,
Le ciel avec sa vérité,
L’homme avec sa realité.



O ESPELHO DE UM MOMENTO
(Paul Éluard)

Dissipa o dia,
Mostra aos homens as imagens desligadas da aparência,
Retira aos homens a possibilidade de se distraírem
É duro como a pedra,
A pedra informe,
A pedra do movimento e da vista,
E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas
as máscaras se tornam falsas.
O que a mão tomou desdenha tomar
a forma da mão,
O que foi compreendido já não existe,
A ave confundiu-se com o vento,
O céu com a sua verdade,
O homem com a sua realidade.

Comentários

Gerana Damulakis disse…
Gosto muito de Paul Éluard, tenho aqui um livro incrível com seus poemas.
Vc sempre descobrindo raridades: que beleza deve ser o livro do movimento surrealista.
Kovacs disse…
Gerana, este "livrinho" é muito bom mesmo, consegue resumir de maneira muito objetiva os precursores do movimento (Rimbaud, Lautréamont, Alfred Jarry, Apollinaire, Max Jacob, Jacques Vaché, Jacques Rigaud, Reverdy e Roussel) e outros que não citei na postagem como Tristan Tzara, Antonin Artaud e Tardieu.
Lígia Guedes disse…
"Muito antes
aquele que respira
do que
aquele que é inspirado.
É, poeta...
"

(Paulo, simplesmente).
Kovacs disse…
Lígia, as palavras são mesmo elementos fascinantes e que remetem a interpretações tão distintas com pequenas atlterações na combinação. Estas possibilidades de novas combinações eram muito utilizadas pelos autores no movimento surrealista.
fdots disse…
eu morro de medo dos quadros surrealistas, apesar de nunca conseguir realmente virar a cara pra eles. já como movimento literário, eu sou completamente apaixonada! meu próximo passeio por livrarias vai ter esse livro como parte do roteiro com certeza.
Kovacs disse…
fdots, livro muito bom, mas difícil de se achar!
myra disse…
amo o Paul Eluard!!! e gosto de quasi todos aqui mencionados...
bjs
Kovacs disse…
Myra, fico feliz e sabia que você iria gostar das escolhas!
Anônimo disse…
Que beleza, vou levar no vento...
Kovacs disse…
Regiani, obrigado pelo comentário no tom surrealista!
Deu vontade de ler, e também Ka do Khliebnikov.
Kovacs disse…
Caio, boa indicação no contexto do futurismo/surrealismo, obrigado pela contribuição.
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