Fernando Pessoa - Livro do Desassossego

Literatura portuguesa
Fernando Pessoa - Livro do Desassossego - Editora Companhia das Letras - 544 páginas - Publicação 2012 - Organização de Ricardo Zenith

Um livro muito difícil de se classificar como prosa ou poesia, romance ou diário, filosofia ou fragmentos, quase tão complexo como a personalidade de Fernando Pessoa (1888-1935) que utilizou, neste caso, o heterônimo Bernardo Soares, definido como um "semiheterônimo" pelo próprio Pessoa "porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela". Na verdade, o guarda-livros Bernardo Soares não tem o mesmo brilhantismo e humor de outros famosos heterônimos como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis e, no entanto, talvez seja o que melhor traduziu o sentimento de melancolia do próprio Pessoa.

O organizador desta edição, Ricardo Zenith, definiu o Livro do Desassossego da seguinte forma: "O que temos aqui não é um livro mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura". Talvez a melhor definição seja de Fernando Pessoa no trecho 12: "Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer".

Mais bonito ainda é o trecho 116: "Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso".

Outra passagem que traduz o destino de Pessoa no trecho 103: "Cultivo o ódio à ação como uma flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida". E a sua opção pela ficção no trecho 415: "As figuras imaginárias têm mais relevo e verdade que as reais. O meu mundo imaginário foi sempre o único mundo verdadeiro para mim. Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve, de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu próprio criei. Que loucura! Tenho saudades deles porque, como os outros, passam...".

Difícil escolher algumas poucas citações para esta postagem, prefiro indicar o site do Domínio Público que disponibilizou o Livro do Desassossego (versão da editora brasiliense) para consulta, basta clicar aqui.

Comentários

Ricardo Duarte disse…
Lindo post, Kovacs.
Ainda não tive a oportunidade de ler o "Livro do Desassossego" - embora já tenha me deparado com vários trechos pela Internet, além do especial sobre ele dentro da série "Grandes Livros" da RTP.

Reli recentemente uma coletânea de poemas do Pessoa, e fiquei ainda mais impressionado do que na primeira leitura - a "Ode Marítima", em que Álvaro de Campos apresenta o horror dissimulado pela glória das Navegações dos séculos XV e XVI, é memorável.

Abraços
Gerana Damulakis disse…
O Livro do Desassossego mexe com a pessoa, desassossega mesmo; deu vontade de reler, todavia ainda lembro das sensações.
Grande postagem, como sempre.
Lígia Guedes; disse…
"O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.


(PESSOA, Fernando - Poemas completos de Alberto Caeiro)
dade amorim disse…
Ótima resenha, excelente análise do poeta e desse livro em particular.

Um abraço
myra disse…
bom dia...bem nem tao bom, faz demasiado calor até para mim que gosto de calor!
bem eu somente queria te dizer que "falei" com meu irmao no blog dele comigo, sobre voce....acho que le vai gostar
e falando de outras coisas eu adoro e admiro o Fernando Pessoa, mas este livro nao conhecia!!!so conheço os poemas dele!
e voce por colocar sempre coisas tao interessantes!
um gde abraço
Alex disse…
Tenho acompanhado sempre este blog, pois gosto da maneira como as resenhas são apresentadas, simples e consistentes. O que, de certo modo, instiga a leitura em questão. Parabéns, Kovacs!

Sobre Fernando Pessoa, ler qualquer obra dele será sempre um ótimo desafio literário, seja pela forte expressão do pensamento, seja pela capacidade criativa de sua escrita.

Mais uma vez, parabéns!

Abraços!
Kovacs disse…
Ricardo, quanto tempo seja bem-vindo novamente! Álvaro de Campos é o meu heterônimo preferido de Fernando Pessoa, boa lembrança.
Kovacs disse…
Gerana, é um livro surpreendente mesmo e marca a nossa alma para sempre!
Kovacs disse…
Lígia, obrigado pelo poema que é bem no clima do Livro do Desassossego.
Kovacs disse…
Dade Amorim, obrigado pelo comentário gentil e seja bem-vindo por aqui.
Kovacs disse…
Myra, aqui no Rio está muito frio! Vou lá no blog que você escreve para o seu irmão agora mesmo.
Kovacs disse…
Alex, obrigado pelo comentário e elogio. Este livro é muito complexo, mas uma experiência única que recomendo para você.
Barros disse…
Soberbo!
Como nos aproximamos da idéias desse cara, não é Kovacs?
myra disse…
obrigada amigo Kovaks pelas tuas palavras no nosso blog!!!
abraços
Djabal disse…
É o meu livro de cabeceira, se podemos chamar assim. Ele é inesgotável e vive sendo relido, relido, como se fosse a bíblia para o religioso.
Ao saber que ele é póstumo, retirado dos papéis que o poeta relegou para outro momento, fiquei ainda mais admirado.
Ele mais do que merece ser lido e relido. Abraços e muitas felicidades, sempre.
Kovacs disse…
Caro Barros, Fernando Pessoa continua muito atual e concordo que me identifico com algumas passagens, como você bem sabe.
Kovacs disse…
Myra, não precisa agradecer estou sempre por lá.
Kovacs disse…
Djabal, você comentou dois pontos que combinam perfeitamente com a minha opinião: primeiro que é um livro inesgotável, para se ler e reler a vida inteira e segundo que tem um caráter quase religioso, algo assim como a bíblia.
Gisele Freire disse…
Meu favorito é o Caeiro, mas tenho esse livro na minha cabeceira a muitos e muitos anos, é um livro e tanto, e o Pessoa é o Cara!
abraço e gosto muito daqui :)
Gi
Kovacs disse…
Gisele, obrigado pelo comentário gentil e concordo com você que Pessoa é o Cara!
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