Cinthia Kriemler - O sêmen do rinoceronte branco

Literatura brasileira contemporânea
Cinthia Kriemler - O sêmen do rinoceronte branco - Editora Patuá - 128 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação de Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

O sêmen do rinoceronte branco é o título de um dos melhores contos na mais recente antologia de Cinthia Kriemler, inspirada por um fato verídico ocorrido em 2018, quando Sudan, o último rinoceronte-branco do norte, morreu no Quênia aos 45 anos, por meio de eutanásia, em um santuário natural – nada mais do que "um cativeiro cercado de boas intenções" – e o seu material genético foi congelado para o futuro.

O conceito de extermínio é ampliado dos caçadores no Quênia – que promoveram a extinção desta majestosa subespécie – até os estupradores do Boko Haram na Nigéria, passando pela destruição na Síria, que gera refugiados como o pequeno Aylan Kurdi de apenas três anos, encontrado morto em uma praia na costa da Turquia, até os constantes assassinatos por "balas perdidas" no Morro do Alemão, Rio de Janeiro, onde "perdido é o que tudo está. Bala. Homem. Consciência. Futuro". A raça humana, definitivamente, é a única espécie que promove a sua própria extinção por meio do preconceito, aversão ou indiferença frente aos excluídos, sejam eles crianças, mulheres, idosos, índios, pretos, homossexuais ou, principalmente, pobres. É sobre este permanente estado de perseguição e injustiça social que trata este livro e a literatura de Cinthia Kriemler.

Em todos os contos, as frases curtas e cortantes formam uma espécie de poesia em ritmo de oração, uma construção narrativa de extrema beleza que contrasta com a dureza dos temas abordados e o sofrimento das personagens. Em Garrafas no jardim, por exemplo, encontramos uma visão do alcoolismo, destruidor de tantas famílias, que é consentido e, ao mesmo tempo, escondido por uma série de desculpas inúteis: "Caiu porque o chão estava molhado. Ele para de beber a hora que quiser. Ele bebe pra se divertir. Ele até que diminuiu. Deixa ele em paz."
"Afundadas na terra. Plantadas entre avencas e coqueirinhos e samambaias. O vício escondido pelas folhas dos vasos. Tudo tão bem disfarçado que eu me pergunto como é que o braço paralisado de papai consegue dar conta de cavucar e enterrar cada garrafa. E são muitas. Um cemitério delas. / Mamãe acredita – com sua fé nos santos e nas rezas – que ele não bebe mais. E nem as frequentes idas ao jardim nem o cheiro permanente das pastilhas de hortelã a fazem pensar diferente. Ela não quer enxergar. Não aguenta mais saber. E mente. Para que a gente possa respeitá-lo. Respeito? Raiva. De escutar ela repetindo que a força do Espírito Santo o curou. De testemunhar a impotência dessa negação passiva, dessa responsabilidade repassada ao divino. Como todos os que se recusam a ver, mamãe dá nomes diferentes à própria fraqueza. Abnegação. Companheirismo. Amor. Mas tudo o que eu vejo é uma mulher perdida que se alimenta da crença em promessas convenientes. E um simulacro de homem que promete qualquer coisa para estimular a ingenuidade dessa crença. Cúmplices. A que finge; o que esconde." - Trecho do conto Garrafas no jardim (p. 22)
As mulheres e as crianças são as criaturas mais perseguidas, como no belíssimo conto Balanço, pura poesia desde a notável abertura: "Me ensinaram a chamar de alma esse lugar que dói". A morte está sempre presente neste livro e não existe salvação aparente, como em outra passagem memorável do conto Coragem: "Quando o que se tem para dar é apenas salvação, não se tem nada. A salvação é patética. Uma visão unicista e distorcida da realidade, baseada na nossa crença pessoal do que é melhor para todos. A meu favor, o fato de ser uma crença honesta. Mas as crenças não bastam. Honestas ou não. Acreditar é perigoso. Dói."
"Me ensinaram a chamar de alma esse lugar que dói. E me disseram que é cruz para se carregar no lombo a vida inteira a estrada que impede qualquer mudança no roteiro. Ao longo da trilha, a impotência das verdades que nos assumem devagar. Subliminar e sub-repticiamente. E uns poucos bálsamos disfarçados. Pequenos alívios impedindo as têmporas do estouro final. Reprimindo o corpo das vontades de fim. Estrada comprida, fustigando os pés no caminhar ininterrupto sobre pedras sujas, feias, irregulares, pontiagudas. Vitrine de convites. Um pulo para o nada. Um frasco de químicos permitidos. Um cilindro de chumbo de ponta oca. Um talho ou dois de lâmina afiada. Um passo para a frente do caminhão sem freios. São machos os atalhos. Fêmea é a trilha. Que descarta os desfechos que sujam de miolos as paredes brancas ou respingam carmim no tapete do quarto. Fêmea. Como estrada / escolha / dor / solidão / realidade / rejeição / tortura / desistência. Ou como a morte, híbrida. Ou como a resistência, inútil." - Trecho do conto Balanço (p. 112)
Uma leitura recomendada para os apreciadores de literatura em geral e também para entender melhor a época na qual estamos vivendo, afinal, tudo indica que não teremos muito tempo para explicações, como muito bem define a autora: "Em março de 2018, foi extinto o rinoceronte branco do norte. Da extinção do Homem ainda não se sabe a data. Mas temos sido urgentes."

Sobre a autora: Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É autora, pela Editora Patuá, de Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015) – semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Publica textos e poemas em antologias e em revistas literárias.

Comentários

sonia disse…
Em todos os contos, as frases curtas e cortantes formam uma espécie de poesia em ritmo de oração,

é assim como diz você, K. São frases cortantes, que dizem tudo com poucas palavras. É provável que a autora tenha convivido com alguém que a inspirou nesse tema. Tema de difícil digestão. Origem de muitos dramas familiares.
Abraços,
S.
Alexandre Kovacs disse…
Oi Sonia, os textos de Cinthia Kriemler sempre passam uma forte sensação de credibilidade. Obrigado pela visita e comentário.

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