Yukio Mishima - O marinheiro que perdeu as graças do mar

Literatura japonesa
Yukio Mishima - O marinheiro que perdeu as graças do mar - Editora Estação Liberdade - 176 Páginas - Tradução de Jefferson José Teixeira - Capa: Mika Matsuzake - Lançamento: 2022.

Apesar da condução da narrativa em terceira pessoa, Yukio Mishima (1925-1970) soube alternar com habilidade o ponto de vista dos três personagens principais a partir de suas diferentes perspectivas – e de como interpretam o mundo que os cerca – neste romance que lida com alguns dos temas recorrentes na extensa bibliografia do autor: paixão glória e morte. Fusako Kuroda é uma viúva, proprietária de uma refinada loja de artigos masculinos e que vive com seu filho único Noboru de 13 anos. Após cinco anos da morte do marido, Fusako conhece Ryuji Tsukazaki, oficial da marinha mercante, ao levar o filho, apaixonado por navios, em uma visita ao porto de Yokohama no cargueiro Rakuyo, no qual Ryuji estava embarcado, iniciando um relacionamento amoroso.

O livro tem início com a descoberta por Noboru de um furo no interior de uma grande cômoda, junto à parede divisória entre o seu quarto e o da mãe. Através deste furo o menino observa secretamente a intimidade do comportamento de Fusako Kuroda, inclusive durante a primeira noite que ela passa com Ryuji Tsukazaki. A perda da inocência de Noboru é compartilhada com um grupo de amigos da mesma idade que, liderados por um chefe cruel, discute ideias bizarras sobre a  moral e as convenções da sociedade, a necessidade de preencher o vazio do mundo por meio de assassinatos: "Se deixarmos passar este momento, pelo resto da vida não poderemos mais roubar, matar ou praticar qualquer outro ato que testemunhe a liberdade humana."

"Tsukazaki desabotoou devagar os botões da camisa e em seguida despiu as roupas sem dificuldade. Apesar de regular em idade com a mãe de Noboru, tinha um corpo mais jovem e sólido do que um homem em terra, como se a matriz tivesse sido fundida no mar. Os ombros largos apresentavam o formato quadrangular do telhado de um templo; o peito, coberto por uma profusão de pelos, sobressaía com distinção; e por todo seu corpo surgiam músculos nodosos semelhantes à torcedura sólida das cordas de sisal, como se vestisse uma armadura de carne que pudesse despir quando quisesse. E Noboru se surpreendeu ao ver, rasgando os pelos profundos do baixo ventre, a triunfante torre lustrosa de um templo erguida, ereta. / Sob a luz débil e oblíqua, os pelos espalhavam sobre seu torso largo uma sombra delicada a cada respiração. O perigoso brilho dos olhos se encontrava fixo sobre a mulher que se despia. O reflexo da lua às suas costas imprimia uma linha áurica em seus ombros espadaúdos e dourava a veia grossa sobressaindo de seu pescoço. Era o verdadeiro ouro da carne produzido pela luminosidade do luar e do suor." (pp. 20-1)

Fusako Kuroda é uma mulher sofisticada e independente, simbolizando a associação dos padrões tradicionais japoneses de feminilidade com as influências da cultura ocidental no período de pós-guerra. No seu ponto de vista, apesar dos sentimentos, ela tem medo de comprometer a sua liberdade e posição social em um relacionamento com um marinheiro: "Sem que ela própria percebesse, sua fúria a colocava em uma posição incompatível com a repentina paixão avassaladora do final de verão do ano anterior. No fundo estava furiosa não tanto por causa de Ryuji, mas pela família sólida que criara desde a morte do marido, contituída por ela e pelo filho."

"Os dois viram-se mergulhados em sentimentos. Fusako anteviu no beijo apenas a dolorosa separação do dia subsequente. Acariciando a face, tocando as marcas acetinadas e tépidas do rosto escanhoado, aspirando o aroma de carne que exalava do selvagem peito masculino, Fusako sentiu seu coração se despedir de cada parte do corpo de Ryuji. Compreendeu que através do forte e arrebatado abraço ele procurava confirmar a real existência dela naquele momoento. / Para Ryuji, o beijo era a morte, a morte na paixão como sempre havia imaginado. A inexprimível doçura dos lábios da mulher, a infinita umidade da boca cujo vermelho podia perceber na escuridão mesmo de olhos cerrados o mar tépido de corais, a língua que se agitava sem repouso como uma alga marinha... No sombrio êxtase causado por tudo isso, havia algo subjacente ligado à morte. Estava totalmente ciente de que no dia seguinte se separariam e teve a sensação de que poderia morrer por ela. A morte o fascinava." (p. 80)

Já Ryuji Tsukazaki, o "marinheiro" do título, é um homem solitário que, antes de conhecer Fusako Kuroda, perseguia os ideais de uma morte gloriosa no mar: "Ignorava por completo o tipo de glória que desejava ou que lhe seria adequado. Sabia apenas haver um ponto luminoso na profunda escuridão do mundo que fora preparado só para ele e que um dia se aproximaria para iluminá-lo e a mais ninguém." Para Noboru, Ryuji inicialmente representava o auge da masculinidade japonesa, pois levava uma vida de aventuras. Contudo, esta  perspectiva muda radicalmente quando Ryuji fica com Fusako e começa a tratar Noboru como seu filho.

Yukio Mishima é considerado, juntamente com Yasunari Kawabata (prêmio Nobel de 1968) e Junichiro Tanizaki, um dos grandes nomes da literatura japonesa moderna. O marinheiro que perdeu as graças do mar, lançado originalmente em 1963, ainda surpreende pela originalidade e complexidade, com um final surpreendente que é compatível com o estilo do autor.

"Noboru até então nunca recebera dos adultos um tratamento tão cordial, tampouco tinha visto demonstrarem diante dele tamanha hesitação. Parecia um rito particular dos adultos. Sabia o que iriam lhe dizer e isso o entediava. Do outro lado da mesa, Ryuji e a mãe constituíam uma visão espetacular, zelando por ele como se fosse um pequeno pássaro que pudesse se machucar e espantar com facilidade, vulnerável e delicado. Sobre um prato, tinham colocado esse passarinho de penugem ainda eriçada, frágil como se prestes a desmoronar, e agora pareciam pensar em uma maneira de devorar seu coração sem lhe causar mágoa. / Noboru não fazia objeção à imagem simpática de si criada por Ryuji e a mãe. Precisava se passar por vítima. [...] Noboru sabia que, ao mesmo tempo que era tratado com muito carinho, também era temido. Essa doce intimidação o inebriava. Ao dirigir a eles a frieza de seu coração, percebia-se um leve sorriso no canto de seus lábios. O sorriso minúsculo visto no rosto de um aluno que foi à aula sem ter feito o dever de casa, mas com o orgulho de alguém que se atira de um penhasco." (pp. 141-3)

Literatura japonesa
Sobre o autor: Yukio Mishima (1925-1970), nascido Kimitake Hiraoka em Tóquio em 1925, estreou na literatura aos dezenove anos. Somente anos mais tarde, com Confissões de uma máscara (1949) e Cores proibidas (1951), firma-se como o grande talento artístico de sua geração. Mesclando influências ocidentais e orientais, explorando tabus temáticos, como a homossexualidade e o culto ao corpo masculino, e produzindo excessivamente, a arte é, para Mishima, indissociável de suas ações. Cada vez mais crítico da ocidentalização do país no pós-guerra, ele leva seu nacionalismo ao extremo em 1970. À frente de seu grupo paramilitar Tate no kai, invade um quartel do exército japonês em Tóquio buscando incitar um golpe de Estado que devolveria os poderes divinos ao Imperador. Sem obter a acolhida esperada, termina seu discurso e comete seppuku, o tradicional suicídio ritualístico samurai, deixando perplexos seus milhões de leitores no Japão e no mundo.

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