Paulo Roberto Farias - Deixa eu te falar da noite

Literatura brasileira contemporânea
Paulo Roberto Farias - Deixa eu te falar da noite - Editora Caos & Letras - 188 Páginas - Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2021.

Em seu mais recente lançamento, Paulo Roberto Farias nos apresenta um romance muito peculiar com base em uma estrutura narrativa conduzida por um fluxo de consciência único, na forma de diário, de uma personagem que conquista a nossa atenção justamente por sua ingenuidade e simplicidade. Difícil não lembrar da solitária Macabéa de Clarice Lispector em A hora da estrela. No entanto, o leitor logo perceberá que a Marla de Deixa eu te falar da noite é uma daquelas protagonistas que surpreendem porque podem não ser totalmente confiáveis.

De fato, quando Marla afirma que não se acha solitária, logo percebemos que isso obviamente não é verdade. Morando em Porto Alegre, longe da mãe que ficou no interior, com poucas amigas e nenhuma perspectiva de uma relação amorosa, ela trabalha em uma lavanderia sem contato com outras pessoas e passa o tempo inventando histórias dos clientes por meio do cheiro que eles deixam nas roupas ou relembrando os sonhos que teve durante a semana. Ela gosta muito de ler e tenta o vestibular para a faculdade de Letras há alguns anos sem sucesso.

"[...] Eu tenho seis samambaias que eu molho todos os dias, eu nunca me esqueço de molhar porque senão elas morrem. Tem gente que é tão sozinha que até conversa com as samambaias, eu acho isso tão engraçado, conversar com as samambaias como se fossem de carne e osso que nem a gente. Eu molho as minhas samambaias todos os dias, mas elas ficam lá e eu aqui, aqui em casa não tem esse negócio de conversar com as samambaias que eu não sou doida. Outra coisa que eu gosto de fazer no sábado e no domingo, geralmente depois do almoço, é me lembrar dos sonhos que eu tive durante a semana. Acho tão legal sonhar. Ás vezes eu chego a ir dormir mais cedo só pra poder sonhar um pouco mais naquela noite. Só que durante a semana eu não tenho tempo pra ficar me lembrando dos sonhos que tive de noite. De manhã não posso chegar atrasada na lavanderia e acaba que não tenho tempo mesmo. Tinha uma época que eu ficava entristecida por não ter esse tempo, mas depois descobri que o melhor horário pra isso é depois do almoço nos finais de semana. [...]" (p. 15)

Reproduzindo as expressões coloquiais e mantendo os erros ortográficos e vícios de linguagem da personagem, o autor consegue estabelecer uma voz narrativa convincente que, aos poucos, vai compondo uma personalidade sensível e fascinante de uma mulher considerada esquisita e desajustada – pelo que percebemos de suas relações com as amigas e de algumas de suas ações na narrativa –,  chegando aos vinte e seis anos ainda sem um lugar definido no mundo e descobrindo a própria sexualidade, Marla é cativante na sua aparente fragilidade de perdedora. 

"[...] Eu acho bonito como parece que cada roupa que chega aqui tem uma história, parece até que o cheiro que fica nas roupas conta um pouco da história dessa roupa. Eu gosto de descobrir as histórias das roupas sujas, e é cheirando elas que eu tento descobrir essas histórias. Lençol sujo conta muita história pra mim. Eu gosto quando vem lençol sujo. Acho lençol sujo tão bonito. O que eu mais gosto é quando a gente recebe remessa de hotel. Eu chego a ficar tonta de tanto lençol branco cheio de história. Como eu nunca vejo as pessoas que são as donas dessas roupas, eu gosto de sentir o cheiro e imaginar a cara delas. Eu acho legal inventar histórias pra essas pessoas que eu nunca vi, e daí parece que o cheiro ajuda a inventar essas histórias todas. Eu não conto pra ninguém essas histórias que eu invento, eu nem sei direito se eu invento, é só que na hora que eu cheiro uma roupa eu imagino a cara da pessoa que usou ela e uma historinha pra essa pessoa. [...]" (p. 47)

Ao inventar "histórias das roupas sujas", Marla acaba se apaixonando por uma cliente misteriosa que deixa as suas roupas regularmente às sextas-feiras na lavanderia. Qualquer tentativa de aproximação parece totalmente improvável já que ela na sua própria definição "não sabe puxar assunto com as pessoas", será que há alguma chance de concretizar esta relação? Mesmo sabendo das poucas chances de um final feliz, ficamos torcendo e nos emocionando por esta protagonista até a conclusão magistral de um romance que já deixa saudades.

"[...] Eu cheiro quase todo tipo de roupa, e quase todo dia. Só não cheiro quando tem gente comigo no meu setor, que nem quando a Jaque vinha toda hora falar comigo sobre a janta na casa do Rogério, daí não cheiro porque fico com vergonha. Eu gosto de cheirar qualquer roupa. Mas tem um tipo de roupa que eu gosto mais. Acho que é porque vem muita roupa social, quase todas as roupas que vêm são sociais, tanto de homem quanto de mulher. É mais difícil vim roupa que as pessoas usam no dia a dia, como camiseta, calça de brim, moletom, essas roupas. Mas vem também, claro. E é ainda mais difícil de vim roupa íntima, cueca, sutiã, calcinha, meia-calça. Meia-calça é muito difícil de vim, e ainda mais difícil de lavar porque exige uma atenção especial senão desfia tudo. Então como essas roupas vêm muito pouco eu gosto mais de cheirar essas. Eu fico um pouco envergonhada de dizer isso que eu gosto de cheirar as cuecas e as calcinhas dos outros. Não sei o que vão pensar de mim, se sou relaxada ou, pior ainda, se sou puta ou sapatão. [...]" (p. 59)

Literatura brasileira contemporânea

Sobre o autor: Paulo Roberto Farias é ator e escritor. Bacharel em Teatro e mestre em Artes Cênicas pela UFRGS. Integra os grupos Oigalê e ATO Cia. Cênica, tendo recebido o Prêmio Açorianos 2012 de melhor ator coadjuvante pelo espetáculo O Feio. Seu livro de estreia, a novela A tessitura da noite (Multifoco, 2013), foi indicado ao Prêmio Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores na categoria narrativa longa.

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