Anatole Jelihovschi - A morte e os seis mosqueteiros

Literatura brasileira contemporânea
Anatole Jelihovschi - A morte e os seis mosqueteiros - Editora Jaguatirica - 152 Páginas - Segunda edição - Diagramação e capa: 54 design - Lançamento: 2017.

Os efeitos da desigualdade social em nosso país são evidenciados pela divisão entre a cidade formal e as favelas no Rio de Janeiro, uma realidade que não pode ser ignorada. Após décadas de políticas públicas inadequadas, as comunidades carentes continuam a ocupar territórios cada vez mais densamente povoados e sem condições mínimas de infraestrutura, além da insegurança provocada pelos altos índices de criminalidade. O romance de Anatole Jelihovischi é ambientado neste cenário caótico, no qual a população local, esquecida pelo Estado, se torna refém e vítima constante da violência policial em nome do combate ao tráfico de drogas.

A narrativa é conduzida em primeira pessoa por Zé pequeno que conta em retrospectiva a história de seis amigos que cresceram em uma favela do Rio de Janeiro, os seis mosqueteiros como eles costumavam se imaginar quando crianças: "Éramos seis moleques que andavam sempre juntos. Eu, Juca Pelo de Burro, João Mocotó, Zé Grande (eu era o Zé pequeno, ou Zequinha), Batata e Meia-noite. A gente aprontava de tudo. Soltava pipa, jogava bola, roubava, ia à praia e entrava nos trens pela janela. [...]" Para esses meninos não há esperança de uma vida normal e a inocência logo será perdida devido à violência e a falta de opções na favela. 

"A favela não seria um lugar ruim de morar não fossem os bandidos e policiais trocando tiros ou fazendo arruaças, a gente tem de manter distância dos dois. Às vezes passam muitos meses na maior calma. De repente se ouve uma chuva de tiros à noite. Gritos, injúrias, súplicas. Cheiro de pólvora, cheiro de carne queimada. De madrugada volta o silêncio. No dia seguinte lá estão os corpos no chão, cercados de poças de sangue; sangue escuro, endurecido, cheio de moscas. / Mas o mais assustador são as execucões dos dedos-duros. / Me lembro de uma execução, anos atrás; bateram no coitado com ferro e tudo, amarraram o cara, passaram fita na boca, puseram dentro de cinco pneus, encharcaram de gasolina, colocaram fogo. O que nunca esqueci foram os olhos. Nem gritar ele podia. O grito saiu pelos olhos, ficou marcado em mim. Depois descobriram que ele nunca tinha denunciado ninguém. Os anos passaram e sempre sonhei com ele." (p. 10)

Os espaços que deveriam ser ocupados pelas autoridades são tomados pelos traficantes que controlam até mesmo a religião local, ditando as regras de conduta e as punições cada vez mais recorrentes e cruéis. Nesta espécie de romance de formação às avessas, o cotidiano brutal vai confirmando aos poucos o destino trágico de cada um desses personagens, fazendo com que o protagonista questione a própria razão da sua existência: "E agora eu nem sabia dizer se a vida também não existia de verdade. Se viver era ter raiva dos outros, ter raiva de todo mundo, matar os outros, arranjar doença e odiar mais ainda, aí cara, aí tenho de confessar que eu estava por fora de tudo. Era um bobo, um otário que não entendia nada."

"Confesso que me impressionavam os cultos, e eu pensava até em ser pastor e ter uma igreja. Uma vez o pastor Manelão chamou à frente todos os que tinham dor ou doença, estendeu um cobertor enorme e cobriu-os. E gritava lá de cima, se vocês tiverem fé, Jesus vai expulsar os demônios dos seus corpos. vocês têm fé em Jesus?  E a igreja toda respondia, temos fé em Jesus Cristo que veio à terra para nos salvar. E ele repetia, repetia um milhão de vezes. Quando a coberta foi retirada ninguém mais sentia nada e todo mundo contribuía com a igreja porque, como dizia o pastor, se não pagasse não esperasse milagre. E quanto mais pagasse, maior era o milagre que se podia esperar. / Só meu pai era dispensado do dinheiro, já que a contribuição vinha do trabalho, mas não pense que ele não tirava todos os trocados do bolso e entregava para o pastor. Quando a mãe zangava com ele, dizia, 'mas mulher, não vê que somos uma casa abençoada?' Minha mãe não respondia nada, mesmo que todo mundo fosse dormir com fome, mas dormir com fome naquele lugar fazia parte da rotina." (pp. 20-1)

A narrativa é extremamente visual, no estilo veloz de um roteiro cinematográfico – principalmente nas passagens violentas – podendo afetar os leitores mais sensíveis devido à descrição detalhada das invasões da polícia ou das execuções comandadas pelos criminosos. De qualquer forma, infelizmente nada do que é apresentado se compara à realidade dessas comunidades, como podemos constatar lendo qualquer noticiário carioca. Contudo, na obra de Anatole Jelihovschi temos a chance de conhecer essas histórias do ponto de vista interno, na forma de um teimoso exercício de sobrevivência diária dos moradores, suas paixões, ambições, desentendimentos e frustrações. 

"Engraçado, minha mãe sempre teve horror a violência. Apesar de destrambelhada das ideias, de violência ela tinha pavor. Pode ser a causa da nossa aversão a arma de fogo. Tonho nunca tinha colocado uma nas mãos. Eu já pegara em arma na época que fazia bico de segurança com o meu cunhado. E, interessante, tinha me dado bem. Nos treinos de tiro, acertava o alvo bem no meio. Diziam que tinha nascido para a profissão. Talvez por isso, em parte pelo matraquear da mãe, preferi largar arma antes de começar a gostar de verdade. Respondia que nasci para jogar futebol, não dar tiro nos outros. Mas na hora da verdade, quando me puseram uma bola nos pés e a camisa do Flamengo no corpo, o que aconteceu? Com arma devia acontecer o mesmo. Uma coisa era atirar em alvo, um monte de círculos, um dentro do outro, o menor no meio. Outra coisa é trocar tiro com com uma quadrilha de malucos, todo mundo atirando em todo mundo, você mirar em alguém que nem conhece e atirar para matar. Não, eu podia qualquer coisa, menos aquilo." (p. 58)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre o autor: Anatole Jelihovschi publicou "Aves Migratórias" (Planetário, 2005), "Rio Antigo" (Rocco, 2009) e "A Gorda" (Ímã Editorial, 2012). Em 2003 foi um dos finalistas do Concurso de Contos do Prosa & Verso, caderno literário do jornal O Globo. Anatole nasceu em 1950, no Rio de Janeiro e ainda guarda 10 livros inéditos. Em seu site e nas fanpages gosta de contar como a literatura nasceu dentro dele, antes mesmo que o amor e a vocação para as ciências exatas.

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