Salman Rushdie - Faca: Reflexões sobre um atentado

Memórias
Salman Rushdie - Faca: Reflexões sobre um atentado - Editora Companhia das Letras - 232 Páginas - Tradução de Cássio Arantes Leite e José Rubens Siqueira - Capa: Arsh Raziuddin - Lançamento: 2024.

Salman Rushdie respondeu mais uma vez à violência com arte e à ignorância com inteligência. Este é o grande resumo do mais recente lançamento do premiado autor, uma espécie de diário do seu processo de recuperação física e psicológica após o violento atentado sofrido em 12 de agosto de 2022, quando, ironicamente, se preparava para iniciar uma palestra patrocinada pela instituição Chautauqua sobre a necessidade de proteção aos escritores ameaçados por regimes, ideologias e religiões autoritárias em uma pequena cidade do estado de Nova York, um atentado do qual escapou da morte por muito pouco, ficando com a mobilidade e a sensibilidade da mão esquerda comprometidas e perdendo para sempre a visão do olho direito.

Por mais de 30 anos, Salman Rushdie viveu sob a ameaça de uma fatwa, ou sentença de morte, proferida pelo aiatolá Khomeini no Irã, devido ao seu livro Os versos satânicos ter sido considerado ofensivo ao profeta Maomé. Quando todos, inclusive o próprio autor, imaginavam que este assunto já estivesse superado, bastaram 27 segundos para um fanático jovem norte-americano quase matá-lo depois de desferir múltiplas facadas na sua mão esquerda, pescoço, peito, abdômen e olhos. "Por que agora? Sério? Faz tanto tempo. Por que agora, depois de todos esses anos? O mundo com certeza tinha seguido em frente e a questão estava encerrada. Mas ali, avançando depressa, havia uma espécie de viajante do tempo, um fantasma assassino do passado."

"É raro alguém conseguir descrever a própria experiência de quase morte. Em primeiro lugar, esclareço que isso não aconteceu. Não havia ali nada de sobrenatural. Nenhum 'túnel de luz'. Nenhuma sensação de deixar o meu corpo. Na verdade, nunca me senti tão ligado ao meu corpo. Meu corpo estava morrendo e me levava com ele. Era uma sensação intensamente física. Depois, quando eu estava fora de perigo, perguntei a mim mesmo quem ou o que era o 'eu', o self que estava no corpo e não estava no corpo, aquilo que o filósofo Gilbert Ryle chamou certa vez de 'o fantasma na máquina'. Nunca acreditei na imortalidade da alma, e minha experiência em Chautauqua parecia confirmar isso. O 'eu', fosse o que ou quem fosse, estava com certeza no limiar da morte junto com o corpo que o abrigava. Eu disse algumas vezes, meio de brincadeira, que nossa noção de um 'eu' não corpóreo pode significar que possuímos uma alma mortal, uma entidade ou consciência que termina junto com a existência física. Penso agora que talvez não seja apenas uma piada." (pp. 25-6)

Um capítulo é dedicado à história de amor e o casamento com a poetisa norte-americana Rachel Eliza Griffiths que acompanhou cada momento do longo e doloroso procedimento de reabilitação e, obviamente, outra pessoa muito importante na narrativa é o agressor, chamado simplesmente de "A." e transformado em personagem por meio de um diálogo imaginário no livro. "Não quero usar seu nome neste relato. Meu Agressor, meu pretenso Assassino, o Asno que Achava que sabia coisas sobre mim e com quem tive uma Aproximação quase letal... Eu me via pensando nele, talvez compreensivelmente, como uma Anta. No entanto, neste texto vou me referir a ele de modo mais decoroso como o "A.". A maneira como o chamo na privacidade de minha casa é assunto meu."

"Existe uma felicidade profunda que prefere a privacidade, que floresce longe dos olhos do público, que não exige a validação de ser conhecida: uma felicidade que existe apenas para as pessoas felizes, que é, em si mesma, suficiente. Eu estava farto de ter minha vida privada dissecada e julgada por estranhos, cansado com a malícia de línguas venenosas. Eliza era e ainda é uma pessoa muito reservada, cuja maior preocupação por estar comigo era de que talvez precisasse renunciar à sua privacidade e se ver banhada na ácida luz da publicidade. Eu tinha vivido tempo demais nesse brilho sem sombras e não desejava isso para ela. Não desejava isso para mim. / Algo estranho aconteceu à ideia de publicidade em nosso tempo surreal. Em vez de ser bem-vinda, parecia ter se tornado, para muitos no Ocidente, sobretudo os jovens, uma qualidade sem valor, efetivamente indesejável. Se uma coisa não se torna pública, ela não existe de fato. Seu cachorro, seu casamento, sua praia, seu bebê, seu jantar, o meme interessante que você acabou de ver, essas coisas precisam ser compartilhadas dia após dia." (p. 46)

Um livro que Rushdie preferiria mil vezes não ter escrito, mas funciona nas palavras dele como um "acerto de contas", uma forma de seguir em frente, mesmo sabendo que a sua vida nunca mais será a mesma, tendo o desconforto de precisar digitar com uma mão e meia e com um olho só. Por outro lado, a essência do escritor permanece a mesma apesar de tudo e, novamente, ele nos mostra a importância da defesa da arte e da liberdade de expressão contra o fanatismo religioso, o que me faz lembrar de uma oportuna citação de Blaise Pascal: "Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa".

"Vou expressar aqui, pela última vez, minha opinião sobre religião – qualquer religião, todas as religiões –, e depois, no que me diz respeito, é assunto encerrado. Não acredito na 'evidência de coisas invisíveis'. Não sou religioso. Venho de uma família em que a maioria não é religiosa. (Minha irmã mais nova, Nabila, que morreu precocemente, foi uma exceção. Ela era devota.) Nunca senti necessidade da fé religiosa para me ajudar a compreender o mundo e lidar com ele. Porém, entendo que para muita gente a religião proporciona uma âncora moral e parece essencial. E na minha opinião a fé pessoal de alguém não é da conta de ninguém, exceto do indivíduo em questão. Não tenho problema com a religião quando ela ocupa seu espaço privado e não tenta impor seus valores aos outros. Mas quando a religião vira um instrumento político, até um instrumento de morte, passa a ser da conta de todo mundo, devido à sua capacidade de causar o mal." (pp. 196-7)

Memórias
Sobre o autor: Salman Rushdie nasceu em Bombaim, na Índia, em 1947. De família muçulmana liberal e abastada, aos treze anos foi estudar na Inglaterra e lá permaneceu, tornando-se súdito britânico. Em 1968, formou-se em história no King’s College, em Cambridge. Depois de uma breve carreira como ator, passou a se dedicar à literatura em 1971. Escreveu mais de vinte livros, entre os quais Os filhos da meia-noite, A feiticeira de Florença, O último suspiro do mouro e Fúria. Em 2023, foi nomeado uma das cem pessoas mais influentes do ano pela Time.

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