Elieni Caputo - Louva a deus

Literatura brasileira contemporânea
Elieni Caputo - Louva a deus - Editora Laranja Original - 148 Páginas - Projeto gráfico Arquivo (Hannah Uesugi e Pedro Botton) - Lançamento: 2025.

Em seu mais recente lançamento, Louva a deus, Elieni Caputo articula prosa, poesia e filosofia para refletir sobre a fragilidade e a incompletude da condição humana. Em digressões fragmentadas e labirínticas sobre a não-existência ela trabalha com símbolos e referências literárias e filosóficas, algumas explícitas e outras implícitas: Clarice Lispector, na fixação existencialista pela galinha; Machado de Assis, na recusa de transmitir um legado humano através do defunto-autor Brás Cubas; e Platão, no mito da caverna, que nos mostra confinados em um espaço fechado, onde uma fogueira projeta sombras das coisas verdadeiras ao fundo. Escrito há 2400 anos, haveria definição mais precisa para a sociedade contemporânea?

Assim como em obras anteriores  Laço de Fita e As coisas de verdade habitam as pedras  a autora desafia qualquer tentativa de enquadramento em gênero literário. A narrativa se constrói em torno de uma imagem recorrente: um quarto minúsculo onde um feto e peixes se debatem na lama, em uma cena repetitiva e sem desfecho. "Há histórias que nasceram para ser contadas, não é o caso desta. Não há nada a contar, sequer conto, a língua apenas reflete; é a cena que se mostra sozinha, repetitiva, sem nada a dizer" (fragmento 84, p. 59). A partir desse núcleo imagético, outros animais, a galinha, os porcos, o louva-a-deus, compõem uma coleção simbólica que, juntamente com o feto, tensiona os limites entre vida, morte e não-ser.

"É fato: aquilo não me engana, e são peixes se debatendo em um quarto minúsculo, e, junto deles, há um feto. Todos muito próximos. Lama, peixes e um feto — ali decidiram descartá-lo." - fragmento 2 (p. 17)

"Naquele dia em que vira um feto dentro do vidro na exposição da feira de ciências, em vez de ensinarem-lhe anatomia, fisiologia, lhe ensinaram que uma puta o havia abortado." - fragmento 22 (p. 27)

"Crescer é perder os lugares onde outrora habitamos: o útero, as roupas os sapatos que não servem mais, a casa que ficou pequena e para trás. Crescer é padecer de perdas, esticar os ossos e as carnes, as cartilagens." - fragmento 30 (p. 32)

"Galinha é um bicho avoado, come qualquer coisa, é ávida, mete o bico em tudo, até onde não é chamada. Choca os ovos que não são seus, não foi ela quem botou, sequer sabe se estão galados ou se vão vingar. A galinha é o ápice do não saber e, por isso, come o cordão umbilical como se fosse minhoca." - fragmento 36 (p. 35)

"A imaginação é fértil, assim como o útero, que pariu antes do tempo, um feto — uma condição antes do nascimento, uma anterioridade. Antes de tudo, havia o feto. Raciocínio obtuso. Começo de mundo." - fragmento 44 (p. 39)

"Olha, esse feto não teve velório, nem qualquer cerimônia, enterro. Agora, seu olho mal formado é bicado pela galinha que não o distingue dos peixes. O que distinguiria o feto como indivíduo — um velório — não faz sentido para a galinha. Ela é guiada por desenterrar minhocas, que são boas iscas." - fragmento 55 (p. 47)

"Se toca, esse livro não é leve; tem o peso da vida sem os nomes. E sem qualquer amor. Assim é a vida sem amor: feto junto de peixes se debatendo, galinhas bicando, cadela espreitando e lambendo, e porcos. A falta de amor tem cheiro forte, arranha a pele e pulsa, atravessa as vísceras. As dos peixes vão ser jogadas a esmo por aí, comidas por formigas em seu trabalho orquestrado de aproveitar os restos, que na verdade são tudo." - fragmento 61 (p. 48)

"As galinhas estão sempre em transe, inclusive quando consomem um louva-a-deus. Suas moelas são trituradores de alimentos, na falta de dentes. O nascimento de dentes é doloroso e tardio nos humanos, o feto é anterior à mordida." - fragmento 157 (p. 90)

"O feto não será bem-sucedido nem fracassado, não é bem-nascido, está afastado das metas humanas e dos sonhos. A galinha é sonâmbula e bem-sucedida como espécie, tem um bico certeiro em direção ao cordão umbilical e ao louva-a-deus, que é carnívoro e capaz de predar até pássaros. A galinha não raciocina. Não tem esse defeito evolutivo chamado consciência, que o feto não chegou a desenvolver. O feto é perfeito." - fragmento 205 (p. 116)

"O mito da caverna é uma das inúmeras tentativas de explicação da condição humana. É o não-ser das coisas vivas, o avesso do visível. O feto é do avesso e revela a formação em curso, interrompida, porque nem tudo é obrigado a frutificar. O não-ser é também parte do cosmos e seus vazios." - fragmento 239 (p. 133)

Literatura brasileira contemporânea
Sobre a autora: Elieni Caputo é poeta, romancista e ensaísta. Graduada em Psicologia pela UFSCAR e em Letras pela PUC-SP, é mestre em Literatura e Crítica Literária, também pela PUC, doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP e membro do GENAM ― Grupo de Estudos e Pesquisa em Literatura, Narrativa e Medicina. Publicou cinco livros: As coisas de verdade habitam as pedras (Editacuja, 2023), Laço de fita (Quixote+Do, 2022), Violência e brevidade (Penalux, 2020), Casa de barro (Patuá, 2018) e Poema em pó (7Letras, 2006). Seus poemas foram premiados em diversas revistas e coletâneas de concursos literários nacionais e portugueses. Publicou vários artigos acadêmicos, elaborados na interface entre a Literatura, a Filosofia e a Psicologia.

Onde encontrar o livro: Clique aqui para comprar Louva a deus de Elieni Caputo

Comentários

sonia disse…
Ela foi fundo, concentrou-se na origem e singularidade dfa vida e da morte...

Postagens mais visitadas deste blog

Cida Sepulveda - Clandestinas

As 20 obras mais importantes da literatura brasileira

As 20 obras mais importantes da literatura japonesa

As 20 obras mais importantes da literatura francesa

As 20 obras mais importantes da literatura portuguesa

As 20 obras mais importantes da literatura russa