Elieni Caputo - Louva a deus
Em seu mais recente lançamento, Louva a deus, Elieni Caputo articula prosa, poesia e filosofia para refletir sobre a fragilidade e a incompletude da condição humana. Em digressões fragmentadas e labirínticas sobre a não-existência ela trabalha com símbolos e referências literárias e filosóficas, algumas explícitas e outras implícitas: Clarice Lispector, na fixação existencialista pela galinha; Machado de Assis, na recusa de transmitir um legado humano através do defunto-autor Brás Cubas; e Platão, no mito da caverna, que nos mostra confinados em um espaço fechado, onde uma fogueira projeta sombras das coisas verdadeiras ao fundo. Escrito há 2400 anos, haveria definição mais precisa para a sociedade contemporânea?
Assim como em obras anteriores — Laço de Fita e As coisas de verdade habitam as pedras — a autora desafia qualquer tentativa de enquadramento em gênero literário. A narrativa se constrói em torno de uma imagem recorrente: um quarto minúsculo onde um feto e peixes se debatem na lama, em uma cena repetitiva e sem desfecho. "Há histórias que nasceram para ser contadas, não é o caso desta. Não há nada a contar, sequer conto, a língua apenas reflete; é a cena que se mostra sozinha, repetitiva, sem nada a dizer" (fragmento 84, p. 59). A partir desse núcleo imagético, outros animais, a galinha, os porcos, o louva-a-deus, compõem uma coleção simbólica que, juntamente com o feto, tensiona os limites entre vida, morte e não-ser.
"É fato: aquilo não me engana, e são peixes se debatendo em um quarto minúsculo, e, junto deles, há um feto. Todos muito próximos. Lama, peixes e um feto — ali decidiram descartá-lo." - fragmento 2 (p. 17)
"Naquele dia em que vira um feto dentro do vidro na exposição da feira de ciências, em vez de ensinarem-lhe anatomia, fisiologia, lhe ensinaram que uma puta o havia abortado." - fragmento 22 (p. 27)
"Crescer é perder os lugares onde outrora habitamos: o útero, as roupas os sapatos que não servem mais, a casa que ficou pequena e para trás. Crescer é padecer de perdas, esticar os ossos e as carnes, as cartilagens." - fragmento 30 (p. 32)
"Galinha é um bicho avoado, come qualquer coisa, é ávida, mete o bico em tudo, até onde não é chamada. Choca os ovos que não são seus, não foi ela quem botou, sequer sabe se estão galados ou se vão vingar. A galinha é o ápice do não saber e, por isso, come o cordão umbilical como se fosse minhoca." - fragmento 36 (p. 35)
"A imaginação é fértil, assim como o útero, que pariu antes do tempo, um feto — uma condição antes do nascimento, uma anterioridade. Antes de tudo, havia o feto. Raciocínio obtuso. Começo de mundo." - fragmento 44 (p. 39)
"Olha, esse feto não teve velório, nem qualquer cerimônia, enterro. Agora, seu olho mal formado é bicado pela galinha que não o distingue dos peixes. O que distinguiria o feto como indivíduo — um velório — não faz sentido para a galinha. Ela é guiada por desenterrar minhocas, que são boas iscas." - fragmento 55 (p. 47)
"Se toca, esse livro não é leve; tem o peso da vida sem os nomes. E sem qualquer amor. Assim é a vida sem amor: feto junto de peixes se debatendo, galinhas bicando, cadela espreitando e lambendo, e porcos. A falta de amor tem cheiro forte, arranha a pele e pulsa, atravessa as vísceras. As dos peixes vão ser jogadas a esmo por aí, comidas por formigas em seu trabalho orquestrado de aproveitar os restos, que na verdade são tudo." - fragmento 61 (p. 48)
"As galinhas estão sempre em transe, inclusive quando consomem um louva-a-deus. Suas moelas são trituradores de alimentos, na falta de dentes. O nascimento de dentes é doloroso e tardio nos humanos, o feto é anterior à mordida." - fragmento 157 (p. 90)
"O feto não será bem-sucedido nem fracassado, não é bem-nascido, está afastado das metas humanas e dos sonhos. A galinha é sonâmbula e bem-sucedida como espécie, tem um bico certeiro em direção ao cordão umbilical e ao louva-a-deus, que é carnívoro e capaz de predar até pássaros. A galinha não raciocina. Não tem esse defeito evolutivo chamado consciência, que o feto não chegou a desenvolver. O feto é perfeito." - fragmento 205 (p. 116)
"O mito da caverna é uma das inúmeras tentativas de explicação da condição humana. É o não-ser das coisas vivas, o avesso do visível. O feto é do avesso e revela a formação em curso, interrompida, porque nem tudo é obrigado a frutificar. O não-ser é também parte do cosmos e seus vazios." - fragmento 239 (p. 133)
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