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Ricardo Terto - Os dias antes de nenhum

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Ricardo Terto - Os dias antes de nenhum - Editora Patuá - 104 Páginas - Capa, projeto gráfico e diagramação: Rodrigo Sommer - Lançamento: 2019. Os 13 contos reunidos nesta antologia de Ricardo Terto obedecem à estrutura que foi consagrada por alguns mestres do gênero, ou seja, pequena extensão dos textos, narrados em primeira ou terceira pessoa, conquistando a atenção do leitor desde o início e finais surpreendentes.  Contudo, seguem também uma orientação mais subjetiva que se torna clara à medida que avançamos na leitura: uma certa dificuldade de adaptação dos protagonistas aos padrões de conduta impostos pela sociedade, deslocados do meio em que vivem e envolvidos em atividades profissionais com as quais não se identificam, os personagens, em sua fragilidade, provocam a identificação do leitor e o conflito na trama, combustível da boa literatura. Seja o vigilante noturno Durval, que acompanha uma área conhecida pelo consumo de crack, prostituição e violência,  "pro...

Alexandra Vieira de Almeida - A negra cor das palavras

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Alexandra Vieira de Almeida - A negra cor das palavras - Editora Penalux - 102 Páginas - Editoração Eletrônica e Capa de Karina Tenório - Posfácio de Nuno Rao - Lançamento: 2020. Os poemas neste mais recente lançamento de Alexandra Vieira de Almeida, A negra cor das palavras , lidam com os simbolismos relacionados ao chiaroscuro , como era denominada a técnica de pintura renascentista que consistia em revelar os objetos por meio do contraste entre luz e sombra. Neste jogo de diferenças – mas que pode revelar também harmonia –  a poeta destaca as palavras impressas contra a página em branco, a lua que inspira a noite dos poetas,  o amanhecer a brincar com a madrugada na floresta negra, o vinho tinto e o erotismo ácido das estrelas , companheiros da aventura da escrita e tantos outros signos. Acontece também da negritude representar o alerta do desequilíbrio social e preconceito racial contra uma etnia em nosso  país dividido em fragmentos , como neste lindo tre...

Fabio Weintraub - Quadro de Força

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Fabio Weintraub - Quadro de Força - Editora Patuá - 112 Páginas - Projeto gráfico e diagramação de Luyse Costa - Lançamento: 2019 Fabio Weintraub retrata os urgentes desequilíbrios sociais do nosso tempo e confere uma voz para grandes parcelas da nossa população que têm o status de invisíveis, talvez porque ninguém se interesse realmente em enxergá-las, "perdedores" que insistem em sobreviver na paisagem urbana, ignorados por todos. Seja a partir do martírio de uma travesti no SUS para conseguir um corpo impossível, descrito em  Sete poemas trans , ou por meio da dor de uma mãe (ou pai) ao perder o filho assassinado devido à violência policial em  O rosto , essas pessoas se transformam em personagens-vítimas no cotidiano das nossas grandes e injustas cidades. Se a inspiração dos temas é brutal, o estilo tem como base uma técnica refinada na qual o ritmo dos versos livres se associa com a escolha cuidadosa da linguagem e rimas.  É importante não cair na arma...

Alê Motta - Velhos

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Alê Motta - Velhos - Editora Reformatório - 136 Páginas - Design e editoração eletrônica: Negrito Produção Editorial - Lançamento: 2020. Este mais recente lançamento de Alê Motta, uma antologia de narrativas curtas, todas associadas a protagonistas na terceira idade, me lembrou uma passagem de O Animal Agonizante de Philip Roth que resume bem o assunto:  "Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive." Essa sensação de imortalidade enquanto vivemos, ou...

Julie Dorrico - Eu sou macuxi e outras histórias

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Julie Dorrico - Eu sou macuxi e outras histórias - Editora Caos e Letras - 108 Páginas - Ilustrações de Gustavo Caboco - Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2019. Sabemos que a assimilação da cultura indígena foi um verdadeiro genocídio em nosso país em vários níveis, inicialmente como uma guerra bacteriológica entre as moléstias que o branco trazia e eram fatais para a população nativa, depois pelas sucessivas e frustradas tentativas de escravização do índio. E ainda hoje não há lugar em nossa sociedade  para os territórios e direitos indígenas, muito menos para a literatura indígena. Julie Dorrico nos apresenta com este livro o orgulho do pertencimento étnico e nos ensina o que já deveríamos saber: "de que afinal, humanos, florestas, animais, somos todos gente." Em "O caminho de volta" , o texto de apresentação do escritor e professor Daniel Munduruku, um dos expoentes da literatura indígena hoje, graduado em fil...

Adriana Vieira Lomar - Aldeia dos Mortos

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Adriana Vieira Lomar - Aldeia dos Mortos - Editora Patuá - 196 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2020. Adriana Vieira Lomar utilizou um recurso narrativo semelhante ao imaginado por Ian McEwan em seu romance de 2016, Enclausurado , no qual um feto em gestação conduz toda a trama, só que a autora neste Aldeia dos Mortos vai ainda além ao fazer com que o seu improvável protagonista – uma menina, viremos a descobrir – se desloque até o passado para conhecer e tentar influir no destino dos antepassados. "No princípio, quando não se tem a capacidade de sonhar, talvez haja um vazio. Uma escuridão ou um clarão." Ao perceber o seu próprio corpo aumentar, da condição de uma bola gelatinosa e grudenta até  uma espécie de gergelim indefinido, o feto escuta murmúrios e "desconfia" que exista alguém além dele no universo que habita. Aos poucos aprende que as "paredes do seu quarto" estão se movimentando e...

Sandra Godinho - As Três Faces da Sombra

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Sandra Godinho - As Três Faces da Sombra - Editora Fora da Caixa - 196 Páginas - Capa e Diagramação de Sara Vertuan - Lançamento: 2020. As distopias que lidam com regimes políticos totalitários sempre ocuparam um lugar de destaque na literatura  e  os acontecimentos cruéis deste início de século XXI, norteados pelo fanatismo religioso, os interesses das grandes corporações, tragédias ambientais, atentados terroristas e, recentemente, o avanço de pandemias, parecem ter transformado os romances distópicos em ingênuos contos de fadas.  Em seu mais recente lançamento, Sandra Godinho desenvolve um exercício distópico ao imaginar uma nova ditadura militar no Brasil em uma narrativa de ação que prende a atenção do leitor do início até o final do livro. Salvador Ferreira Falcão, chamado de "General", título que ganhou em deferência à posição de destaque na política nacional, criou uma imagem de homem de bons princípios e de patriotismo e, devido à frustração de grande ...

Viviane Ferreira Santiago - As dez Marias

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Viviane Ferreira Santiago - As dez Marias - Editora Patuá - 200 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2019. O livro de Viviane Ferreira Santiago apresenta uma estrutura com características de romance histórico, novela e conto,  mas não pode ser enquadrado em nenhuma dessas categorias.  A narrativa principal é conduzida em formato de diário e cartas por  Maria Leopoldina da Áustria, a primeira esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1822 até sua morte em 1826, aos 29 anos. Múltiplas narrativas são Intercaladas, também em primeira pessoa, a partir de outras nove Marias, brasileiras de diferentes épocas, nem sempre famosas, mas todas compartilhando a mesma dor de sobreviver em uma sociedade injusta e patriarcal. Se, por um lado, Maria Leopoldina foi considerada por historiadores como  articuladora do processo de Independência do Brasil, por outro, tinha a postura submissa, impo...

Pádua Fernandes - O desvio das gentes

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Pádua Fernandes - O desvio das gentes - Editora Patuá - 160 Páginas - Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Alessandro Romio - Lançamento: 2019. O título desta coletânea de poemas de Pádua Fernandes, O desvio das gentes , é uma leitura irônica da expressão direito das gentes , definida em 1775 por Emer de Vattel  como: "A ciência do direito que tem lugar entre Nações ou Estados, assim como das obrigações correspondentes a esse direito." , ou seja, a especialização que é conhecida hoje como Direito Internacional Público, e que deveria abranger também os Direitos Humanos. Outra inspiração para o livro vem do tratado do filósofo Immanuel Kant, A Paz perpétua , lançado em 1795, que se tornou a base do Direito Cosmopolita, considerando que os indivíduos devem se comportar pacificamente com o intuito de se alcançar a paz de convívio mútuo.  Na introdução de Taís Franciscon, O deserto prega nos homens / O livro das catástrofes , fica claro que os poemas deste livro irão ref...

Mia Couto - Estórias abensonhadas

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Mia Couto - Estórias abensonhadas - Editora Companhia das Letras - 160 Páginas - Capa de Alceu Chiesorin Nunes - Ilustração de Angelo Abu - Lançamento no Brasil: 2016 (9ª reimpressão). É sempre um prazer renovado ler o moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões 2013 e primeiro autor em língua portuguesa a ser finalista do Booker International Prize na versão de 2015. A sua prosa poética é inspirada na rica tradição do folclore africano em contraste com a dura realidade das ex-colônias, depois dos efeitos devastadores de um movimento de guerrilhas pela independência de Portugal (1961 a 1974), sucedido por uma longa e violenta guerra civil (1977 a 1992) que deixou o país em destroços. Este livro, lançado originalmente em 1994, segundo Mia Couto, reúne contos escritos depois da guerra, "entre as margens da mágoa e da esperança" , quando tudo parecia indicar que Moçambique não conseguiria superar a destruição, no entanto, ainda citando a linda introdução do autor: ...