Julie Dorrico - Eu sou macuxi e outras histórias

Literatura brasileira contemporânea
Julie Dorrico - Eu sou macuxi e outras histórias - Editora Caos e Letras - 108 Páginas - Ilustrações de Gustavo Caboco - Projeto Gráfico: Cristiano Silva - Arte de Capa: Eduardo Sabino - Lançamento: 2019.

Sabemos que a assimilação da cultura indígena foi um verdadeiro genocídio em nosso país em vários níveis, inicialmente como uma guerra bacteriológica entre as moléstias que o branco trazia e eram fatais para a população nativa, depois pelas sucessivas e frustradas tentativas de escravização do índio. E ainda hoje não há lugar em nossa sociedade para os territórios e direitos indígenas, muito menos para a literatura indígena. Julie Dorrico nos apresenta com este livro o orgulho do pertencimento étnico e nos ensina o que já deveríamos saber: "de que afinal, humanos, florestas, animais, somos todos gente."

Em "O caminho de volta", o texto de apresentação do escritor e professor Daniel Munduruku, um dos expoentes da literatura indígena hoje, graduado em filosofia, história e psicologia, encontramos um alerta para cada um de nós identificar o caminho da ancestralidade e trabalhar a nossa memória que é a chave da descoberta de ser: "O saber só tem sentido quando ele nos esvazia de nós mesmos para dar passagem ao que não sabemos. Ou ao que esquecemos. Ou, ao que nos fizeram esquecer pela força do orgulho, da vaidade ou das posses."

Os contos e poemas de Julie Dorrico em "Eu sou macuxi e outras histórias", livro vencedor do Prêmio FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - Tamoios 2019, nos trazem as memórias de gerações passadas dos povos originários e da força indomável de uma natureza da qual nascemos: "Embora os territórios indígenas tenham sido tomados à força, não foram esquecidos pelos nossos povos. / Se algo pode ser cultivado neles, é porque foram adubados com sangue indígena. / Sempre lembraremos disso. / Os massacres aos pajés, caciques, chefes, guerreiros, cunhãs, curumins fazem escorrer o sangue dos filhos originários pela Mãe-Terra, mas nunca morremos: dela mais uma vez nascemos / como flor / fruto / pimenta / onça / cobra / ou de novo sob a forma de homem e mulher indígena."

Não há fronteiras para o pertencimento

De um porto a outro
De norte a sul
Karitiana, guarani e macuxi

De um gosto a outro
Cruzeiro-do-sul
Kaingang, omágua/kambeba, pankararu

De um porto a outro
De norte a sul
Do meu ponto de referência
Viva os munduruku!

De um gosto a outro
De norte a sul
Wapichana, mura e mara-guaçús
Baniwa, Kadiwel e Guaicurús

No silêncio dos olhos de meus parentes amarelos
Ouço os sons dos maracás
Vejo a cor do urucum e do jenipapo em suas peles
Sinto o orgulho do pertencimento que sempre exala em seus cabelos!
Em suas sombras toca o tambor:
Eu sou! Eu sou! Eu sou!
Indígena eu sou!

De um porto a outro
De norte a sul
Do meu ponto de referência
Viva os kai-gua-ya-xucu

De um porto a outro
De norte a sul
Povos indígenas
Nessa vida e em tantas outras
Eu sou.


O encontro com Makunaima

Quando Makunaima me encontrou
eu estava no estéril asfalto da vida.
Em sonho, ele me chamou!

Quando Makunaima me encontrou, soltou um:
– Já era tempo!
Eu concordei.

Quando Makunaima me enlaçou em seu amor,
eu soube que era macuxês.
Makunaima enviou o Ely para me dizer:
– Você é pemon-macuxi!
Eu aceitei.
E agora eu sei:

Eu sou pimenta
panela de barro
cobra
damorida
onça
olho puxado
cabelo preto
cor amarela
Eu finalmente posso dizer, com ternura, que sou macuxi.

Sobre a autora: Julie Dorrico nasceu nas terras da cachoeira pequena, mais conhecida como Guajará-Mirim. Mas foi às margens do Rio Madeira que cresceu ouvindo a mãe contar as memórias da família, dessas gentes que viviam lá quando acaba o Rio Amazonas. Um dia atravessaram esse rio gigante e foram conhecer os parentes em Boa Vista, em Bonfim (RR) e em Lethen (Guiana). Essa travessia, feita ainda na infância, foi, por meio da sua bisavó, o seu encontro com Makunaima e com o povo macuxi. Escreveu esse livro, objeto usado por não indígenas para contar por muitos séculos nossas histórias, para ocupar esse lugar de autoria, tão caro aos sujeitos indígenas. Também é doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. 

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