Adriana Vieira Lomar - Aldeia dos Mortos

Adriana Vieira Lomar - Aldeia dos Mortos - Editora Patuá - 196 Páginas - Ilustração, Projeto gráfico e Diagramação: Leonardo Mathias - Lançamento: 2020.

Adriana Vieira Lomar utilizou um recurso narrativo semelhante ao imaginado por Ian McEwan em seu romance de 2016, Enclausurado, no qual um feto em gestação conduz toda a trama, só que a autora neste Aldeia dos Mortos vai ainda além ao fazer com que o seu improvável protagonista – uma menina, viremos a descobrir – se desloque até o passado para conhecer e tentar influir no destino dos antepassados.

"No princípio, quando não se tem a capacidade de sonhar, talvez haja um vazio. Uma escuridão ou um clarão." Ao perceber o seu próprio corpo aumentar, da condição de uma bola gelatinosa e grudenta até  uma espécie de gergelim indefinido, o feto escuta murmúrios e "desconfia" que exista alguém além dele no universo que habita. Aos poucos aprende que as "paredes do seu quarto" estão se movimentando e que existe uma mãe que está com saudades do pai, assim como um tio que acaba de ser assassinado.
"Não tenho noção do que me ronda. Não tenho noção do que seja me movimentar. Nuvens, líquidos e sólidos fazem parte do meu dia a dia. Sou solitário e somente tenho por companhia um cordão. Não enxergo tanto, só penumbras. No meio do meu corpo existe um pulsar rápido. Mesmo quando esse pulsar trota, só fico parado, sugado todos os ingredientes desse cordão-esponja. Meu corpo aumenta rapidamente. E, aos poucos, os dedos, a mão e o pé se formam. A parede do quarto onde estou fica bem longe. Quente, frio, sono excessivo, palavras soltas sem conexão. Ainda não formo frases inteiras. Picoto as palavras. Uma célula, depois a outra, uma mitocôndria, depois a outra. Uma junção de planetas originou um corpo ainda sem forma. Por algum motivo que não percebo, meu corpo cresce e ganha forma. Não falta ar por aqui. O ato de respirar é fácil." (p. 8)
Aos poucos a ação se transfere para o passado, quando o feto em uma espécie de sonho passa a conviver com os habitantes do casarão do número 89 da íngreme Ladeira dos Martírios, apresentado pela governanta Lia, a guardiã das chaves da casa. Esta é uma família com predominância de mulheres, a matriarca é a Dona Dorinha, a Vó do Caco e, dentre os poucos personagens masculinos, destacam-se o avô José, os filhos Bernardo e Arthur, o professor Sardinha, pensionista do Casarão e, não podemos esquecer, o gato Matias. Entre as oito filhas de Vó do Caco e vô José, está a futura progenitora do nosso feto-protagonista.
"Não tenho coragem de contar a Lia que estou ali para tentar salvar o meu tio Arthur. Voltar ao tempo para que, ao nascer, eu o conheça. Meu propósito sempre foi esse, e me supreendi – pois, além do meu tio, encontrei uma família extensa. Lia também não se preocupa em saber. O destino não deve jamais ser desvendado. sofrer por antecipação significa sofrer duas vezes, com a angústia da total incapacidade para mudar o que já está traçado. A linha da vida pode ser lida por quem entende do assunto, mas quem tem poderes mágicos, como é o meu caso, pode perfeitamente tentar mudar o curso da história." (p. 95)
Enquanto o inusitado(a) protagonista, que ainda não tem nome, presencia em detalhes os acontecimentos no casarão da família, ao longo de décadas, e tenta evitar os fatos que levaram à morte do tio Arthur no presente, algo não ocorre como planejado durante a gestação e a vida da mãe passa a correr risco, uma ameaça ao seu próprio nascimento. Obviamente, a situação do narrador não nascido é completamente inverossímil mas, ao mesmo tempo, muito oportuna para que a autora possa explorar o comportamento de seus personagens com tudo aquilo que é próprio da nossa frágil condição humana e para isso também serve a literatura, sempre.

Sobre a autora: Adriana Vieira Lomar é integrante dos grupos literários "Os Quinze" e “Caneta, Lente e Pincel”. Pós graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO, publicou Carpintaria de sonhos, livro de poemas prefaciado por Ivo Barroso e em coautoria Contágios (Editora Oito e Meio), Ninhos (Editora Patuá) e Madre Terra - edição bilíngue Italiano e Português (Editora Acima Mandala). Tem alguns contos publicados em revistas literárias, quatro deles pela revista Subversa - “Bolos de laranja e chocolate, “A Prova”, “Saudades do meu Caubói" e "Uivos”.

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