Prêmios Jabuti e Portugal Telecom 2008

Cristovão TezzaCristovão Tezza confirmou as expectativas da crítica, vencendo na noite de ontem o Prêmio de literatura Portugal Telecom com "O Filho Eterno", também premiado com o Jabuti 2008, categoria melhor romance. O próprio Tezza comentou sobre o tema sofrido da história autobiográfica de um pai que vive a experiência de ter um filho com síndrome de Down. Ele declarou que escrever na terceira pessoa e não na primeira, foi necessário para se distanciar das coisas. "Foi um livro que levei mais de 20 anos para escrever", acrescentou.

Infelizmente ainda não li para postar uma resenha, mas no site do escritor existem várias críticas profissionais sobre este romance, é só clicar aqui. Seguem trechos do quarto capítulo de "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza (Editora Record, 240 páginas, lançamento 2007) que é mais forte do que qualquer resenha ou crítica:

"A manhã mais brutal da vida dele começou com o sono que se interrompe — chegavam os parentes. Ele está feliz, é visível, uma alegria meio dopada pela madrugada insone, mais as doses de uísque, a intensidade do acontecimento, a sucessão de pequenas estranhezas naquele espaço oficial que não é o seu, mais uma vez ele não está em casa, e há agora um alheamento em tudo, como se fosse ele mesmo, e não a mulher, que tivesse o filho de suas entranhas — a sensação boa, mas irremediável ao mesmo tempo, vai se transformando numa aflição invisível que parece respirar com ele. Talvez ele, como algumas mulheres no choque do parto, não queira o filho que tem, mas a idéia é apenas uma sombra (...)

Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz — parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta — passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros tempos, o punhal de um deles desceria num golpe medido para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam — uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquanto um dos médicos desenrola a criança sobre a cama. São as formas de um ritual que, instantâneo, cria-se e cria seus gestos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam.

Há um início de preleção, quase religiosa, que ele, entontecido, não consegue ainda sintonizar senão em fragmentos da voz do pediatra: 

— …algumas características… sinais importantes… vamos descrever. Observem os olhos, que têm a prega nos cantos, e a pálpebra oblíqua… o dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro… achatamento da parte posterior do crânio… a hipotonia muscular… a baixa implantação da orelha e…(...)

O pai lembra imediatamente da dissertação de mestrado de um amigo da área de genética — dois meses antes fez a revisão do texto, e ainda estavam nítidas na memória as características da trissomia do cromossomo 21, chamada de síndrome de Down, ou, mais popularmente — ainda nos anos 1980 — “mongolismo” (...)

Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada. Isso é pior do que qualquer outra coisa, ele concluiu — nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte são sete dias de luto, e a vida continua. Agora, não. Isso não terá fim. Recuou dois, três passos, até esbarrar no sofá vermelho e olhar para a janela, para o outro lado, para cima, negando-se, bovino, a ver e a ouvir. Não era um choro de comoção que se armava, mas alguma coisa misturada a uma espécie furiosa de ódio. Não conseguiu voltar-se completamente contra a mulher, que era talvez o primeiro desejo e primeiro álibi (ele prosseguia recusando-se a olhar para ela); por algum resíduo de civilidade, alguma coisa lhe controlava o impulso da violência; e ao mesmo tempo vivia a certeza, como vingança e válvula de escape — a certeza verdadeiramente científica, ele lembrava, como quem ergue ao mundo um trunfo indiscutível, eu sei, eu li a respeito, não me venham com histórias — de que a única correlação que se faz das causas do mongolismo, a única variável comprovada, é a idade da mulher e os antecedentes hereditários, e também (no mesmo sofrimento sem saída, olhando o céu azul do outro lado da janela) relembrou como alguns anos antes procuraram aconselhamento genético sobre a possibilidade de recorrência nos filhos (se dominante ou recessiva) de uma retinose, a da mãe, uma limitação visual grave, mas suportável, estacionada na infância. Recusa. Recusar: ele não olha para a cama, não olha para o filho, não olha para a mãe, não olha para os parentes, nem para os médicos — sente uma vergonha medonha de seu filho e prevê a vertigem do inferno em cada minuto subseqüente de sua vida. Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.

No momento em que enfim se volta para a cama, não há mais ninguém no quarto — só ele, a mulher, a criança no colo dela. Ele não consegue olhar para o filho. Sim — a alma ainda está cabeceando atrás de uma solução, já que não pode voltar cinco minutos no tempo. Mas ninguém está condenado a ser o que é, ele descobre, como quem vê a pedra filosofal: eu não preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pensamento como que foi deixando-o novamente em pé, ainda que ele avançasse passo a passo trôpego para a sombra. Eu também não preciso desta mulher, ele quase acrescenta, num diálogo mental sem interlocutor: como sempre, está sozinho."

Comentários

Djabal disse…
"Ela era um desses seres capazes de dedicar a vida à felicidade de alguém, fazer disso seu objetivo direto. Este fenômeno é um mistério. Nele residem a felicidade, a simplicidade e a alegria; mas não sei como nem por que ele acontece. E se não entendi o amor, de que me serve entender o resto?"
Michel Houellebecq

Essa é uma lembrança que ficou da leitura, pela visão de um outro artista, igualmente original.
A leitura é emocionante, complexa e completa. Um prêmio para um artífice da língua e da transmissão das emoções fortes e nada corriqueiras dessa vida.
Um grande abraço.
Clara Lopez disse…
Otima escolha do trecho, kovacs, é mesmo um dos momentos mais fortes do livro. O Tezza merece todas as honras, escreveu um grande livro.
um abraço,
clara lopez
Kovacs disse…
Djabal, até mesmo as suas citações são surpreendentemente contemporâneas (Sobre Michel Houellebecq, ver o site: http://www.houellebecq.info/english.php3).

Tezza realmente conseguiu transmitir emoções fortes e nada corriqueiras, sem cair no melodrama.
Kovacs disse…
Clara Lopez, precisei reduzir um pouco o texto do capítulo 4 para o formato de blog e não foi nada fácil, pois não queria cortar nada! Um texto arrepiante, verdadeiro, pura literatura (muito no estilo de Coetzee, você não acha?).
Maria Augusta disse…
Esse trecho é de arrepiar, muito forte mesmo. Estes momentos no qual todo o nosso ser recusa a realidade brutal que nos aniqüila foram magistralmente descritos pelo autor.
Quanto a Houellebecq, que foi citado nos comemtários, a gente adora ou odeio. Eu fico com a segunda opção, depois de anos ainda não consegui engolir " A Probabilidade de uma Ilha"...
Abraços e bom fim de semana.
Kovacs disse…
Maria Augusta, obrigado por participar, adoro quando a seção de comentários ganha vida própria e desenvolve temas paralelos ao da postagem original, como no caso em questão de Michel Houellebecq.
Leila Silva disse…
Eu também ainda não li, estou curiosa.
abraços
Kovacs disse…
Leila Silva, acho que é uma boa dica. Obrigado pela visita e comentário!
lumdila disse…
Já li o livro; é pura literatura. Cristovão Tezza escreve de forma pungente e o narrador tem um olhar devassador, expiatório - diante da verdade - um filho diferente. O narrador perfila todos os sentimentos suscitados desta nova relação; o quão difícil é aceitar o diferente. Lindo, mas a verdade dos sentimentos causa certo estranhamento ao leitor desprevenido. Adoro Cristovão Tezza, os textos critícos dele são soberbos, através deles, conheci Coetzee, Willian Golding, Mercê Rodoreda(fantástica), David Grossman. Tudo que ele indica, eu leio. E o prêmio foi merecido. Tezza é um escritor brilhante. Toda festa para ele. Espero que os leitores se deleitem com a verdade através das lentes de um escritor arguto.
Ah, Tezza já falava de Clezio, O Africano, mesmo antes, deste receber o Nobel. O cara é antenado. Que Tezza conquiste todos os leitores que merece.
lumdila disse…
Hoje, Folha Ilustrada, título: É Campeão! Nesta matéria, é citado o livro "Filho Eterno" dialogua com duas grandes obras que abordam o mesmo tema. A primeira "Uma questão Pessoal" Kenzaburo Oe, e "Nascer duas Vezes" Giuseppe Pontiggia. A verdadeira resposta para o livro, no entanto, veio do Prêmio Novel sul-africano J.M. Coetzee, autor de "Juventude". Tezza diz, "este é um dos livros mais cruéis que já li sobre a adolescência." Portanto, Kovacs, você tem aguçado feeling literário, o "Filho Eterno" tem um quê de Coetzee, com certeza! Parabéns.
Esclarecendo, Stefânia é minha filha, uso computador dela, para vasculhar sites literários, e na hora que digitei, saiu o nome dela, não sei o que aconteceu.
Chico disse…
Grande Kovacs.
Li o Filho Eterno. E Torci. Mas deixando minha patriotada de lado, gostei do Lobo Antunes, tambem. Concordo com algumas opinioes na internet sobre a sobra de alguns paragrafos inteiros que me dao a impressao de so estarem ali para afirmar a personalidade pedante de um protagonista de ambicoes literarias um tanto inconsistentes. Esse eh um dos aspectos que me deixou a desejar.

Com toda a sinceridade, faltou a voz da filha e da mae - para lembrar algo do protagonista de Boyhood e Youth do Coetzee - que o narrador quase nao evoca. Mas isso como ja disse, sao coisas minhas, de leitor chato, e que esta loge de querer aguar o chopp do Tezza.

Uma coisa eh certa, o Tezza, assim como Coetzee, não tem pena de seu protagonista mostrando-o muitas vezes repulsivo, evitando todo tempo a compassividade do leitor, tampouco coloca o filho como uma vitima - como voce mesmo disse tem passagens arrepiantes. Isso torna o livro otimo e contraditoriamente emocionante – pois uma historia como essa, poderia facilmente descambar o sentimentalismo barato. O Tezza se recusa a isso.

Kovacs, achei esse livro do Tezza fantastico!

Um grande abraco pra voce. Chico.

Grande postagem.
Kovacs disse…
Lumdila, você definiu muito bem o foco narrativo quando comentou que o olhar de Tezza é devassador e expiatório. Devassador porque não tenta esconder os sentimentos de fraqueza do ser humano diante da fatalidade de um destino incompreensível e expiatório porque funciona como um acerto de contas contra todo o sofrimento causado pelo filho. Enfim, um livro verdadeiro como toda literatura deveria ser. Obrigado pela visita e comentário sempre oportuno.
Kovacs disse…
Caro Chico, o seu comentário é melhor do que a postagem. Ótima a parte em que você afirma que, assim como Coetzee, Tezza não tem pena do seu protagonista, mostrando-o muitas vezes repulsivo. Esta coragem de Tezza em lidar com uma história de caráter autobiográfico é simplesmente maravilhosa. Uma obra que prova ser possível a separação entre emoção e sentimentalismo barato. Obrigado pela visita!
Sonia disse…
Ainda não li, mas as referências de quem já leu são as melhores. E o trecho postado aqui só fez aumentar tanto o desejo quanto o temor de ler.
Kovacs disse…
Sonia, acho que você expressou muito bem, pois o trecho que postei desperta esta sensação ambígua de desejo e temor pelo livro. Obrigado pela presença.
Iza disse…
Ainda não li.
Leu a resenha que o Idelber Postou no blog "O Biscoito fino e a Massa"?
Muito boa tb
Kovacs disse…
Iza, gostei muito também da resenha do Polzonoff. Na página do Tezza existem várias críticas e resenhas disponíveis. Obrigado pela visita.
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