Julio Cortázar - Papéis Inesperados

Literatura argentina
Julio Cortázar - Papéis Inesperados - Editora Civilização Brasileira - 487 páginas - Publicação 2010 - Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht - Compilação de Aurora Bernárdez, viúva do escritor, e Carles Álvarez Garriga

Um livro póstumo com seleção de textos inéditos e dispersos, lançado vinte e cinco anos após a morte do autor, sempre desperta alguma suspeita quanto ao caráter oportunista dos editores, mas posso garantir que não é o caso deste "Papéis Inesperados" de Julio Cortázar (1914-1984) como esclareceu muito bem Carlos Álvarez Garriga, um dos compiladores desta antologia, no prólogo: "Editar textos póstumos traz à memória de todos o episódio Kafka/Brod e as duas correntes de pensamento que se enfrentam a esse respeito: os 'leitores-herói' querem ler até os bilhetes para o padeiro, enquanto os 'leitores-vinagrete' têm uma imagem fixa do escritor - a quem não necessariamente frequentam - e consideram uma traição à sua memória, e um abuso!, submetê-los a mais leitura (...)". Tenho de deixar claro que, no meu caso, assim como acredito que também para uma legião de cronópios, até os bilhetes deveriam ser preservados e publicados.

É claro que não podemos exigir uma unidade de estilo e qualidade (apesar de não achar a palavra muito apropriada) neste volume que reúne fases distintas da carreira de Cortázar. Os compiladores organizaram os textos em três grandes conjuntos que seguem uma cronologia aproximada: poemas, prosas e autoentrevistas. As prosas, por sua vez, foram divididas em: "Histórias", "Histórias de Cronópios", "Do Livro de Manuel", "De um tal Lucas" (algumas preciosidades aqui como "Hospital Blues"), "Momentos", "Circunstâncias", "Dos Amigos" e "Outros Territórios". A última parte, "Fundos de Gaveta", reúne alguns trabalhos inclassificáveis, talvez como a maior parte da obra de Cortázar.

Importante destacar que alguns textos políticos ficaram um pouco datados, como é o caso das crônicas sobre a revolução cubana e também a perseguição política pelos regimes militares na América Latina. De qualquer forma, permanece o valor histórico desses textos e também o brilhantismo do escritor que, mesmo escrevendo sobre política, não consegue abandonar a criatividade e lirismo dos contos e romances. Algumas postagens atrás deixei um exemplo de conto inédito lançado neste "Papéis Inesperados" (ler Peripécias da Água clicando aqui), agora não resisto e transcrevo outro maravilhoso exemplo, de efeito totalmente diverso, diga-se de passagem, para os cronópios de plantão (notem como o texto é desenvolvido de um só fôlego, passando por cima da pontuação até o efeito final):

A fé no Terceiro Mundo
(Julio Cortázar)

Às oito da manhã o padre Duncan, o padre Heriberto e o padre Luis começam a inflar o templo, quer dizer, estão à beira de um rio ou numa clareira na selva ou em qualquer aldeia quanto mais tropical melhor, e com a ajuda da bomba instalada no caminhão começam a inflar o templo enquanto os índios dos arredores os observam de longe e bastante estupefatos porque o templo que a princípio era como uma bexiga amassada começa a se erguer, arredondar-se, esponjar-se, no alto aparecem três janelinhas de plástico colorido que devem ser os vitrais do templo, e afinal salta uma cruz no ponto mais alto e pronto, plop, hosana, soa a buzina do caminhão à guisa de sino, os índios se aproximam assombrados e respeitosos e o padre Duncan os estimula a entrar enquanto o padre Luis e o padre Heriberto os empurram para que não mudem de ideia, de maneira que o serviço começa assim que o padre Heriberto instala a mesinha do altar e dois ou três enfeites muito coloridos e que portanto devem ser altamente santos, e o padre Duncan canta um cântico que os índios acham extremamente parecido com os balidos das suas cabras quando um puma ronda por perto, e tudo isto ocorre dentro de uma atmosfera extremamente mística e de uma nuvem de mosquitos atraídos pela novidade do templo, e dura até que um indiozinho entediado começa a brincar com a parede do templo, quer dizer, crava um ferro só para ver como é aquilo que se enche e obtém o resultado exatamente oposto, o templo se desinfla precipitadamente e na confusão todo mundo se atropela procurando a saída e o templo os envolve, aperta e embrulha sem fazer nenhum dano é claro mas criando uma confusão nada propícia à doutrina, sobretudo quando os índios têm abundantes oportunidades de ouvir a chuva de puta-merdas e de porras que os padres Heriberto e Luis soltam enquanto se debatem debaixo do templo procurando a saída.

Comentários

Homo libris disse…
Aquí en España también fue publicado y es un libro que tengo muchas ganas de leer, tal vez por seguir descubriendo a nuestro imprescindible Julio.

Un abrazo.

--

Aqui na Espanha também foi publicado e é um livro que eu realmente queria ler, talvez seguindo o nosso achado essencial em julho.

Um abraço.
Mi Müller disse…
Báh faz tempo que quero ler algo do Cortázar, gosto tanto das tuas postagens sobre ele, sem dúvida deve ser uma experiência única.
estrelinhas coloridas...
Kovacs disse…
Homo libris, obrigado pela gentileza de comentar em português e espanhol. Um abraço.

Gracias por su amable comentario en portugués y español. Un abrazo.
Kovacs disse…
Mi, um grande autor e recomendo iniciar por algum dos livros de contos, tenho certeza de que você vai gostar muito.
Tabuleiro Chic disse…
Adorei o post e o blog! To seguindo! Passa no TC para conhecer!!
Bjos,

Flavia

Www.tabuleirochic.com
Alvinegro disse…
Boa Tarde, somos do Geral Promocao e gostaríamos de saber se vocês aceitam uma parceria entre nossos sites? Aguardo retorno.

Conheça nosso site: Geral Promoção. , claro se quiser.
Kovacs disse…
Tabuleiro Chic, seja bem-vindo por aqui e obrigado pelo comentário. Vou lá conhecer o seu blog.
Kovacs disse…
Alvinegro, obrigado pela visita e até o momento não tenho qualquer esperança de retorno financeiro com este blog, razão pela qual não pretendo participar de promoções ou parcerias, preferindo manter a independência editorial.

De qualquer forma, mais uma vez obrigado e sou muito simpático ao termo "alvinegro" uma vez que o Botafogo do RJ é o meu time do coração.
bento moura disse…
Querido K,

Preciso confessar que ultimamente uma espécie de 'abatimento' anda me rondando, o que talvez justifique minha lonjura dos livros.

Mas depois de "Peripécias ..." e agora com este conto, fiquei tentado a retomar o hábito, porque preciso de um pouco de vento no rosto ... algo assemelhado a "um pouco de sol na água fria".

Ler sem pressa, calmamente. Abraços.
Kovacs disse…
Gerana, obrigado pelo elogio!
Kovacs disse…
Caro Bento, nada melhor do que um bom livro para salvá-lo de vez do abatimento ou quem sabe distraí-lo enquanto o sentimento não passa. Mas quem sou eu para aconselhar quando você já tem o seu trabalho que deve ser a melhor terapia. Obrigado pela visita!
myra disse…
Otimo!!!!
e obrigada pelo comentario!
abraço
Kovacs disse…
Myra, eu é que agradeço a sua visita!
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