Ernesto Sabato (1911-2011)

Literatura argentina

"Mas nem sempre os homens sentados e pensativos são velhos ou aposentados.

Às vezes são homens relativamente moços, indivíduos de trinta ou quarenta anos. E, coisa curiosa e digna de reflexão (pensava Bruno), parecem tão mais patéticos e desvalidos quanto mais jovens são. Pois o que pode haver de mais pavoroso do que um rapaz sentado e pensativo num banco de praça, angustiado por seus pensamentos, calado e alheio ao mundo a seu redor? Às vezes, o homem ou rapaz é um marinheiro; outras vezes, talvez seja um emigrante que gostaria de regressar à pátria e não pode; volta e meia são criaturas incapazes para a vida, ou que deixaram a casa para sempre ou meditam sobre sua solidão e seu futuro. Ou pode ser um rapazinho como o próprio Martín, que começa a ver com horror que o absoluto não existe.

Ou também pode ser um homem que perdeu o filho e que, de volta do cemitério, se encontra sozinho e sente que agora sua existência carece de sentido, refletindo que, enquanto isso, há homens por aí que riem ou são felizes (mesmo sendo apenas momentaneamente felizes), meninos que brincam no parque, ali (está vendo-os), enquanto seu próprio filho está debaixo da terra, num caixão pequeno adequado ao tamanhinho de seu corpo que, quem sabe, finalmente deixará de lutar contra um inimigo atroz e desproporcional. E esse homem sentado e pensativo medita de novo, ou pela primeira vez, sobre o sentido geral do mundo, pois não consegue entender por que seu filho precisou morrer assim, por que teve de pagar por um pecado de outros, com sofrimentos imensos, com seu coraçãozinho torturado pela asfixia ou paralisia, lutando desesperadamente, sem saber por quê, contra as sombras negras que começam a se abater sobre ele.

E este, sim, é um homem desamparado. E, coisa curiosa, pode não ser pobre, é até possível que seja rico, e até poderia ser o Grande Banqueiro que planejava a formidável Operação com divisas fortes, evocada antes com ironia e desdém. Desdém e ironia (agora era fácil entender) que, como sempre, eram excessivos e definitivamente injustos. Não há homem que, em última instância, mereça o desdém e a ironia, já que, cedo ou tarde, com divisas fortes ou não, ele é atingido pelas desgraças, pelas mortes dos filhos, ou irmãos, por sua própria velhice e solidão diante da morte. Terminando, enfim, mais inválido que ninguém, pela mesma razão que é mais indefeso o homem de guerra flagrado sem sua cota de malhas do que o insignificante homem de paz que, por nunca ter tido esta proteção, tampouco sente sua falta."

Sobre Heróis e Tumbas - Ernesto Sabato

Mais Sobre o autor no Mundo de K:

Comentários

Lígia Guedes, disse…
Kovacs, bela homenagem.
Anônimo disse…
Que texto lindo!
Clara Lopez disse…
Esse é o texto clássico da literatura clássica contemporânea, né não, kovacs? Bem escrito, conteúdo forte e uma lição de grandeza humana. E acho das melhores homenagens a um autor expor seu texto - se for bom falará por ele melhor do que qquer google possa fazer.
um abraço,
clara
Kovacs disse…
Lígia, grande autor. Obrigado pela visita e comentário.
Kovacs disse…
toca do Paulo, tratando-se de Ernesto Sabato fica fácil encontrar textos incríveis.
Kovacs disse…
Clara, entendo que não exista homenagem melhor do que publicar os próprios textos do autor.
Tais Luso disse…
Bela esta sua homenagem, Kovacs!

A primeira grande paixão de Sabato, desde criança, foi a pintura, quando ainda não lia e nem escrevia.

Passou para a tela seus pesadelos, suas alucinações e contradições de sua tumultuada existência, quando se envolveu, também, com a política.

Segundo uma entrevista, dada por seu filho Mário Sabato, 'seu pai era a essência de um homem austero, que tem como seus maiores valores a justiça, a amizade, a liberdade e compaixão. Era obcecado pela ordem e econômico nos afetos. Proporcionava as tempestades e sua mãe os amanheceres'.

'O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles.
A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais'.

Em meu blog 'Das Artes' falo e mostro um pouco de Sabato, mas como artista plástico. Suas obras são pesadas e revelam um pouco mais da alma deste grande escritor. Realmente tive trabalho em descobrir suas poucas obras. Deixo aqui o link. Parabéns pela sua bela homenagem.

http://taislc.blogspot.com/2011/02/escritor-ernesto-sabato-e-suas-pinturas.html

bjs, amigo.
Kovacs disse…
Tais, obrigado pelo comentário vou seguir o seu link para conhecer mais detalhes.
Raquel Amarante disse…
Extasiada com este blog!!
Era tudo o que eu precisava achar!
Bjo Kovacs!
Impossível não seguir!!!!!!!!!!!
Kovacs disse…
Raquel bem-vinda por aqui e obrigado pelo comentário gentil.
myra disse…
grandissimo escritor!
abraços
Anônimo disse…
Caro K,
Excelente artigo sobre Sábato.
Bem impressionante a qualidade do texto dele...
Por incrível que pareça, nunca li obras deste autor, apesar de ter também nascido naquela terra ingrata.
Graças ao teu artigo, fiquei com vontade de começar a ler Sábato.
Qual obra você me recomendaria como introdução?
Grande abraço,
R. Halevy
Kovacs disse…
Myra, obrigado pela visita e comentário.
Kovacs disse…
Caríssimo Halevy, incompreensível o fato de um argentino ainda não ter lido Sabato, ainda mais um argentino do seu nível cultural. Algo assim como um brasileiro não ter lido Machado de Assis, se é que me entende. Recomendaria começar por "O escritor e seus fantasmas". Grande abraço.
Anônimo disse…
Prezado K,
Por favor, não vamos nos atirar com flores...
Mas a cultura literária no meu país natal tem decaído bastante nas últimas décadas, em relação ao padrão histórico, quando a Argentina era considerada como um país de bom nível cultural.
Hoje em dia, poucos argentinos das gerações mais novas têm lido os grandes ícones locais como Borges, o próprio Sábato etc.
Quanto a Machado, de fato li diversas obras dele e, ao contrário das opiniões dos meus colegas de faixa etária (na época), gostei muito e me identifiquei com o estilo - é verdade que em certos casos precisava de um dicionário estacionado na mesa, mas isso foi até bom para aumentar o vocabulário.
Agradeço a dica quanto à primeira obra recomendada para introdução a Sábato.
Grande abraço e boa semana,
RH.
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