Ernesto Sabato - El escritor y sus fantasmas

Este livro, publicado originalmente em 1963, pode ser considerado como uma espécie de diário do escritor argentino Ernesto Sabato (1911-2011) no qual ele apresenta as suas dúvidas, críticas, teorias e reflexões sobre a literatura e o ofício de escritor. Segundo o próprio Sabato definiu na apresentação à primeira edição: "este livro é constituído por variações de um só tema: por que, como e para que se escrevem ficções?". Sendo assim, os tópicos estão sempre relacionados com a sua própria escrita ou de outros autores que  podem ser apenas citados como Proust, Tostoi, Balzac, Kafka, entre muitos outros, ou através de uma análise crítica mais demorada como: nos casos de Robbe-Grillet, Nathalie Sarraute, Jorge Luis Borges e Jean Paul Sartre.

Sabato comenta sobre a inutilidade de uma "literatura nacional" já que em autores como Kafka (e ele próprio, diga-se de passagem) não conseguimos identificar elementos nacionalistas, mas sim universais. Adicionalmente, considera impossível uma literatura sem a influência cultural européia porque, segundo ele, não existe uma originalidade absoluta, Faulkner vem de Joyce, Huxley, Balzac e Dostoiévski. Há páginas em O Som e a Fúria que parecem plagiadas de Ulisses. Sem falar da cultura negra americana que soube criar, à partir da herança anglo-saxã, toda a música moderna que fazemos hoje no mundo.

Algumas ideias de Ernesto Sabato: "O romance é um gênero impuro por excelência. Resiste a qualquer explicação e extrapola todas as limitações". "O fanatismo é a essência do criador, é preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante pode ser feito". "Nos últimos tempos foram feitas inúmeras tentativas para se transpor o livro para a técnica cinematográfica, mas obras de Proust, Virginia Woolf ou Faulkner são essencialmente literárias e irredutíveis a qualquer outro meio de expressão". Concordando ou não com Sabato vale a pena conhecer os pontos de vista de um dos maiores escritores contemporâneos.

Existe uma edição antiga em português da Editora Companhia das Letras, "O Escritor e Seus Fantasmas", traduzido por Pedro Maia Soares e publicada em 2003.

Comentários

Mi Müller disse…
Báh Kovacs mais um livro para a lista de leituras, adoro este tipo de texto em que o autor reflete sobre o processo criativo e o exercício da escrita, sendo Sabato a fazer isso deve ser um texto primoroso.
até mais...
Bento Moura disse…
Meu querido Kovacs...

Uau!!!

Imagino que seja preciso uma agudeza profunda, algo como a coragem ou destemor para se propor estas questões levantadas. E na mesma medida, sentir como a lâmina em brasa, em torniquete, cravando a carne, varando o peito - É o que equivale às perguntas e suas possíveis respostas.

Assim, a escrita enquanto veículo de mediação (um elo, talvez?). Mas nos atentemos não a escrita-objeto, e sim a pergunta seria quem seria (?) o Sujeito. Posto desta forma,podemos chegar ao núcleo da questão. E já não interessa reproduzir o que quer que seja - Mas para isto, também é necessário assumir a gravitação no limbo, ou melhor, no vácuo.

Então aí se poderia pensar numa ficção como entidade reprodutória? Num mero simbolismo? Não porque seria relegar a escrita a um mero escafandro. Mas, partindo da Escrita enquanto entidade autônoma numa própria existência que tem sua cosmologia e ATENDE a si mesma, então o termo ficção pérderia o sentido - já que, neste cosmo ela é sujeito, objeto e predicado.

E dispensa, inclusive, o autor. Passa a se bastar: Tem seu bojo, seu universo e sua gravidade. O hostil, nisso tudo, é que a Vida seria acessório. Ou predicado. E estranhamente, Sujeito às avessas.

...

Concordo com S. sobre essas coisas de nacionalismos. Acho que só existe o humano. Aquilo que se chama de nacionalismo é como uma roupagem, da mesma maneira que uma árvore (vegetação) tem suas características próprias quando no deserto, na savana ou no gelo. Muda a configuração mas a raiz é a mesma: tundra, arbusto, savana...
myra disse…
oi, Sabato é um grande, e o Nelson Rodrigues eu adoro!!!!
beijo
Kovacs disse…
Mi, obrigado pela visita e pode acreditar que é mesmo um excelente livro!
Kovacs disse…
Bento, acho que esta resenha não conseguiu passar (nem de longe) a totalidade e complexidade dos assuntos apresentados por Sabato. Na verdade, o livro é muito fragmentado e uma espécie de ensaio filosófico sobre a escrita. Você vai gostar muito tenho certeza.
Kovacs disse…
Myra, obrigado pela visita sempre importante e espero que já esteja adaptada em Jerusalem.
Cláudia Charão disse…
Kovacs fiquei muito interessada, apesar de não ler tanto gosto muito desse tipo.

Ótima dica, vai para a lista.
Kovacs disse…
Cláudia, obrigado pela visita e garanto que você vai gostar deste livro.
Raramente alguém fala de um escritor como Sábato, por não ser um autor de moda.

citando:

«As modas são legítimas nas coisas menores, como o vestuário. No pensamento e na arte, são abomináveis»

«Viver consiste em construir recordações futuras»
Kovacs disse…
Álvaro, obrigado pelo comentário e seja muito bem-vindo por aqui! Concordo que Sabato definitivamente não é um autor da moda, mas acabou se tornando eterno.
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